Fé na geração espontânea do crescimento econômico? Então, reze! por Capablanca

Eu jamais seria um cientista, não tenho jeito com matemática e não tenho organização no que penso, nem rigor no que escrevo. Entretanto, as aulas de Ciência no colégio interno no interior da Bahia me atraíam. Lembro de muitas delas. Quando a professora Lygia, aquela mulher linda, explicou as duas teorias (Abiogênse e Biogênese), eu me apaixonei (pela professora, claro). Eu era apenas um menino e ia descobrir a origem da vida. Uma das teorias mostrava que a vida podia surgir de “geração espontânea”, ou seja, um ser vivo podia nascer de uma pedra, matéria inerte. A outra dizia que a vida surge de outra vida. E o francês Louis Pasteur provou que só a segunda estava certa: não há geração espontânea, embora muita gente (ignorante) ainda hoje acredite.

Essa ideia sempre me ocorre quando vejo os empresários, os economistas e os jornalistas defendendo a tese de que o crescimento econômico voltará e voltará muito mais forte quanto mais o Estado se afastar e for reduzido à sua expressão mais simples, para continuar na linguagem escolar. É uma tolice sem tamanho.

O crescimento econômico é resultado de enorme esforço político, econômico-financeiro e social. É preciso investir, trabalhar e produzir e consumir sempre mais, nunca recuar. Os mais ingênuos acreditam nos mantras liberais de que o crescimento econômico se faz pelas forças do mercado e pela lei da oferta e da procura. Para eles é como se o crescimento econômico fosse algo inevitável. Se o Estado em excesso atrapalha, então, o mercado faz melhor – eles dizem, como se as duas coisas pudessem ter uma relação direta, e não têm.

Já se sabe há muito tempo que o crescimento econômico não nasce de geração espontânea. É fato que o Estado não deve ter o papel principal no roteiro do filme – os mocinhos sempre serão os empresários – mas sem o Estado, só há crescimento se a economia vem acelerada de muito tempo e de muito longe. Sabem desde quando essa discussão não faz mais sentido? Desde o “New Deal”, do presidente Roosevelt, alinhado com a ideia de John Maynard Keynes, aí pelos anos seguintes a sua posse em 1933 (a recessão vinha desde 1929).

Entretanto, dizem que a fé remove montanhas. E empresários, economistas e jornalistas dizem a toda hora que acreditam na recuperação econômica sem a participação do Estado, por geração espontânea.

Oremos.

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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