Glória Diógenes: a vida é dar passagem aos afetos

Manhã do dia 10 de abril de 2017,  o tempo nublado e quente em sinal de que ia chover e a consciência de quem estava alguns minutos atrasada, faziam apressar meus pensamentos enquanto me perguntava por onde começar a conversa. Tudo que li e assisti, com e sobre ela, se confirmariam no momento seguinte. Chegando no local, subi as escadas até o primeiro andar, passeando o olhar sob as paredes, degraus e cantos, logo de cara fiquei encantada com a decoração cheia de leveza, diferente, bonita.

Na sala de porta ampla, em frente à varanda, a antropóloga, pesquisadora e apaixonada por Filosofia, Glória Diógenes estava à minha espera. Pela graça e harmonia de quem se encontrava à minha frente, imediatamente reparei que se tratava de alguém  por quem o tempo passa com delicadeza.

Glória teve uma infância marcada  pela diversidade de vida e cultura, na mudança de uma metrópole como o Rio de Janeiro, cidade onde ela nasceu, para a pequena Russas, no Sertão Cearense, e lá  morou dos três aos oito anos, até mudar-se para Fortaleza.

“Imaginem só, o Rio de Janeiro era praticamente a capital do Brasil , uma grande metrópole , e viemos para uma cidade pequena onde, na época, não tinha sequer luz elétrica. Os costumes eram outros, as famílias ficavam à vontade nas calçadas, e nós, crianças, brincávamos de todas as brincadeiras que aqueles tempos nos ofereciam e nos permitiam em cidade do interior. Uma infância marcada pela fraternidade da vizinhança… o transitar livremente pela cidade, usufruir o que a cidade trazia ao encontro, o cheiro dela, o burburinho…”

Já na capital cearense, estudou no colégio Christus, no colégio Assunção e depois no colégio Dorotéias e no Marista. Em 1977 entrou na Faculdade para cursar Ciências Sociais e, no mesmo ano,  muito jovem, casou-se aos 19 com um estudante de Medicina.  A Doutora em Sociologia teve 4 filhos e conciliava a maternidade com o gosto pelos estudos e pesquisas – “essa parte de lazer, de sair à noite veio depois, quando os meus filhos cresceram, eu sempre estudei, mesmo amamentando ou tomando conta de filho,  eu nunca vi que era preciso uma divisão”.

Convido a todos para a leitura desta entrevista com a mulher que  exercita a multiplicidade, as experiências que não são homogêneas e os lugares diferenciados,  a pesquisadora que tem cidadania portuguesa, fala sobre pessoas, cidade, vida, emoções.

Minha vida acadêmica sempre foi marcada pela pesquisa. Eu sou muito mais uma pesquisadora e uma escritora, mesmo gostando muito da sala de aula. Mas eu vejo a sala de aula como momento de partilha. É como se fosse um ponto de encontro,  não como o momento de transmissão de saber, mas  um acontecimento, no sentido de que ali pessoas se encontram e acontece uma narrativa do que se escreveu,  do que se leu. Substancialmente, a sala de aula é um ponto nesse fluxo entre pesquisar e escrever.

Eu vivencio tudo o que pesquiso, atuo por dentro,  não fico olhando de fora, eu passo a fazer parte desses acontecimentos. Pesquisei sobre Partidos e Eleições, Movimentos Sociais Urbanos,   por  quatro anos pesquisei movimentos no Lagamar com o padre Manfredo, de 1985 a 1989, e depois eu passei a pesquisar gangues e  galera, violência e juventude, também  no âmbito da cultura, as Práticas Culturais e o movimento “Hip Hop”.  E  entre outras atuações, me tornei Secretária de Direitos Humanos na gestão da Luizianne Lins,  passei seis anos na prefeitura, e então voltei para a Universidade. Resumindo, é quase isso.

Nessas pesquisas,  os temas que me movem são aqueles que não têm voz, gosto de ouvir os que não são escutados, escutar o que são essas práticas juvenis que são vistas como meramente violentas,  eu estou muito mais interessada no que é dito no silêncio da palavra muda,  no que elas querem dizer,  na potência dessa linguagem, do que propriamente na violência.



  1. Em que outra época gostaria de ter vivido? Eu sou muito o agora, eu não gostaria de ter vivido outra época. Não sei porque, talvez pensando num tipo de pedagogia da presença, na ideia do agora, um dia eu escrevi sobre isso. Eu penso dentro do momento que se vive, nele pulsam todos os outros momentos, na verdade, nosso corpo está muito mais além do que a gente vive, no sentido filosófico espinosano, o ser humano se traspassa, bebemos de todas as gerações e somos capazes de nos transpor no cinema… Um corpo poroso, um corpo sensível, ele é capaz de se deslocar de si mesmo, então eu não me sinto só dessa época, eu não precisaria viver outras épocas para me sentir nômade da minha própria época.

  1. A palavra que eu mais gosto é SUTILEZA, porque o Sutil é aquilo que está entre as coisas, o imperceptível, é aquilo que está sendo gestado e muitas vezes não é percebido. É a potência da vida. A sutileza  me move, porque eu gosto muito de enxergar e de perceber “o entre”, “a dobra”, o que está sendo emergido no real e que não faz barulho. VERDADE é uma palavra que eu não gosto, por exemplo, a verdade sobre as coisas, a verdade de quem? A verdade de quê? É uma palavra impositiva que fecha a vida, quando alguém me diz “é verdade”, eu já não gosto, me incomoda exatamente porque ali tem um juramento, uma sentença.

  1. Um filme para ver de novo: eu vi várias vezes Um Estranho no Ninho, acredito que mexe com fronteiras entre normal e patológico, essa divisão classificatória do delírio e da loucura, de uma pessoa que se reinventa, como é o caso do personagem Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson), como são as distorções, essa coisa classificatória e aprisionadora do extravasamento humano, como as instituições, como os saberes tentam aprisionar e normatizar a vida. Michel Foucault falava muito bem disso. Esse é um filme extremamente potente para mostrar que nenhum rótulo, nenhuma instituição e nenhum saber abarcam a vida, a vida é muito maior e muito mais complexa do que é loucura e  o que é o sujeito, o que podemos pensar filosoficamente é muito mais do que se institui como saber, como medicina, como categoria…

  2. Politicamente, eu não sou uma pessoa fechada num partido, e nem me fecho em ideologias. Eu sou muito mais ligada aos movimentos sociais, sou muito mais do pulsar da vida, do recriar da sociedade, do que mesmo de um dogma. Eu sou uma pessoa que prefere escutar as pluralidades e se você se fecha numa crença, você não está do lado da vida.

  3. Quem você ressuscitaria: quando você me fez essa pergunta eu pensei o seguinte “eu não acredito na morte”, não por uma dimensão espiritual, eu acredito no eco das vozes, a voz do Gandhi ressoa, a voz do Mandela ressoa, porque eu acredito que as pessoas não são só existência física, elas são o quanto elas afetam ou por onde elas afetam a existência. Então eu prefiro pensar assim: como criar dispositivos para que esses mortos continuem vivos? – por exemplo, quando falamos em apartheid, lembramos do Mandela e assim por diante. São tantas vozes que não morrem. Talvez dependa até da capacidade vibracional que essas pessoas têm, como Jesus Cristo, independentemente de qualquer religião, quando se pensa na dimensão dos textos Apócrifos de Jesus Cristo, na sua dimensão como homem, nos perguntamos “que homem é esse que tem uma capacidade física que vai para além do seu tempo? Tem pessoas que atravessam os tempos e mobilizam os desejos de pulsão de vida… ou de morte, eu prefiro chamar os que mobilizam pela pulsão de vida, como por exemplo, muitos de nossos poetas.

  4. O livro que já li várias vezes: eu leio um livro de poemas várias vezes, com 15 anos eu comecei a ler Fernando Pessoa, o seu heterônimo, Álvaro de Campos, sempre volta… leio livros do Michel Foucault, dialogo com ele, meus livros de Ciências Sociais…  Algumas leituras não são para você aprender, mas sim para você despertar, para mexer com você, eu leio e releio Deleuze e Guattari, e como já citei, além das Ciências Sociais, eu gosto muito de Filosofia, e não acredito numa Antropologia fora da Filosofia e nem da Arte.


  5. Eu me acalmo com gente que eu gosto
  6. Eu me irrito com gente que eu não gosto


  7. A emoção que me domina é o medo. Aliás, não é que me domine, mas me assusta, porque o medo é o sentimento mais vendido pela mídia. Nós vivemos em um mundo cuja tônica é o medo, o medo do outro, como diz no livro O Medo do Nosso Século, o medo da epidemia, o medo da crise, o medo da violência… E quando percebo que estou sendo agenciada pelo medo eu digo, “calma, Glória, não é assim, não é por aí”. É preciso que o corpo esteja aberto para que a vida entre. O medo é interessante quando ele está na ordem da proteção da existência, mas quando o medo burla a existência, não. É a indústria do medo a mais potente. E por outro lado, quem não tem medo de nada está na ordem na psicose.


  8. Um dia ainda vou morar em Portugal, tenho dupla cidadania, meu avô era português.


  9. Existem heróis? Qual o seu? Os meus heróis são tão anônimos, não aparecem nos jornais, são mães de família que, mesmo com o pai ausente, sustentam suas famílias e ainda conseguem sorrir; meus heróis são pessoas simples que me deixam impactadas; eu olho e pergunto  “Deus, será que eu aguentaria levar uma vida assim?” Porque essa pessoa consegue e ainda passa dimensões e lições de valores, onde a vida é um exemplo de força, de resiliência, de existência… então meus heróis encontro nesse cotidiano bem longe do herói da mídia que conseguiu ganhar muito dinheiro.

  10. Religião: eu sou uma mistura de várias religiões, acho que um pouco do budismo, a intensidade do corpo presente, de certo modo, a ideia do cristianismo. Como diz a Hannah Arendt, “nasceu uma criança entre nós”, a ideia do perdão como sentimento revolucionário, ama o próximo como a ti mesmo… Têm várias coisas bonitas que eu trago para mim, como modo de vida, eu não sou uma ateia, tenho um lado espiritual rico sem me fechar em nenhuma religião.
  11. Dinheiro: eu não quero ganhar dinheiro pelo dinheiro, eu gosto de ter e não precisar contar, mas também não sou consumista. Tenho uma vida simples, tenho uma amiga que trabalha comigo e é uma secretária particular da vida, eu limpo tudo que eu sujo, gosto do sentido simples da vida, eu tenho muito cuidado com o consumismo, é preciso você olhar o que tem e se perguntar “o meu corpo tem fome de que? Busco cultuar com o dinheiro muito mais a mediação dos encontros, de cozinhar com amigos, de viver, de fazer do meu lar  um ponto de encontro, de troca. Já disse não a vários convites, e abri mão de ganhar mais dinheiro em prol da minha qualidade de vida.

  12. A vida é o lugar de suportar a potência dos desejos e deixar o corpo vivo e acordado. Às vezes, passamos o tempo todo não suportando a vida, não suportamos o sofrimento e buscamos tomar alguma coisa para não sofrer, um um remédio para ficar mais agitado ou para ficar mais calmo, para não sentir dor ou para evitar a tristeza…. Para mim, a vida é você suportar toda a potência para dar passagem aos desejos, é um feixe de experiência que eu tento viver na medida em que eu suporto. A vida é você se permitir, dizer o que ainda não disse, viver e escutar o que ainda não se escutou, descobrir aquela pessoa que você ainda não descobriu e poder dar passagem aos afetos.  Para mim, não existe um conceito de vida, existe a experiência de vida.

  13. Se eu tivesse o poder, eu iria propor às escolas uma educação para valores, onde todas as disciplinas perpassassem o cuidado consigo, a percepção de cada um.  Por exemplo, onde a raiva pudesse acontecer, onde o sentimento pudesse ser trabalhado nas escolas, para quando se tornasse um adulto, pudesse vivenciar uma alteridade – quem sou eu, quem é o outro – acredito que teríamos um mundo diferente se valores, atitudes e sentimentos fossem trabalhados na educação básica. Quando uma criança sente raiva dizemos que não é para ela sentir, quando ela chora não é para ela chorar e quando ela quer alguma coisa não é para ela querer, então o adulto cresce apartado de si mesmo porque aprendemos desde cedo que não podemos “sentir”.


  14. Eu gostaria de ser eu mesma, Glória Diógenes, já pensou se eu fosse outra pessoa que trabalho eu iria me dar? (Risos).


  15. Não perco uma oportunidade de brincar, eu gosto muito da leveza,  de experimentar a leveza. Eu sou séria nas coisas que faço, mas toda seriedade não é nada sem leveza.

  16. A solidão e o silêncio só são bons se você souber que tem por quem procurar e quem se importa com você. A solidão e o silencio no sentido de um indivíduo atomizado e desconectado do seu mundo é diferente de uma escolha de estar só. A solidão é boa quando você sabe que tem um feixe de afetos que lhe circundam, mesmo sutis e invisíveis. A solidão do indivíduo que se aparta do mundo e que já não crê nas pessoas, que perdeu qualquer liame de sentimento de pertencer à humanidade, essa solidão não é boa.


  17. O Brasil vive um momento em que quem está no poder está proclamando a pulsão de morte, o ódio, a indiferença, a intolerância, a vingança. O que a gente pode fazer pelo Brasil nesse momento, que é mais revolucionário, sinceramente, é não se deixar capturar por essas forças, é afirmar a vida na política, afirmar a vida na sala de aula. A potência da vida, ela é revolucionária, não é só uma palavra de ordem contra o Temer, não é só se manifestar, é, em cada lugar que você esteja,  não se permitir ser tragado por essas forças que querem calar os sujeitos e a vida. Muitas pessoas estão se deixando capturar, e é isso que quem está no poder quer, que as pessoas desistam daquilo que é vida, daquilo que é resistência. Então as pessoas estão ficando desacreditadas, entristecidas, isoladas por causa desse momento político que o Brasil tem vivido, Temer e sua corja. Então, eu acredito que qualquer força de insurgência baseada na alegria, naqueles gestos pequenos de afeto, de cuidado com a cidade, consigo e com os outros, é um ato revolucionário.

  18. O ser humano é o agora, o futuro é agora, entender que vivemos em um dado momento passado, presente e futuro, onde, de certo modo, o futuro já está sendo germinado, e é onde várias forças se unem. Se você perceber, a mídia, ela dá muito lugar para as coisas que violentam a cidade, mas tem mil ações de afetos, de mobilização de quarteirão, de pequenas coisas acontecendo. Às vezes, é mais fácil ceder à ira, mas quantos seres humanos estão mobilizados a favor da vida? Eu diria que muitos estão. A humanidade está muito mais a favor da vida que continua fluindo.

  19. Eu sou alguém que gosta de viver, que gosta das pessoas e que gosta de ver a vida se recriando sempre. Eu gosto de apostar no inusitado da vida, e ela pode fazer com que em uma só vida, você tenha várias possibilidades de experiência. Eu acredito nessa ebulição da vida! Sou movida por isso e não é uma questão de fé, e mesmo que venham sopros ruins, eu tento ler e interpretar o que com aquilo posso aprender – com sofrimento, com a perda, que oportunidade eu tenho de extrair daquilo uma resistência ou descobrir algo que eu não tinha descoberto – a vida é uma descoberta e eu sou uma pessoa que gosta de descobrir coisas.

A cidade

Fortaleza é uma cidade  “segregadora”. Ela tenta, com excesso, classificar e dividir,  “aqui pode, aqui não pode, aqui é rico, aqui é pobre”.  Por outro lado, é uma cidade muito inventiva, criativa e de espírito moleque. Cearense tem um molejo, um jogo de corpo. Fortaleza tem uma alma muito feminina. Como diz Ítalo Calvino, toda cidade tem uma alma, e, com esse espírito feminino, é uma cidade agredida, passiva, maltratada –  certa vez fiz uma pesquisa onde eu perguntava o que as pessoas achavam da capital cearense, e elas me responderam: massacrada, agredida… sempre no verbo passivo, e não tinha essa coisa de se indignar – cortam árvores e fica por isso mesmo, quando matam jovens na periferia e fica por isso mesmo.

Tem ainda, essa história da má visão do gênero, mas o feminino é o gênero de geração da vida e da força da existência. O imaginário do Sertão, o estilo do machismo, do masculino que de certo modo massacra o feminino. No entanto, Fortaleza tem movimentos sociais fortes, uma cidade que já reagiu. Em 1985, por exemplo, elegeu Maria Luíza Fontenele, depois elegeu Luizianne Lins, mostrando-se, assim, uma cidade irreverente.  Entretanto, essa irreverência as vezes se dispersa.

Comunicativa, sensível, espontânea,  Glória Diógenes é versátil em seu modo de ser e de tratar as diferentes temáticas contemporânea. Durante toda a entrevista demonstrou leveza, força e delicadeza. Numa mensagem citou  Hanna Arendt, sobre a condição humana e o perdão:  “Se não fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria, por assim dizer, limitada a um único ato do qual jamais nos recuperaríamos. Seríamos para sempre as vítimas das suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço. O perdão é o único sentimento, a única possibilidade que você tem de zerar tudo e começar de novo.”

 

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino, jornalista, aprendiz de blogueira, fotógrafa e colunista do Segunda Opinião.

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