A epopéia da infância: de invisíveis a super poderosos, por Leandra Batista

Nos séculos XV e XVI, a criança estava inserida em um contexto tradicional, numa sociedade que não tinha interesse na população infantil, com poucos registros ou dados específicos sobre a infância, pois as crianças não eram prioridade, eram vistas como algo secundário. A criança logo que tinha um crescimento considerável, já era inserida na vida adulta, isso sem passar pelos processos de transição que todas as fases exigem; o aprendizado infantil não era diferenciado, a criança aprendia na convivência com os adultos, sem uma diferenciação com cada fase específica, lembrando também que não existia nenhuma preocupação com a escolarização e letramento infantil.

O século XX traz trabalhos bem abrangentes, com estudos focados diretamente nas crianças, dentre eles podemos citar Jean Piaget, que não viu a criança só de “fora”, mas que ela passava por processos cognitivos, ou estágios, mudando a ideia que crianças não eram pequenos adultos, como se pensava em séculos passados, mas que passava por diversos e complexos processos até se tornar um adulto. Podemos citar também Margaret Mead, defensora da tese de que as crianças têm diferenças individuais, devendo ser vistas dentro de suas culturas e desenvolvendo-se de formas particulares, a mesma acredita que a classificação etária depende de situações sociais e que cada cultura tem seu percurso.

Seguindo a epopéia em busca do reconhecimento da criança, chegamos ao século XXI, com uma infância que conquistou o seu espaço de direito, com todos seus estágios reconhecidos e respeitados até chegar à idade adulta, sem que fossem vistas apenas como algo sem importância, como acontecia em séculos anteriores; houve uma inversão significativa do espaço que a criança passou a tomar nas famílias contemporâneas, elas passaram a ocupar um lugar de destaque, ou até de poder; uma das causas é que nos lares atuais, pai e mãe, por necessidade, trabalham fora, passando pouco tempo com seus filhos, e muitas vezes a forma que encontram para compensar essa falta é dizendo “sim” pra tudo, outra causa são pais que não aguentam ver seus filhos chorarem, cedendo sempre com um “sim”, lembrando que chorar faz parte do crescimento emocional da criança, dentre várias as causas encontradas para nunca se dizer “não” aos pequenos, criando assim uma geração de “super poderosos”.

As regras, o limite e o “não” são necessários para um crescimento saudável, pois ajudam a estruturar a personalidade humana, se isso não acontece, as crianças sozinhas criam suas próprias diretrizes, tornando-se crianças dominadoras e consequentemente adolescentes que não aceitam negativas.

Se essas crianças e adolescentes não receberam “não” dentro de casa, também não irão aceitar receber fora dela, ou seja, quando começam a interação com outras pessoas fora do seio familiar, e são várias as consequências que enfrentam quando não aprendem desde pequenos a passarem por frustrações, muitos desses acontecimentos são protagonizados no meio escolar, onde os pais já não conseguem lidar com a soberania dos filhos e transferem a responsabilidade para as escolas, especificamente, para os professores.

Em março de 2017, a professora catarinense Márcia Friggi foi agredida por um dos seus alunos, pois o mesmo não quis obedecer a um pedido para que colocasse o livro em cima da carteira. A educadora acredita que estamos diante de uma junção, que seria a “geração cristal mais a síndrome do imperador”, ou seja, de quem não se pode cobrar nada, com medo de desapontar, e também onde todas as vontades das crianças e adolescentes devem ser atendidas, na maioria das vezes se sobrepondo à autoridade dos pais e professores. São pessoas que estão se transformando em adultos e sequer conseguem lidar com a hierarquia existente nas relações cotidianas.

O “não” na infância é o fortalecimento e preparação para a vida adulta, muitas vezes não existe o caminho mais fácil na criação dos filhos, principalmente quando se deve dizer “não” aos seres que mais amamos, os pais devem sempre ter em mente que uma negativa naquele momento é necessária para que se colha algo positivo no futuro, nem sempre o sim deve ser priorizado, muitas vezes negar é o certo a se fazer, assim como as árvores que devem ser podadas para posteriormente voltarem a crescer, mais bonitas e mais frondosas.

Leandra Batista

Estudante de Letras da UECE

Convidado

Artigos enviados por autores convidados ao Segunda Opinião.

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