Geopolítica do Petróleo

Trecho final de artigo do jornalista Paulo Moreira Leite sobre petróleo e fatos históricos na Venezuela, México e Irã:

“…Por várias razões, o leilão do pré-sal brasileiro tem vários pontos de contato com uma intervenção estrangeira que marcou a associação fundamental entre política e reservas de petróleo na história mundial — o golpe de Estado de agosto de 1953, no Irã.

     Naquele momento, em que os povos do mundo acordavam para a importância de proteger as reservas do petróleo – a Petrobras brasileira foi criada em outubro do mesmo ano –, um condomínio de potencias europeias, articuladas pela CIA, derrubou o governo do primeiro ministro Mohammad Mosaddegh, autor de um projeto de lei que nacionalizou as reservas de petróleo, num país que, na época, possuía a maior refinaria do planeta. Escritor e advogado, em função de seus compromissos com a emancipação nacional, numa região esmagada por décadas de domínio colonial e uma elite submissa aos senhores externos, Mosaddegh possuía imenso apoio popular.

       Mas o Irã vivia sob uma monarquia constitucional e não foi difícil, para a CIA e ao serviço secreto britânico fazer um trabalho clássico em várias frentes. Recrutaram os serviços do Xá Reza Pahlevi para trair um governo que, legalmente, tinha obrigação de sustentar. A CIA também arrebanhou oficiais do Exército e recebeu ajuda de uma larga fatia do clero muçulmano. Conforme documentos oficiais do Departamento de Estado que só vieram a público décadas mais tarde, a operação para derrubar Mosadegh ainda incluiu apoio do crime organizado, que mobilizou uma multidão para engrossar protestos de rua e até tentar invadir a casa do primeiro-ministro. Num primeiro momento, a resistência parecia render frutos mas os golpistas acabaram vitoriosos, transformando o regime de Pahlevi numa ditadura escancarada e cruel, conhecida pela perseguição e tortura de prisioneiros. Condenado a três de prisão por um tribunal militar, Mohammad Mosadegh foi mantido em prisão domiciliar até morrer, em 1967, aos 84 anos. Foi enterrado como um dos políticos mais populares do país. Vinte e seis anos mais tarde, a ditadura foi derrotada por uma revolta popular dirigida pelo clero xiita. Uma de suas primeiras providências foi retomar o controle absoluto sobre as reservas de petróleo, base para uma política externa independente.”

Originalmente publicado em Brasil 247, com o título “Aviso a Temer: pilhagem da Petrobrás vai ter troco”.

Convidado

Artigos enviados por autores convidados ao Segunda Opinião.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *