Fátima Dourado, a vencedora

Nordestina de perfil ímpar, Fátima Dourado, profissional de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, com foco nos transtornos do espectro do Autismo,  médica pediatra, escritora, mãe de seis filhos, dois deles, Giordano e Pablo, autistas, fundadora e diretora da Casa da Esperança, instituição especializada no apoio ao tratamento do espectro autista em Fortaleza – e uma das maiores referências da América Latina. Uma trajetória de superação, compreensão e ação à frente dessa luta por mais de 30 anos. Atuou também na Secretaria de Trabalho e Desenvolvimento Social e na Secretaria de Saúde do Estado do Ceará. Formada pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará e psiquiatra pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Associação Médica Brasileira.

O sonho de ser médica e o empenho em prol do bem comum estiveram com ela desde menina. A infância rica em cidade do interior, ela recorda com sorrisos largos as atividades e brincadeiras no convívio com a natureza: “são coisas que eu gostaria que meus filhos vivessem, eu tomava banho de açude com cabaças amarradas que formavam uma bóia embaixo dos braços,  andava à cavalo, pulava amarelinha, brincava de trancelim”.  Filha da geração do marxismo, que sonhava com socialismo democrático, teve formação cristã, casou, teve seu primeiro fiho, mas não esperava e nem estava preparada para ser mãe de autistas —  “os desafios eram gigantescos,  eu não tinha experiência, o choque na vida da gente entre o real e o ideal é imediato. A minha vida não é comercial de  TV, mas certamente tenho uma família muito feliz, os meus filhos e, principalmente o Giordano, transformaram a minha vida, transformaram a nossa vida para melhor. Com meu marido Alexandre e os meus seis filhos, aumentou o sentido de agregação, somos muito mais unidos e quanto mais cedo a gente puder romper com as idealizações, maiores as chances de desenvolvimento e evolução. O autismo faz parte da minha identidade como mãe, como mulher e profissional, o Brasil inteiro me procura para falar sobre isso, eu não me imagino vivendo de outra forma”.  


  1. Em que outra época gostaria de ter vivido: — em uma época onde não existisse preconceito, onde, para a mulher, viver fosse mais fácil, onde pessoas com deficiências não fossem vistas como arremedos de gente, uma sociedade onde a tecnologia servisse para o bem comum, de todos, em todos os aspectos, educação, saúde…. Embora o futuro que se desenha  me preocupe bastante, eu queria dar um salto para o futuro, quando a humanidade se reconhecesse e respeitasse o outro como igual.

  1. A palavra que eu mais gosto é ESPERANÇA e a que menos gosto é PRECONCEITO, julgar o outro pela aparência ou da forma como ela se comporta é superficial, eu ressalto a questão do respeito.
  1. Um filme para ver de novo é Sociedade dos Poetas Mortos, pois gosto da inspiração, da força e da coragem com que o professor de Inglês John Keating atua em uma escola preparatória de meninos que é conhecida por suas antigas tradições e alto padrão.
  1. Politicamente, eu sou uma mulher de esquerda, embora a palavra esquerda hoje, seja um espectro muito amplo, e precisamos atualizar essa utopia, sou essa pessoa que acredita que ainda podemos construir uma sociedade mais justa para todas as pessoas. A luta por justiça e liberdade, e não ter quer escolher entre justiça ou liberdade.


  1. Eu ressuscitaria John Lennon.

  1. O livro que já li várias vezes — O Germinal, de Émile Zola, um livro forte que fala da história natural e social com uma família sob o Segundo Império, que consegue ter esperança nas profundezas daquelas minas de carvão na França. E de um modo geral, toda a obra de Jean-Paul Sartre (filósofo, escritor e crítico francês) me inspirou muito com todo o seu existencialismo, a capacidade de transformar realidade, de tirar leite das pedras — “não importa o que fizeram conosco, interessa o que podemos fazer com o que fizeram conosco”. Eu me engajei no movimento estudantil nos anos 1970, quando estava na universidade. Militei pela anistia e pelo processo de redemocratização do Brasil e pela emancipação feminina e esses, dentre outros autores, foram fundamentais na minha formação.


  1. Eu me acalmo com o silêncio.
  2. Eu me irrito com lugares barulhentos.

  1. A emoção que me domina é a paixão. Sou apaixonada por tudo que faço.


  1. Um dia ainda vou ver os autistas viverem em qualquer lugar, serem acolhidos e respeitados como parte da diversidade humana.  Neurodiversidade, conceito segundo o qual diferenças neurológicas devem ser reconhecidas e respeitadas como qualquer outra variação humana, essa é minha luta especifica — quanto mais a sociedade aprender o respeito pelo diferente, melhor ela pode se tornar. Do ponto de vista pessoal eu quero fazer muitas coisas, conheço muitos lugares do mundo, mas ainda não fui a Paris, quero conhecer Veneza com meu amor.
  1. Existem heróis? Qual o seu? Eu tenho heróis que não morreram de overdose, Luther King, Nelson Mandela…

  1. Religião; acredito que a vida não veio do nada, posso dizer que sou espirita, mas eu não tenho dogmas e nem rituais, o que eu tenho é uma fé, eu me deslumbro com a natureza, com as cores das flores e das plantas, com o amor entre o homem e o animal, como a gente explica o amor dos cachorros, uma coisa tão bonita, tão intensa, um amor pelo filho, amar tanto alguém ao ponto de ser capaz de dar a vida, então, isso não veio do nada, não veio de uma explosão, isso é Deus, e Deus é amor.
  1. Dinheiro é algo por que batalho porque preciso para comprar remédios, roupas, para tornar o ambiente mais bonito, manter essa equipe, esse lugar, e falta dinheiro, é um meio que nesse momento civilizatório a gente utiliza para conseguir as coisas, não pode ser um fim em si, ele não pode nos dominar. Quando você tira o dinheiro que vai para a merenda escolar, por exemplo, é porque o negócio anda bem desandado, é hora de repensar a relação com o dinheiro.
  1. A vida é uma oportunidade que temos de estar aqui para experimentarmos o amor, cuidar e ser cuidado,  viver essa magia e mistério que é a vida.

  1. Se você tivesse o poder tiraria dos homens — a ambição desenfreada.

  1. Eu gostaria de ser Fátima Dourado.
  1. Não perco uma oportunidade de estar junto das pessoas que amo.
  2. A solidão é o momento de que preciso para estar comigo mesma, consolidar os aprendizados, me refazer para me reencontrar com o outro.
  3. O Brasil, uma palavra que me lembra grandeza, riqueza, beleza, mas infelizmente me preocupa a injustiça, a violência e o retrocesso. O Brasil passa por um momento terrível, está muito dividido e tudo muito extremado, uma democracia tão jovem precisa ainda ser consolidada, temos que continuar lutando e jamais perder a esperança.
  4. O ser humano vai aprender com os erros e sair melhor dessa crise, espero isso.

  1. Eu sou uma mulher nordestina acostumada com as dificuldades que a vida coloca e me considero uma pessoa resiliente e forte,  que vê os obstáculo e adversidades como oportunidade.  Ao mesmo tempo eu gosto de cafuné, de ser cuidada, preciso de colo de vez em quando. Estou começando a envelhecer com saúde, exercendo a profissão que gosto e agradecendo pelo dom da vida. Na vida, cada um de nós temos o que ensinar, se a gente conseguir fazer o que gosta, seja lá o que for, plantar e colher flores, cozinhar, escrever, contar histórias, ser médica — procura teu lugar no mundo, descobre o que faz tua alma sorrir, e segue, o meu lugar eu descobri,  A CASA DA ESPERANÇA, é aqui que minha vida e minha luta fazem sentido.

A Casa da Esperança, fundada em 1993, surgiu de forma natural, nada estava programado,  iniciou atendendo seus dois seus filhos, Giordano e Pablo, e outras oito crianças e adolescentes com autismo.  “ O meu filho Giordano foi rejeitado por dois colégios e aos 13 anos começou a ter crises de fúria.  Como mãe de filhos autistas, eu ia explicar  que no meu mundo não havia lugar para eles? ” A guerreia Fátima não se intimidou, como ela mesma diz, “tirei leite de pedra”, lutou, buscou ajuda, e com muita garra e determinação fundou a Instituição. A sede de Fortaleza atende mais de 400 pessoas com autismo  em regime intensivo, de quatro ou oito horas por dia, e realiza mais de mil procedimentos ambulatoriais diariamente. Fátima, então pediatra, se especializou em psiquiatria, e assumiu a direção clínica da instituição, transformando-a na maior do Brasil, voltada para o diagnóstico e o tratamento desse transtorno. Hoje são 350 pessoas atendidas gratuitamente e mil procedimentos ambulatoriais realizados por dia com recursos do SUS. Cerca de 170 profissionais de áreas como psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional trabalham lá. A médica promove eventos nacionais e internacionais e publicou dois livros e artigos científicos sobre autismo.

No seu livro – Autismo e Cérebro Social, Compreensão e Ação – a escritora e vencedora do 19º Prêmio CLAUDIA, 2014 categoria Trabalho Social, Fátima Dourado, dentro de um núcleo familiar distinto, porém que faz parte de muitos lares, expõe para o leitor o autismo e toda sua complexidade.  

Se aos olhos dos outros, Fátima Dourado parecia estar fazendo tudo errado, por namorar um rapaz mais novo ou por se recusar a internar o Giordano, a paixão, dedicação e a entrega plena da mãe-mulher aos filhos, ao amor pela vida, amor pelo ser humano e pela igualdade, com o passar do tempo, converte-se em formidável resposta. O que mais impressiona: capacidade de enfrentar qualquer dificuldade e contar essas histórias sorrindo e transmitindo para quem a escuta uma felicidade contagiante, segurança e, principalmente, a sensação de estar diante de alguém em quem se pode confiar, porque ela é a própria realização do que significa amor e generosidade. qualquer elogio é pequeno, mas todo ele será sempre verdadeiro e merecedor. Fátima, você é luz! 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino, jornalista, aprendiz de blogueira, fotógrafa e colunista do Segunda Opinião.

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