EM NOME DO PAI, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Sou do tempo em que bastava um olhar dos pais e a obediência se dava por inteiro; em que a reprimenda ocorria em função dos erros que cometíamos: nada de exageros nem de omissões. Sempre sabíamos o porquê dos castigos; se havia alguma revolta, logo se dissipava na convicção do merecimento.”

[Xykolu, em Alguma coisa acontece… – MY BOOK OF THE FACE 2, pág. 223].

O velho pároco, que reservava o segundo domingo de cada mês para visitar aquela comunidade erguida por membros de duas ou três famílias, no curso de muitos anos e às margens de um rio que ora só dispunha de águas nas suas entranhas, e celebrar a santa missa numa capelinha apinhada de gente simples, que usava o melhor de seu vestuário e enfrentava léguas de estradinhas poeirentas para ouvir a palavra de salvação das suas calejadas almas, vira-se – revestido em paramentos de cor verde já quase sem brilho – de costas para o Santo Sacrário, aproxima-se do altarzinho coberto por uma alvíssima toalha, engomada a ferro e brasa e grude de goma, e, agora de frente para os fiéis, a eles se dirige, no rito de conclusão, no desfecho de um diálogo mantido com seu dileto acólito, em linguagem que certamente nem ele, o auxiliar, compreendia bem:

– Dominus vobiscum.

– Et cum spiritu tuo.

– Benedicat vos omnipotens Deus, Pater, et Filius, et Spiritus Sanctus. [À medida que faz um grande sinal da cruz, abençoa a todos os presentes].

– Amen.

– Ite missa est.

– Deo gratias.

Ato contínuo, beija o altar e, com a genuflexão derradeira e costumeira, cumpre a devida reverência, em veneração ao Altíssimo, retirando-se para a sacristia, tendo à frente o jovem acólito.

Ali, já de pé, na primeira fila de bancos sem encosto, normalmente reservados aos mais velhos, um respeitável senhor de cabelos grisalhos distribui, com paciência e sobriedade refletidas no semblante em que muitas rusgas denunciam o efeito do tempo, de marcantes e múltiplas vivências, as bênçãos reclamadas por afilhados de todas as idades. Sente, então, uma mão que procura descanso em seu ombro esquerdo; tão logo isto se tornou possível, ele se volta para a mulher que reclama a sua atenção. De imediato, reconhece-a, saudando-a com alegria:

– Comadre, há quanto tempo!

– Pois é, compadre. O Bastião, seu compadre, anda meio acabrunhado… sente dores nas pernas… uma moleza no corpo… queixa-se de dor de cabeça… acham até que é maleita… reclamar não é com ele, mas a gente tem de cuidar mais, né. O senhor entende…

– Coisas da idade. O tempo é assim mesmo; quando insiste em testar nossa coragem, nossa disposição para a luta, nossa vontade de viver, torna-se rude e exigente. Mas me diga em que lhe posso servir. Será um prazer.

– Compadre, o assunto que me traz até o senhor não pode ser conversado dentro da casa de Deus.

– Muito embora o mundo seja a casa dele…

– Sim, sim. Mas a igreja é um lugar sagrado, de orações…

– Certo. Façamos assim: se a senhora não está com pressa… tem mais alguém…

– Tem sim. Eu vim com a Madalena, a minha filha mais velha.

– Pois bem. Vocês duas estão convidadas a tomar o café da manhã comigo. Aí a gente conversa mais à vontade. Acompanhem a Lurdes, enquanto eu troco dois dedos de prosa com o senhor vigário. Ô, Lurdinha, minha velha, a comadre Toinha e a filha dela… Madalena, né isso?

– É sim.

– Elas vão tomar café com a gente. Vá caminhando com elas. Eu vou aqui à sacristia. Preciso de um perdão especial do padre. Chego já lá. Vão com Deus!

Já em casa, sentado à cabeceira da mesa rústica, o bule de ágata com café puramente caseiro, as tapiocas branquinhas com cheiro de leite de coco, o pão de milho banhado em nata, ele faz com que todos agradeçam a dádiva divina que é o alimento ainda farto em épocas tão difíceis.

Concluído o quebra-jejum, a mesa limpa, o velho juiz de paz dirige-se à sua consulente:

– Bem, comadre, sou todo ouvidos. Por favor, diga o que a incomoda tanto.

– Madalena, como o senhor sabe, teve, há alguns anos, um caso com um dos filhos do compadre Salviano… o que foi embora para a capital, tão logo ela lhe disse que estava grávida dele. A gente assumiu a gravidez dela e o Tiãozinho, hoje um rapazinho de quase doze anos, sempre foi tratado como se fosse filho da gente. Agora, não se sabe bem por quê, o pai, ou melhor, o que se diz pai, depois de tanto tempo, vem ameaçando retirar o menino de nós. Eu acho até, compadre, que o mal do Bastião tem a ver com essa ameaça. A gente não vai suportar essa maldade. O que o senhor acha disso?

– Quem ameaça vocês é filho do compadre Salviano, né?

– É sim.

– Espere um pouco, comadre. Ô Demerval!

– Que foi, pai?

– Meu filho, vá até a casa do compadre Salviano e diga pra ele vir aqui, agora mesmo. Diga pra ele que o assunto é sério.

– Sinhô sim, pai.

Com Salviano já sentado à mesa, no lado oposto ao de Madalena e sua mãe, o juiz de paz lhe expõe, com clareza, o que ouvira acerca das intenções do filho dele. A reação se dá, então, pelo silêncio e pela inclinação de cabeça, com o olhar desviado para o chão, numa demonstração inequívoca da vergonha que sentia ante os desmandos praticados por um de seus filhos, exatamente o que sempre agiu com rebeldia.

A voz do respeitável senhor de cabelos grisalhos preenche, então, os desvãos das almas daquelas criaturas em circunstancial desavença:

– Amigos meus. O que é ser pai? O que se exige de um homem para que ele possa ser chamado de pai? Não pretendo aqui falar de obrigações nem de direitos. Mesmo porque entendo que a missão de pai suplanta, supera, em muito, essas questões de ordem legal, material, essencialmente mundanas, sociais. Ninguém alcança tão significativo estágio da vida por um simples ato de prazer, ou melhor dizendo, o gozo carnal não se faz suficiente para, por si só, ungir quem quer que seja com a bênção divina da paternidade. É preciso muito mais. Bem mais. De um pai, exige-se a presença cotidiana, a disponibilidade incondicional, a coragem para agir e reagir no momento preciso, quaisquer que sejam as circunstâncias, e, além de tudo isso, o exemplo formativo. A relação pai-filho vai-se fortalecendo à medida que entre eles se manifestem, naturalmente, o carinho, a afeição, o querer um estar perto do outro. Ser pai implica o respeito construído com autoridade, sem a força e o poder do tirano que tudo proíbe e que se mostra sempre disposto a castigar por qualquer motivo, e com legitimidade, sem a fraqueza e a frouxidão do “bonzinho” que tudo aceita, tudo aprova, tudo permite. O pai tem de ser, ao mesmo tempo, autêntico no que faz, sincero no que diz e humilde quando erra, para que o filho sempre nele acredite como alguém que o ama, que o protege e que sempre quer o melhor para ele. Concluindo, pai não é quem simplesmente gera, reproduz, procria, porque qualquer ser irracional pode isso fazer – é algo mecânico, que se liga ao corpo; pai é quem cria, quem educa, quem forma, quem desempenha com naturalidade e singeleza esse papel divino confiado exclusivamente aos homens de verdade – é algo demasiadamente humano, que se liga a alma. Pai não se faz na rapidez de um jato, mas se constrói na conformidade e na coerência de muitas e diuturnas vivências.

Após curto momento de silêncio meditativo, Salviano, recobrando-se do efeito da vergonha, que sentira, encorajou-se e assumiu o seu papel de pai:

– Compadre, entendi a sua mensagem. Não posso ser contra a nada do que o senhor disse. Pelo contrário, mais aprendo a respeitar seu modo de ver a vida. E eu sei que agora me cobra uma atitude de pai. Comadre Toinha, menina Madalena, eu garanto, dou a minha palavra até, que o meu filho não vai mais ameaçar vocês. O Tiãozinho, que eu tenho como neto, vai continuar com vocês. Enquanto vida eu tiver, esse juramento que ora faço será respeitado. Comadre, apresente as minhas desculpas ao compadre Bastião. Diga a ele que desejo suas melhoras. Permissão pra me retirar, compadre!

– Tem toda, compadre. Obrigado pela sua compreensão. Dê um abraço na minha comadre.

– Já está dado. Até mais ver!

E assim mais uma pendenga matuta se resolvia, sem burocracias e sob a reconhecida qualificação de um velho e respeitável juiz de paz.

Em tempo: 1) Na missa em latim ou tridentina (Concílio de Trento, 1545-1563), o celebrante mantinha-se de frente para o Santo Sacrário, onde repousava “o corpo de Cristo”, e de costas para os fiéis. Em alguns momentos ele se voltava para o povo, assim como na Homilia (Sermão), na distribuição do “corpo de Cristo” (Comunhão) e no rito de conclusão (Despedida). 2) Ao acólito, cabia, além de desempenhar bem todo o ritual de acompanhamento, saber, com segurança, as respostas em latim que deviam ser dadas, sem titubeios, ao celebrante. Nos meus tempos de salesiano, isso fazia parte de uma disciplina chamada Religião.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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