Enfrentando o Leviatã ou a vida em termos de travessia

“No hay em la tierra semejante a él,

Que há sido hecho intrépido.

Mira a la cara a los más altos,

Es rey de todos los hijos del orgujjo.

(Trecho final da descrição  do Leviatã).

“Homo homini lupus”.

Ditado romano.

É atribuída a Homero a compilação na Odisseia das lendas e tradições dos povos navegadores, com um imaginário constituído por monstros, seres descomunais, paixões e traições. Após muitos anos longe de casa Ulisses (Odisseu) atravessa as águas em seu navio rumo à Ítaca. Em cada parada, uma provação. Enfrenta o País dos Comedores de Lótus, alimento hospitaleiramente oferecido aos viajantes, mas que tributa o esquecimento da própria terra natal. Em outra ilha, luta engenhosamente contra o ciclope Polifemo, que come carne humana. Na ilha de Éolo, Ulisses recebe do Governante dos Ventos um presente e é traído pela ambição dos companheiros, retirando-os da rota. Passa por Circe, pela tentação das sereias, perde o navio, e consegue chegar à ilha da ninfa Calipso que se apaixona por ele, prometendo vida eterna ao herói.

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A gruta fantástica com Ulisses e Calipso. Brueguel, o Velho. 1600.

Mas, apesar de todos os prazeres oferecidos, Ulisses é infeliz. A vida imortal dos deuses, idealizada por muitos, é fonte de angústia, pois foi imposta e é, portanto, uma falsa vida. Tudo o que ele deseja é viver a própria vida, voltar para seu lugar, pegar o caminho de volta pra casa. Mesmo que sofra, que enfrente monstros e dores. Resistiu e conseguiu fazer o caminho de volta a Ítaca. Ulisses personifica o phatos do destino heroico do lutador.

Falar em monstros das marés é falar do Leviatã. Ao longo dos séculos a figura mitológica do Leviatã é resignificada em diversas narrativas. Assumiu a forma do Kraken, Cetus, serpente marinha, polvo gigante, dragão, crocodilo. Surge no Livro de Jó como o mais poderoso dos monstros aquáticos. Assombrou o imaginário dos navegantes nas histórias nórdicas, gregas, na Idade Média e no período das grandes navegações.

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A destruição de Leviatã. Gravura de Gustave Doré. 1865.

Esta voraz criatura dos mares ameaça o propósito desbravador dos navegantes mais ousados. É preciso temê-la. Em 1651 Thomas Hobbes pegou por empréstimo a figura do Leviatã para dar força à sua teoria sobre a origem do Estado. Levantou como hipótese a existência de um “estado de natureza”, uma espécie de estágio pré-político da humanidade, emblematicamente caracterizado na teoria de Hobbes como a “guerra de todos contra todos” e na máxima “o homem é o lobo do homem”. Ressalta, portanto, a agressividade e a destrutividade como inerentes à condição humana.

Para frear as paixões vis e colocar “ordem na casa” é necessária a celebração de um pacto, um contrato que regule os limites das ações humanas. Caso contrário, seria a própria destruição da espécie. Surge o soberano, representado na figura do Leviatã. Poderoso, “um deus mortal”, promete proteção em troca da submissão. Transforma as vontades díspares e egoístas de todos na vontade de um. Trata-se, portanto, de uma transferência decisória total. Pelo pacto, “cedo e transfiro meu direito de governar-me”. A teoria contratual hobbesiana auxiliou a fundamentação da transição do sistema feudal para o absolutista. A afirmação atribuída ao rei Luís XIV é tradutora desse processo: “L’etat c’est moi” (O Estado sou eu).

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capa da edição original do Leviatã (1651).

O jogar-se em águas agitadas é um tema recorrente nas pinturas do romântico inglês Willian Turner. Meticuloso ao extremo, Turner entregava-se ao processo com todo o pathos existencial. Bem antes dos impressionistas instaurarem suas rupturas, este artista já mergulhava como desbravador dos efeitos da luz. Ouvi recentemente do artista Carlos Vergara que, para compreender a experiência de estar entregue à fúria das marés, Turner era amarrado à proa do navio que rumava para o alto mar. Sentia a violência das águas contra o corpo. Representava desta forma uma experiência conhecida, vivida na pele, intensa. O espectador inquieta-se com a visão do barco à mercê da força das ondas, a sensação permanente de deriva, da instabilidade própria da condição phática humana lançada no movimento do mundo. Turner estava imbuído de uma disposição fundamental: a paixão, a entrega sem reservas. Turner, no melhor estilo romântico, se deixava levar pelo fluxo das marés. Era de corpo inteiro que se dava ao objeto que buscava alcançar.

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Harbour’s Month, Willian Turner, 1842.

Em épocas instáveis o desejo de segurança ganha amplitude e a ousadia atrofia suas ações. O famoso texto de Freud, “mal-estar na civilização”, lança mão dos fracassos da cultura e da tecnologia no cumprimento das promessas de bem-estar e felicidade. A agressividade humana autodestrutiva levantada por Hobbes é retomada por Freud, mas nesse contexto ela surge na luta constante entre pulsão de vida e pulsão de morte, entre o instinto de vida e o instinto de destruição.

Zigmunt Bauman puxa o argumento de Freud para refletir sobre o mal-estar na sociedade individualizada atual. Lança a sentença: ninguém escapa de participar do jogo individualizante. No reino das metas o fracasso é culpa de quem não foi competente o suficiente para atingi-las. Na pele: ontem pedi um cafezinho com pão de queijo e, ao pagar a conta, a pessoa que me atendeu suplicou que eu a avaliasse num totem instalado no lugar. Perguntei o motivo desta avaliação ser tão necessária e ouvi: “eu preciso bater a meta, senão serei cortado”.

A sensação de perder o chão é geral. Criam-se refúgios que possibilitem algum amparo, algum sentido de pertencimento. As redes sociais surgem como substitutos de comunidades, mas os laços desta rede são frágeis. As comunidades tem vida curta, submetida a relações cada vez mais pautadas pelos princípios do “narcisismo das pequenas diferenças”. Quando as emoções são espalhadas pelo espaço virtual são igualmente compartilhadas identificações, quanto o ódio à diferença.

Desta forma, o indivíduo segregado em sua ilha se configura como o pior inimigo do cidadão. Bauman argumenta que o interesse público foi cada vez mais reduzido às confissões públicas de sentimentos privados. Discurso de águas misturadas e inseparáveis (vejam o “mimimi” na carta que Michel Temer endereçou a Dilma Rousseff). Estamos, portanto, num barco confuso e sem norte. As notícias do mundo mostram perigos e desastres; a representação política perdeu o senso e o sentido. Vazios de significado, vulneráveis, descartáveis, como os indivíduos podem tecer prognósticos favoráveis para o amanhã? O estado de precariedade, já disse Pierre Bourdieu, “transforma todo o futuro em incerto”.

Para fazer a travessia de um estado a outro é preciso desejo. Para construir processualmente novas possibilidades é fundamental a esperança, que não surge do nada, a esperança precisa ser construída. Nesse sentido, o pessimismo não ajuda. A sentença pessimista é a mais fácil de pronunciar e também a mais infértil. O pessimista rapidamente passa por inteligente e o otimista por tolo. Porém, não se trata de assumir posições maniqueístas. Nosso problema atual é complexo e deve ser compreendido complexamente, levando em consideração as misturas que nos compõem. Sem menosprezar a porção destrutiva, tanática. Sem desconsiderar os caminhos que possibilitem o fortalecimento de Eros, a potência da vida. Se o homem é o lobo do homem, ele também é a salvação do próprio homem. Isso vale para as relações que estabelecemos uns com os outros, e com as outras espécies da natureza.

Maiakovski já anunciou que o mar da história é agitado. Guimarães Rosa disse que o que a vida quer da gente é coragem (e poesia pra construir o caminho). Coragem para sermos heróis de nossa autobiografia, no enfrentamento da agitação, das incertezas e das ameaças. Há uma metáfora de Bion que é preciosa para concluir um texto endereçado aos navegantes: “Quando um navegador se orienta por uma estrela, ele sabe que não irá alcançá-la, mas tomará seu rumo na direção da estrela”.

Ana Valeska Maia Magalhães

Ana Valeska Maia Magalhães

Advogada, graduada em Artes Visuais, graduanda em Psicologia, aluna da Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Fortaleza e Mestre em Políticas Públicas e Sociedade pela UECE. Autora dos livros “Pulsão Irrefreável: arte contemporânea no feminino” e “Tessituras: em contos, crônicas, poesias e imagens”.

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11 comentários

  1. anônimo

    Olá!

    Tenho dificuldade em classificar as coisas, sempre acho que tudo está conectado. Sendo assim não faz sentido classificar, pois tudo pertence ou tem parte de tudo.

    Quando criança, tinha por volta de 5 anos, fui levado ao sepultamento do meu bisavô. Ao regressar, estando em casa, sentia-me inquieto, aquela experiência havia mexido comigo de forma profunda. Me pus a pensar sobre o significado e importância da existência. Involuntariamente, o pensamento me conduziu a um estranho exercício, onde gradativamente iam-se eliminando coisas, lugares, pessoas e o ser humano. Foi algo doloroso, angustiante, apavorante senti que nossa existência não era indispensável, apenas possível, assim como outras.

    Seu texto, muito bem escrito, parece o de um observador, a captura de ideias e conceitos, todos externos, soa culto, mas carece de identidade, carece de vida e acaba por constituir-se numa pilha de textos bem organizados em busca de um significado.

    O poeta Zeca Pagodinho, na canção O Dono da Dor, diz “Ninguém pode imaginar o que não viveu”.

    Faltou ao texto aquilo que transbordava em Willian Turner, amarrar-se à proa do navio que ruma para o alto mar.

  2. Sérgio Costa

    Ser navegante é essencial. Mas me pergunto em quais portos devemos atracar nossos corações em tempos tão turbulentos. Excelente texto, Ana, como sempre!! Um beijo, fique bem e navegue sempre rumo às estrelas. 🙂

  3. Celso Cavalcante

    Adorei o texto! Essa necessidade de confronto entre deuses homérico e os filósofos, que em Homero se orientaram, é de grande sabedoria e de forte ênfase para compreensão da existência humana. Parabéns!

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