Eu sei o que vocês fizeram na eleição passada, por Gilvan Mendes

A intolerância e a raiva com o outro que pensa diferente está virando norma de conduta no Brasil contemporâneo. O historiador Leandro Karnal escreveu este ano um livro chamado ”o ódio nosso de cada dia”, discorrendo sobre o assunto. Nas redes sociais, compartilhamentos de ”textões” e vídeos que ”refutam” a opinião do considerado adversário político são comuns, assim como é corriqueira a ação de fake news” interessadas em deslegitimar certos ”inimigos” combatentes da nossa guerra fria ideológica. Obviamente, a responsabilidade desse clima de cruzada não deve ser somente jogada nas costas das redes sociais ou da internet como um todo. Ao invés disso, reflete  as consequências do clima de batalha que foi criado na última eleição presidencial brasileira, e pode ser proveitoso para o debate. 

O ano era 2014. PT e PSDB novamente disputaram até o fim o cargo de presidente da República. A lógica democrática requer que os candidatos e legendas que queiram vencer uma eleição presidencial apresentem propostas e visões de mundo plausíveis e coerentes. Entretanto, tucanos e petistas, naquele momento, fizeram o contrário, travaram uma disputa desleal em que era mais importante difamar e humilhar o opositor do que apresentar projetos políticos nacionais. Dilma era a ”terrorista comunista” Aécio era o ” reacionário drogado” na mente e nas palavras dos militantes e apoiadores dos dois partidos.  

Essa lógica criou uma espécie de ”banalidade do mal’‘, usando a conhecida expressão da filósofa Hannah Arendt. Xingar se transformou em argumento, ”memes” viraram fontes de informação, vídeos gravados e postados nas redes se converteram em referência intelectual. Ser extremista e sectário virou regra. Tudo isso poderia ter sido evitado se em 2014 tivéssemos assistido uma disputa política racional e propositiva.  

PT e PSDB não são organizações políticas sem importância. Foram e ainda são agentes importantes da democracia brasileira, cada um a seu modo. Em 2014, ajudaram a disseminar esse espírito de ”nós contra eles”, ainda vigente no país. Tomara que olhem para o futuro e planejem melhor suas ações, deixando de lado o maniqueísmo.   

Gilvan Mendes Ferreira

Gilvan Mendes Ferreira

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará.Com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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