Homem-Aranha 2: E a aura contextual do filme de super-herói

O mito do Homem-Aranha tem início na vida de uma criança por volta dos dois anos de idade. Às vezes, até antes. E o personagem criado pelo quadrinista Stan Lee em 1941 atravessou décadas seguidas nas mais diversas mídias passando pelos quadrinhos, televisão, videogames e cinema. Nesse último campo, entretanto, a escala artística e comercial de representação do herói alcançou um nível que não havia sido experimentado, até então. Assim foi que ainda na primeira metade dos anos 2000, o veterano realizador americano Sam Raimi lançou seu icônico Homem-Aranha 2 (2004).

Sequência de Homem-Aranha (2002), o longa acompanha os dias de Peter Parker (Tobey Maguire) dois anos após os eventos que o tornaram o herói de Nova Yorque no alter-ego Homem-Aranha. Na estória, o “amigo da vizinhança” tenta gerenciar a própria vida enquanto tem de deter a ameaça em que seu próprio professor, Otto Octavius (Alfred Molina) se transformou ao assumir a identidade de “Dr. Octopus.

Chegado esse ponto, quais reflexões nos levam ao entendimento do porquê esse filme se faz como uma das maiores referências de obras adaptadas ao cinema das Histórias em Quadrinhos (HQ) de super-heróis? Primeiramente podemos falar da obra como um marco definidor de parâmetro do gênero em questão. Ao lado de seu antecessor Homem-Aranha (2002), e X-Men (2000).

Curiosamente, os trabalhos encabeçados pela Marvel Studios trouxeram um fôlego a essas produções que felizmente, podem ser contemplados, hoje, aos olhos do contexto histórico como obras que sedimentaram as criações que seguiram ao longo dos anos 2000. O recém-lançado “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” (2017) é resultado dessa trilha contextual. Voltaremos a ele logo, mas antes, falemos da identidade que Raimi trabalhou em seu 11º filme, então lançado.

Esse estar identitário talvez seja o maior traço no Aranha de Raimi. Uma vez que o personagem por ele descrito está muito ligado às concepções do herói das décadas de 1960, 70 e 80. Ele é o Parker clássico, por natureza. A relação mantida com os mentores, seus tios Ben (Cliff Robertson) e May (Rosemary Harris), é mais estreita e os entraves da vida cotidiana são tão desafiadores quantos os relacionados aos que o herói tem de encarar enquanto escala os céus de sua cidade.

O “Aranha” de Tobey Maguire é o herói clássico. Suas aflições da vida cotidiana se equiparam aos desafios que o herói mascarado enfrenta.

Toda essa gama conceitual nos vem como uma grande metáfora do quanto Homem-Aranha 2 serviu de paradigma a um novo fazer cinematográfico do gênero no século que se iniciava. Ali, havia uma semente plantada pela Marvel que se estenderia pelas décadas seguintes, dada suas modulações. E após anos de tentativas frustradas pelos longas dos anos 1990, como fora Capitão América, por exemplo, o longa de Raimi firmou-se enquanto proposta da arte e do mercado. E as cifras alcançadas pela obra são uma prova irrefutável disso.

Sim, muitos de nós vimos o filme no cinema. E para muitos também foi esse o momento em que a experiência afetiva precedeu o case econômico. Vimos a versão de Richard Donner para Superman (1978) ou de Tim Burton para Batman (1989), mas faltava a vivência da Marvel em escala cinematográfica. E Homem-Aranha 2 foi esse traço, agora consolidado pela simbologia da sequência que replica e mantém a aura prescrita no filme antecessor.

Homem-Aranha 2 foi esse traço consolidado pela simbologia da sequência que mantém a aura prescrita no filme antecessor.

Falamos do índice afetivo junto à geração que não acompanhou a criação do mito no cinema, até então. Por isso o longa traz em sua gênese o gosto do início de uma dupla jornada: nossa, enquanto espectadores e do grupo criador, aquele contexto, rumo às primeiras experiências bem-sucedidas na escala cinematográfica. É claro, há certas incongruências neste filme, mas elas nos soam muito como liberdades poéticas dentro do cânone que se estabelecia.

A escolha de Parker lançar mão de uma “teia orgânica”, assim como o fato de não entendermos direito como o traje foi concebido, são pontos que saltam como brechas difíceis de serem analisadas seja como espectadores mais passivos ou analíticos. Porque se na primeira década dos anos 2000, esses eram pontos que se situavam fora de uma curva lógica. Na segunda década deste século elas já não aparecem tão soltas.

E é ai que “Homem-Aranha: De volta ao Lar”, por exemplo, redefine o filme que lhe foi uma fonte. Na nova estória, sabemos que o cabeça de teia é o herói dos gadgets. E mais que isso, sabemos de onde todas as traquitanas de que faz uso provém. Ou seja, são cortesias do novo mentor: Tony Stark. E a exemplo das narrativas dos quadrinhos, o Homem de Ferro agora é o mentor do herói na cinematografia.

Mas falamos de algo maior. Porque esses são tópicos que estão dentro de uma proposta desse fazer cinematográfico que a Marvel vem seguido ao dotar as aventuras de seus heróis a partir de um crivo mais verossímil, naturalista. Assim como o foi nos excelentes Capitão América: O Soldado Invernal (2013) e Guerra Civil (2016). Que se faz possível dentro das impossibilidades às quais esses personagens se dotam. Portanto, não estamos discutindo universos antagônicos.

A disparidade não cabe na análise conceitual desses filmes. O que há é contexto. Já que o sentido da leitura parece muito mais residir no fato de que, sim, o Homem-Aranha de Sam Raimi e Maguire é aquele que os anos 2000 precisava. E o Aranha dirigido por Jon Watts e estrelado por Tom Holland é aquele que essa década precisa. Porque as crianças e jovens de 14 a 16 anos que estão indo às salas de cinema agora, serão aqueles que certamente olharão para as futuras versões desse mítico personagem com o mesmo entusiasmos o qual olhamos para as versões que tivemos o prazer de acompanhar.

Homem-Aranha 2 talvez seja uma infinidade de coisas além do que podemos ter aqui mencionado. De filme referencial a obra com contorno hedônico, ligada às nossas lembranças do vislumbre que foi e é ver o personagem em seus voos pelos céus. É trabalho de um cinema que se pensa na escala do equilíbrio da aventura com variações tonais mais dramáticas. Tom esse que alçou outro salto definitivo no ano de 2008 quando Christopher Nolan lançou seu paradigmático Batmam – O Cavaleiro das Trevas.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Spider-Man 2

Tempo de Duração: 127 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2004

Gênero: Ação, Aventura

Direção: Sam Raimi

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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