A Herança: E a cinematografia brasileira como tragédia, por Daniel Araújo

A cinematografia brasileira atravessou diferentes épocas. E da era dos primeiros filmes de paisagem do início do século XX, até chegarmos às produções gestadas em pleno enrijecimento da Ditadura Militar nos anos 1970, os filmes em nosso País se desenvolveram consideravelmente em um fluxo contínuo e bastante técnico. Dentro dessa linha conceitual foi que surgiram realizadores como Ozualdo Candeias. E uma de suas obras mais referenciais do período setentista brasileiro foi o inventivo e provocador “A herança” (1970).

O longa conta a estória de Omeleto (David Cardoso), filho de um fazendeiro que, após a morte de seu pai, retorna a uma região interiorana do Brasil. Chegando lá, o jovem descobre uma conspiração que estaria sendo armada pelo próprio tio e que colocaria a honra de Omeleto em jogo. Desses eventos se desenrolam uma trama com contornos trágicos envolvendo esses personagens.

O que Ozualdo, na verdade, nos apresenta é um drama que adapta Hamlet de Shakespeare no contexto do Centro-Sul brasileiro somado a uma roupagem de faroeste ítalo-americano. Daí é que emerge o caráter inventivo desse que é um dos mais representativos longas desse período. Ozualdo poderia criar uma narrativa naturalista com todas as fases de que um filme se estrutura (do prólogo ao clímax), mas abdica dessa estrutura em função do corpo que ele acredita que melhor se adéqua para a trama que desejaria discorrer. E que escopo seria esse?

Seria a veia do experimentalismo. Mas não aquele desenvolvido de um modo desmedido e sem conceito. Aqui, temos o realizador no total controle da obra que desenvolve. E a referência shakespeareana que se faz a base do filme é talvez o dado mais sólido que coloca A Herança como um trabalho tão distinto na linha temporal da nossa cinematografia. Assim, o longa emula Hamlet e toma da famosa peça do autor inglês para criar uma narrativa que em nenhum momento está deslocada do seu tempo.

Ou seja, Ozualdo se utiliza de uma obra canônica da dramaturgia ocidental para discorrer acerca das contradições e desafios que o Brasil enfrentava e viria a enfrentar, como temos presenciado ao longo das décadas que seguem. Mas ai, o filme concentra toda a carga dramática, assim como temos em Hamlet, no indivíduo. E a dimensão da tragédia sai do grande cosmos da sociedade e deságua no microcosmo do “eu”.

Tomando como base esses conceitos entramos na forma como o filme se estrutura. Preciso, ele rememora e também se ancora na gramática estabelecida pelos trabalhos do período que fico conhecido como Expressionismo. E por isso, temos escolhas bastantes definidas como a fotografia em preto e branco. Seguida da abdicação de 2/3 dos diálogos do filme em função do uso de legendas que passam a representar as falas e pensamentos de cada um dos personagens da obra.

Temos a supressão dos diálogos em um reforço referencial ao período expressionista, que atesta o quanto Ozualdo tinha domínio da ideia que desenvolveu para o filme. Mas como todo grande realizador, ele também subvertia seu próprio fazer estético numa espécie de afronta da forma dentro das variáveis que a técnica cinematográfica dispõe. Ele “deforma” a própria criação em um estar de claro desapego.

E aí, as falas dessas personagens estão dessincronizadas das imagens captadas pela câmera. Propositalmente, ele distorce o manual do roteiro com toda a propriedade do autor que tem na sua aura paradigmática a propriedade de dar a forma novos modos de lidarmos com a construção daquilo o que o audiovisual é e pode ser. Seu compromisso não era com a natureza do mercado. Mas sim com a disposição de se olhar para o fazer cinematográfico como um ato de remodelamento desta arte na posteridade.

Encarar esse futuro, aos olhos daquilo o que A Herança representa, é lembrarmos que o longa é sobretudo uma obra sobre o contexto. Apesar da veia trágica tomada pela inspiração shakespeariana, o longa de Ozualdo é a assinatura de um período duro e escuro que nossa história viveu ao longo de 1964 a 1983 durante a Ditatura Militar.

Por isso que em sua sequência final, o filme se volta para os rostos marcados de um povo que sofria a condição da vida nas zonas menos favorecidas no Brasil nos anos 1970 e que ainda sofre as agruras de um Estado alheio às prioridades daqueles que os colocam no poder.

FICHA TÉCNICA

Título Original: A Herança

Tempo de Duração: 90 minutos

Ano de Lançamento (Brasil): 1970

Gênero: Drama

Direção: Ozualdo Candeias

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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