Homem de Ferro: E o coração da Marvel nos cinemas

A primeira vez que assisti a Homem de Ferro (2008), a percepção da obra me veio como algo despercebido. Havia o entendimento de que se tratava da adaptação de um projeto da cultura pop, mas sem um aprofundamento do que de fato isso significaria. Quase uma década depois, as ideias sobre a significação do longa me vem de forma muito natural a partir de tudo o que o filme, aos olhos do hoje, representa para a cinematografia de gênero dos nosso tempos.

Adaptados dos personagens criados por Stan Lee em 1963, o longa conta a estória de Tony Stark (Robert Downey Jr.), magnata do ramo armamentista que é capturado em território afegão e constrói uma armadura de alta tecnologia para destruir seus captores e com a qual passa a combater o crime. Partindo dessa sinopse, entramos nas camadas reflexivas que nos levam ao interior do filme.

A primeira e certamente a mais sólida diz respeito à fidelidade da mitologia em torno da criação do herói. Onde o diretor Jon Fraveau conseguiu dosar vários aspectos do enredo das narrativas originais das histórias em quadrinhos (HQs) numa contextualização histórico-política em que os anos 2000 se inserem.

Porque se em 1963, as aventuras de Tony se davam em meio à Guerra do Vietnam e os conflitos da Guerra Fria, no longa de 2008, o fio da trama se desenrola no interior dos conflitos no Oriente Médio e as contraditórias questões armamentistas e bélicas onde os Estados Unidos são lembrados e não obstante marcaram presença na estória moderna.

Se em 1963, as aventuras de Tony se davam em meio à Guerra do Vietnam e Guerra Fria, no longa de 2008, o fio da trama se desenrola nos conflitos do Oriente Médio e as questões armamentistas envolvendo os Estados Unidos.

Se em 1963, as aventuras de Tony se davam em meio à Guerra do Vietnam e  Guerra Fria, no longa de 2008, o fio da trama se desenrola no s conflitos do Oriente Médio e as contraditórias questões armamentistas envolvendo os Estados Unidos.

Portanto, um ponto chave do longa é a aura política e ideológica. Tudo, entretanto é colocado de maneira relativamente sutil, até mesmo para que não houvesse nenhum contrabalanceamento entre as esferas lúdicas (ligadas ao mito do herói que se percebe como tal a partir da sua inserção direta nos conflitos os quais havia financiado e tirado seus lucros), e conceitual ligadas ao pano de fundo histórico.

Mas entrando um pouco mais nas camadas do filme em si, é interessante notarmos o salto que ele representa nos trabalhos adaptados das HQs desde Homem-Aranha 2 (2004). Aqui, a Marvel dá o primeiro passa rumo a um exitoso processo que se estenderá até 2020 a partir do chamado Universo Cinematográfico Marvel (UCM). Há um sentido de unidade, coesão e planejamento imensos revestidos na representação de um trabalho inicial.

Seminal, portanto, seria a palavra que melhor se adequaria ao que Homem de Ferro figura quando hoje o rememoramos. Não falamos do fato de o filme “saltar faíscas”, ser “espetacular” ou de todas as demais baboseiras imprimidas nas capas dos dvds com o vazio intuito do endosso de uma mídia patrocinadora. Não, se olhamos para o longa quando este se aproxima de uma década do seu lançamento é para dizermos mais.

É para afirmamos o quanto obras adaptadas das HQs podem ser referenciais. Verdadeiros catalisadores que nos levam a um reflexão bastante positiva de como o cinema opera para além do entretenimento, quando discutimos os limites e maneiras de expansão no trato dos gêneros. Porque Homem de Ferro é um filme sobre super-heróis, mas não uma a ventura caricatural de tudo o que esses caracteres não representam. Isso fica mais a cargo dos comentários inúteis descritos no parágrafo anterior.

Há modulações, claro. Outros longas inseridos no UCM estão mais ligados a propostas de um entretenimento sem compromisso e com qualidade bastante questionável. Liste-se ai Thor (2011) e mesmo Vingadores (2012). Obras que estão num contexto, mas que se analisadas separadamente respigam traços caricaturais que enfraquecem sobremaneira as adaptações em termos de sentido, por exemplo.

Observar a precaução no trato destes detalhes talvez seja algo que eleve tanto Homem de Ferro. Uma vez que o filme não se excede em nenhum momento. Há pontos inspirados na personalidade dos personagens que são pincelados sem que o temor do julgo politicamente correto recaia sobre o trabalho final. O problema de Tony com o alcoolismo, que apesar de não ser referenciado no longa como tal, é entretanto pontuado exatamente nos primeiros 30 minutos de projeção a partir das várias doses de bebidas tomadas pelo herói.

 

Homem de Ferro é um filme sobre super-heróis, mas não uma a ventura caricatural de tudo o que esses caracteres não representam. Por isso soa firme e em equilíbrio com a proposta do gênero que o adapta.

Assim, passando de 1963, quando de sua criação nas HQs, e de 1978 nas primeiras aparições das pitorescas adaptações dos Vingadores nas TVs daquele ano, o fato é que Homem de Ferro de Jon Favreau abriu não somente o caminho para a realocação dos projetos da Marvel na história da cinematografia moderna.

O filme pode ser lido como uma espécie de coração da Marvel em sua concepção cinematográfica de gênero. E modulou igualmente a carreira de Downey Jr, que certamente será lembrado por décadas como um dos mais críveis e carismáticos atores a representar o gênio da indústria armamentista e magnata do universo Marvel nos cinemas. Retorno esse que, a propósito, dera um passo importante quando o ator integrou ainda em 2005 o elenco do excelente “Boa Noite, Boa Sorte” (2005) dirigido por George Clooney.

E já que falamos de contextualização para o sedimento de novas diretrizes do gênero na adaptação das estórias desses heróis para as telas, foi com a obra dos irmãos Joe e Anthony Russo que a Marvel deu mais um relevante passo rumo a sua caracterização na cinematografia moderno. Falamos do que significou Capitão América: O Soldado Invernal.

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Iron Man

Tempo de Duração: 126 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2008

Gênero: Ação, Aventura, Sci-Fi

Direção: Jon Favreau

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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