The Handmaid’s Tale pode conter spoilers da vida real, por Rosana Medeiros

A série ‘The Handmaid’s Tale’ mostra a necessidade da luta pela manutenção dos direitos humanos num mundo pós-guerra fria onde os jovens e adultos do mundo ocidental não conviveram sob regimes opressores e ditatoriais. Baseada no livro de Margaret Atwood lançado no Brasil como “O conto de Aia”, a série expõe como a liberdade é importante, sobretudo a liberdade sobre seu próprio corpo e suas escolhas. A obediência ou desobediência das personagens diante de decisões simples, como ter direito a ler ou ir e vir, mostra a importância dos direitos que temos hoje.

Gileade, a teonomia instalada por conservadores em substituição aos Estados Unidos, que governa de acordo com as leis do antigo testamento, é uma mistura do totalitarismo da sociedade nazista, com a falta de liberdade e violências dos regimes comunistas e a hipocrisia patriarcal do Estado Islâmico.

Na sociedade governada por homens, as mulheres são submetidas a estupros ritualizados, a gravidez é forçada e há prostituição, além de não poderem sentir prazer sexual.

A série traz recortes de questões políticas como a desobediência civil, a luta de movimentos de resistência, a questão dos refugiados e o conservadorismo religioso.

Margaret Atwood, a autora, alerta que o livro não é uma ficção científica e sim uma ficção especulativa, construída sobre fatos que já aconteceram em algum momento da história: “não coloco nada no livro que já não tenha sido feito, de uma maneira ou de outra”.

​June, protagonista

O mais assustador é o realismo da série. Os flashbacks da personagem principal, June, são quase um dèjà vu do que vivemos nos dias atuais. Os próprios personagens são figuras atuantes na política. June lembra a nossa atual apatia diante do conservadorismo que opera lentamente e ainda não nos assusta, que quando resolver ir às ruas por seus direitos pode ser tarde demais.


Serena Joy pode ser encontrada facilmente entre as curtidoras de páginas do Facebook como “Garota Conservadora” e “Mulheres Virtuosas”, comunidades destinadas a mulheres que são abertamente antifeministas e defendem que as mulheres devem ser submissas aos homens.

Serena é quase uma Patrícia Lélis antes do assédio do Marco Feliciano.


​Antes da denuncia de Patrícia Lélis contra Marco Feliciano, ela e Eduardo Bolsonaro eram o típico casal conservador.

Em julho de 2017, Patrícia Lélis, então presidenta da juventude do PSC, denunciou a tentativa de estupro do pastor evangélico Marco Feliciano em seu apartamento funcional, em Brasília e denunciou tentativa de suborno, sequestro e chantagem por parte do político para não denunciá-lo.

Na série, o comandante Fred é o chefe da casa e um dos chefes do governo de Gilead e não vive de acordo com as regras que impõe. A ala evangélica e conservadora do congresso está cheia de comandantes, com a mesma mentalidade de direito sobre o corpo das mulheres e os nossos jornais mostram a batalha que eles travam diariamente contra as conquistas dos grupos LGBT e feminista.

​Comandante depois do estupro ritualizado

A série ensina que tudo o que parece seguro pode mudar radicalmente e os direitos humanos devem ser protegidos a todo custo, pois o mundo ainda mata homossexuais em campos de concentração na Chechênia, apedreja mulheres no oriente médio e as prostitui no Estado Islâmico, com o apoio de líderes religiosos e governos. A obra mostra a sociedade americana reduzida a colônias de refugiados, como a de Little America, no Canadá. O orgulho e a cultura americanas tão imponentes ficam fragilizadas. Dá um embrulho no estômago.

Mesmo que o final da primeira temporada não tenha propriamente um final feliz, The Handmaid’s Tale mata a saudade de estórias com personagens fortes que resistem a todo o tipo de adversidades. Só que, ao contrário do que assistíamos nos anos 90, as protagonistas são mulheres. A qualidade da produção cinematográfica, as sutilezas do roteiro e os detalhes da série são fascinantes.

Margaret Atwood pode ter criado uma ficção profética, mas sua obra escancara nossos olhos para a realidade. Para a autora: “Todos nós, porém, podemos ver a estrada em que nos encontramos. Desejamos segui-la?”

 

Rosana Medeiros

Rosana Medeiros

Publicitária, estudante de marketing político e feminista, que acredita nas pessoas e na educação como ferramenta de transformação.

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