A Forma da Água: E o paradigma da obra-prima cinematográfica, por Daniel Araújo

O que caracteriza uma obra-prima dentro do universo que a cinematografia encerra em si? É a sua forma e sentidos? Ou uma mescla de cada parte desses conceitos? Os recentes comentários e abordagens dispensados ao novo trabalho do diretor Guillermo del Toro nos incita a uma reflexão um pouco mais cuidadosa sob o modo como olhamos o cinema para além daquele exagero endossado por uma temporada de premiações que tem no Oscar seu ponto culminante. Assim, desaguamos no superestimado A Forma da Água* (2018).

No longa, somos apresentados à história de Elisa Esposito (Sally Hawkins), uma zeladora muda que trabalha em um centro de pesquisa americano no período da década de 1960 e acaba construindo um relacionamento com um homem anfíbio (Doug Jones) que é mantido em cativeiro naquele local. Para além da sinopse inicial, o filme carrega consigo algumas camadas que adicionam subtextos à trama mas que não necessariamente a conferem uma complexidade necessária para alçá-la no status de obra-prima.

A literatura nos assegura que um dos pontos que confere à obra de arte o caráter de obra-prima é, entre outras coisas, a sua capacidade de falar de algo além da sua própria época, oferecendo alguma inspiração e significado que atravessam os tempos. Guillermo del Toro é, sem dúvidas, um dos mais inventivos realizadores da cinematografia que tem a fantasia como gênero. De Blade II (2002) a Hellboy (2004), passando por O Labirinto do fauno (2006) e Círculo de Fogo (2013), o diretor entregou sua visão como ofício de arte e forma.

O caráter unidimensional dos protagonistas do filme e sua recusa em abraçar reflexos de qualquer contradição é um dos seus pontos fracos mais evidentes.

Em A Forma da Água, sua veia autoral emerge mais uma vez em uma estória que se apoia e nos lembra muito a ideia do conto de fadas com algumas variações tonais adicionadas pelo tom de horror. Esse ponto, claro, é colocado no longa de modo muito sutil. O que, consequentemente, acaba se tornando um dos principais problemas do filme. Já que seus personagens centrais acabam desprovidos de alguma multidimensionalidade. Ou seja, Sally é a boa moça com apetite sexual a desabrochar e o Homem Anfíbio é o monstro que partilhará isso com ela atuando como o “mocinho em perigo” em 2/3 da trama, dado seu perfil de passividade.

Esse tom unidimensional é por si, um elemento que impede o filme de romper sua própria significação. Afinal, como o longa iria fazê-lo se nem mesmo consegue pensar seus personagens para além de paradigmas como o do mocinho e vilão? Ou mais problematicamente de um ato final que tem como última cena a reprodução da mesma imagem que vemos no pôster de divulgação da obra? Isso é algo problemático e não podemos nos privar dessa reflexão. Questionavelmente, A Forma da Água refuta a contradição em toda sua potencialidade em detrimento de uma estória que não se arrisca, apesar de seu inegável virtuosismo técnico via fotografia, música, maquiagem e montagem.

Retornando à nossa gramática, temos que a obra-prima toma na inovação a reescritura da regra artística numa abertura de leques alternativos à linguagem cinematográfica. E nesse sentido, o que notamos do filme é a apresentação formal de uma estória previsível desenvolvida em um esquema de 3 atos.

Diferentemente de “Três Anúncios para um Crime” (2018) ou “Trama Fantasma” (2018), por exemplo, onde ao longo do desenvolvimento das suas sequências, os rumos da trama e posicionamentos dos personagens se tornam inconstantes e são mediados pela incerteza de onde os seus eventos possam culminar. Esse é o fator surpresa que enverga o bom cinema contemporâneo.

Apesar do seu virtuosismo técnico,via fotografia por exemplo, o filme peca por não se arriscar em termos de construção narrativa em seu sentido.

Esse é um dos pesos da visão. Do olhar artístico que norteia o autor nas veredas das suas referências e seus propósitos. A Disney retrata contos de fadas revestidos de poesia e fantasia desde os anos 1940. O estranhamento é a espécie de miopia interpretativa no trato de um longa como A Forma da Água. As variações tonais de terror, aventura, e drama histórico contidas em trabalhos anteriores de del Toro como A Espinha do Diabo (2001) e o Labirinto do Fauno (2006), por exemplo, em seu novo trabalho responde apenas à camadas muito superficiais que acabam subaproveitadas. A visão, por outro lado, emerge do traço assinado pelo autor em sua natural condução ao alcance de novos limites das suas habilidades.

A reescrita da própria história do cinema passa pela linha temporal que o constituiu ao longo dos últimos séculos XX e XXI. “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920), “Era uma vez em Tóquio” (1953) e “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” (2001) são obras-primas desse recorte temporal. São filmes que ajudaram, a seus modos, a sedimentar a linguagem do cinema em diferentes linhas temporais. Foram seminais em termos de linguagem e forma. Em uma perspectiva distinta, A Forma da Água é apenas um bom filme de del Toro. E por não se arriscar suficientemente adotando um tom de previsibilidade no olhar dividido com o espectador, o filme é apenas e somente isso.

*A Forma da Água encontra-se em cartaz nos cinemas de Fortaleza em sessões diárias.

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Shape of Water

Tempo de Duração: 123 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2018

Gênero:   Fantasia, Aventura, Drama

Direção: Guillermo del Toro

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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1 comentário

  1. Cejota

    O que me incomodou:

    – Incompatibilidade entre a opressão da sociedade relatada por Elisa e o que dessa opressão foi mostrada. Na cena com seu melhor amigo ela dá a entender que se ele chama o peixe/humano/deus de aberração ele também está a chamando do mesmo, só que em nenhum momento no filme deu para sentir que as pessoas a consideram uma aberração, pelo contrário, em alguns momentos ela adquire vantagens pela sua deficiência.

    – A multidimensionalidade atribuída ao personagem peixe só serviu para confundir. Afinal de contas Elisa se relaciona um humano, um peixe (zoofilia) ou uma divindade (deusofilia?).

    – Drama superficial.

    Acho que daria um ótimo filme para crianças se tirassem o sexo. Adeus!

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