EVENTUAIS PERCALÇOS DE UMA VIDA BOÊMIA, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Deliciosa é a vida de quem obedece a regra, mesmo na intimidade. Todos podem fazer-se comediantes e representar o papel de um personagem honesto. Mas dentro de nós, onde somos senhores, onde tudo permanece secreto, é difícil não nos afastarmos da regra.” [Michel de Montaigne, em ENSAIOS (Capítulo II – Do arrependimento), tradução de Sérgio Milliet. São Paulo-SP: Nova Cultural (Coleção Os pensadores), 2000, vol. II, pág. 156].

A mulher já se resignara, malgrado as plúrimas incursões que deliberadamente promovera no “modus vivendi” pelo qual ele há tempos optara, sempre acreditando que o faria renegar as extravagantes e nada saudáveis, segundo ela, vivências da boêmia. E, no curso de quase quatro décadas de relacionamento conjugal, ela mesma ia se consumindo em ciumeiras, conselhos, advertências, sermões, ameaças, reprimendas, desprezos, com que se acostumaram a aquecer ou esquecer os lençóis sob os quais melhor seria se se protegessem do intenso frio das madrugadas.

Os filhos, todos já envolvidos nos processos de construção de suas próprias vidas, já percorrendo seus próprios caminhos, já cuidando de seus próprios destinos e já enfrentando seus próprios problemas, admitiam tratar-se de caso insolúvel; recomendável, pois, seria deixá-lo usufruir, ao seu modo, sem interferências e sem intervenções, do que a vida ainda tinha a lhe oferecer. Por que confrontar, se visível a olho nu era a sua felicidade?

Já com idade e tempo para aposentar-se, ele ia resistindo, sempre sob a alegação de ser inviável a execução de seu orçamento doméstico, se atingido fosse por qualquer tipo de redução de receitas. E, assim, sem a mais mínima das queixas, trabalhava, e teimava, e limava, e sofria, e suava! Mas, às sextas-feiras, ao sair para o segundo turno da dura jornada diária, o espírito boêmio apoderava-se de seu ser espirituoso. Então, acomodava uma muda de roupa e um par de tênis numa sacola de mão, empunhava carinhosamente o violão, companheiro dileto, acomodando-os no banco de trás do ainda bem conservado, embora bastante rodado, chevetinho cor de sangue. E adeus convívio familiar! Só retornaria, num cansaço de causar dó e compaixão, para o almoço de domingo – cardápio invariável: galinha caipira à cabidela, arroz branco e batatas em rodelas. Depois, numa rede de varandas sob a fronde de um pé de manga espada, deixava-se adormecer, em sono regenerativo. É fantástico!

Tinha seus barezinhos de preferência. Era muito bem tratado. Tinha um público fiel. Era muito estimado. Tinha uma reconhecida habilidade com o pinho, um rico repertório musical e uma voz agradável. E, assim, sentia-se útil acalentando almas descrentes da antes tão sonhada felicidade e, por isso, ora carentes das quimeras, das ilusões e dos devaneios que a prodigalidade noturna lhes oferecia de bandeja. Comumente, não o deixavam despender com o que quer que fosse; às vezes, ainda saía da vigília com algum… reconhecimento de notívagos mais bem aquinhoados.

Registre-se, por conveniente, que houve um fim de semana diferente. Ele retornou à sua casa ainda no meio da manhã do sábado, causando espanto e estranheza na mulher:

– És tu, criatura de Deus?! Não acredito no que estou vendo!

– Calma, minha velha! Eu vim só tomar um banho e trocar de roupa. Fui convidado para animar a festa de aniversário de um amigo. É coisa pra virar a noite.

– Ah! Eu já desconfiava… – Ele não havia recolhido o carro à garagem, estacionando-o bem na frente de casa.

Banho, roupa nova, abraço e beijo na mulher. E tchau! O chevetinho cor de sangue partiu para mais uma efeméride festiva, tudo que um boêmio inveterado adora.

No sítio do amigo aniversariante, a ele reservaram um bom tempo para demonstrar a singeleza contagiante de sua arte. Aplaudiram-no. Mas havia outros tipos de expressão musical – mesa de pagode, roda de samba, violas e violeiros. O boêmio pôde, então, protagonizar uma noitada como usufrutuário. Algo inédito.

Participou da conversa animada de alguns grupos. Sentou-se à mesa de amigos. Saboreou alguns petiscos. Ingeriu algum tipo de bebida. Degustou os mais variados tira gostos. Cantarolou músicas que outros artistas interpretavam. Contou piadas e casos. Sorriu e fez pessoas sorrirem. Até que, a convite de duas solitárias senhoras, dispôs-se a curtir o resto da noite em agradável papo com gente sensível, experiente e amante do bom viver.

O tempo passou rápido.

Quando as amiguinhas decidiram ir embora e se preparavam para chamar um táxi, ele se ofereceu para deixá-las em casa. Oferta aceita. Conhecidos os endereços delas, traçou mentalmente o plano de viagem por avenidas e ruas da cidade adormecida.

Despediram-se dos que ainda teimavam em divertir-se. E tomaram o rumo de casa; da casa de uma das amiguinhas. No trajeto, ele sentiu um leve acesso de sono. Estranhou. Teria sido a bebida? Mas bebera tão pouco. Cansaço? Mas era tão acostumado à vida noturna. Deixou pra lá.

Atingido o primeiro objetivo do plano, perguntou à outra amiguinha se não gostaria de ocupar o banco do carona, onde repousavam o violão amado e a sacola de mão. Com voz arrastada, ela disse preferir manter-se onde estava.

Iniciou-se, então, a segunda parte do plano. Era um trajeto mais longo. Logo o silêncio preencheu os espaços internos do veículo. Mais um acesso de sono. E outro mais. Numa atitude reflexa, esfregou os olhos com o dorso do dedo indicador. E o chevetinho cor de sangue seguia, tranquilamente, o caminho que conhecia tão bem.

O brilho do amanhecer ia apagando a iluminação artificial. Já se via até algum movimento de pessoas. A cidade ia, aos poucos e preguiçosamente, despertando. Era um domingo.

O chevetinho cor de sangue, ainda de faróis acesos, entra numa rua estreita, de casas modestas, alguns carros estacionados sobre a calçada. Bem em frente a uma delas, a de portão de alumínio, o motorista manobra-o no sentido da entrada da garagem. Para. Aciona a buzina. Uma, duas, três vezes. O portão se abre em bandas. E surge o vulto de uma mulher… ainda sonolenta e com cara de poucos amigos.

De imediato, ele percebe que errou a manobra; se fosse à frente, inevitável seria a colisão com uma das colunas de sustentação do portão. Engata a marcha à ré. Numa atitude natural de quem dirige, vira a cabeça para trás. E o que vê? A amiguinha da noitada, deitada no banco traseiro, num sono profundo.

Mantém a calma. Conclui a manobra. Engata a primeira, a segunda… e desaparece na primeira esquina, em direção à residência da amiguinha que continuava dormindo.

Com ele, a sensação de ter ouvido alguns bons impropérios em relação à sua progenitora. Coitada! Uma boa razão teria de inventar, capaz de desatar o nó que inconscientemente atara.

Suspirou profundamente e reconheceu quão grave poderia ter-se tornado aquela situação.

– Meu bom Deus, eu Lhe devo mais essa!

Quanto a mim, o narrador, eu me reservo o direito de recorrer à sensibilidade do gênio Nélson Rodrigues, para quem “A alma é tudo. O resto é paisagem”.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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