ELUCUBRAÇÕES* – Algumas de minhas simplórias reflexões sobre a relação “homem e poder”, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

REFLEXÃO Nº 1

“Não cedi, recusei o papel de condutor de massas, de manipulador das bases. FHC derramou toda a sua verve para tentar me demover. […] Interrogava as razões de minha recusa. Mera intuição política (…). Algo novo emergiria das bases. A militância popular haveria de criar sua própria ferramenta política. […] E me chamou de leninista. Esbravejou frente à minha resistência. […] E tome vinho chileno!” [Frei Betto, em A MOSCA AZUL. Rio: Rocco, 2006; págs. 54-55].

A vida é pródiga em colocar-nos em encruzilhadas. É como se pretendesse avaliar nossa inteligência, nossa sensibilidade, nossa capacidade de discernir o bem e o mal, o certo e o errado, o bom e o ruim, o belo e o feio.

E nós, a nosso modo, sempre tomamos a decisão que se nos oferece dentro daquilo que podemos chamar de razoabilidade. Então, construímos a nossa realidade, a nossa verdade, que, certamente, não é e nunca será absoluta.

E isso, obviamente, concorre também para que sejamos diferentes, uns dos outros. E isso nos impõe o respeito pela decisão do outro (conceito fundamental de civilidade).

É por isso que costumamos identificar-nos mais facilmente com aqueles que comungam das nossas concepções, das nossas ideias, ou seja, das nossas realidades crucialmente construídas.

O que importa é que a nossa decisão se dê arrimada em razões que nos proporcionem o convencimento do que é bom, do que é certo e do que nos causa o bem, sem a mais mínima sensação de egoísmo, e que, em contrapartida, deem-nos a consciência de nossa responsabilidade por tal ato.

É algo assim como a máxima do filósofo espanhol José Ortega y Gasset: “O homem é o homem e suas circunstâncias”; ou como a mínima deste escrevinhador tupiniquim: “O homem é o homem e suas peculiaridades”.

O que não vale é minimizar a situação e agir pelo simples fato de agir. A vida não perdoa.

Post scriptum: Lembremo-nos de que, a rigor, não existem partidos no cenário político brasileiro e que, por conseguinte, o mais comum é votarmos no(a) candidato(a) e não em propostas, em projetos ou em planos de ação que ele ou ela porventura assuma como “marca registrada” de sua candidatura. Cuidado: essa é mais uma verdade não absoluta.

REFLEXÃO Nº 2

“De que vale a política, essa frágil e decadente musa provecta, frente à sedutora robustez de sua afortunada irmã, a economia? A plebe, contudo, que da economia mal escuta o eco, fica à espera de que a política a socorra de tão sofridas desditas. E dá-lhe voto, confiante de que, eleito o candidato, haverá mudança no rumo das coisas. Mas eis que, acavalado ao poder, o político parece tomado pela mais profunda amnésia. De quase nada se lembra: do que escreveu, do que leu, falou, discursou, prometeu. Foge de suas próprias palavras como o diabo da cruz.” [Frei Betto, em A MOSCA AZUL. Rio: Rocco, 2006; pág. 225].

Políticas assistencialistas deveriam, a meu exclusivo ver, ser sempre elogiáveis.

Distribuição de renda sempre foi um sonho de todos nós, com raríssimas exceções.

Agora, o que questionamos é como isso ocorre em solo brasileiro.

Qual a fonte dos recursos? Resposta simples: os impostos que, como se sabe, sacrificam a classe média e a atividade produtiva, bem mais passíveis do controle da famélica máquina governamental; jamais alcançam as grandes fortunas que, a rigor, bancam os financiamentos de campanhas, com escusos e espúrios interesses.

E o poder se mantém, apoiado em dois segmentos da sociedade. De um lado, a classe pobre – ou o pobretariado – agradecida pelo clientelismo miserável e acomodatício – mães pobres que, por exemplo, se dispõem a ter mais um filho apenas para melhorar a renda familiar(?!) – e promotor e mantenedor da ociosidade – jovens, em plena idade produtiva, que, perigosamente, cruzam o sertão de estradas e veredas empoeiradas em suas motos velozes e furiosas, não raro financiadas pelas aposentadorias rurais de seus senis ascendentes. De outro, a elite que, regra geral, dispõe de patrimônio “carente” de salvaguardas especiais; senão se exila em paraísos fiscais. Afinal, o vil metal não tem pátria, nem mátria; ajusta-se ao berço que melhor acolhida oferecer.

A nós, inconformados, sim, com tudo o que está aí exposto; que um dia, lá atrás, quisemos mudanças e seguimos uma estrela como se a Belém fôssemos e atualmente sentimo-nos frustrados pela caminhada que empreendemos; que somos criticados porque lutamos para dar o melhor às pessoas que amamos e a nós mesmos e percebemos quão exageradamente retiram de nós – legitimamente enquanto viger legislação específica que dê sustentação à prática, mas injustamente porque a dosagem é exagerada e discriminatória – para, segundo dizem, promover a nossa tão sonhada “distribuição de renda”.

A nós, resta o direito a sonhar com algo diferente, sem perder a convicção de que o risco de errar nos acompanha, a nós todos, em todas as nossas decisões. Omissão, jamais!

REFLEXÃO Nº 3

“O brasileiro não sabe votar. Não considera crucial o ato de votar. Banaliza o voto, trocando-o por qualquer tipo de agrado, de promessa. Eu mesmo já votei em alguém que se apresentava com o singelo nome político de ‘Queimadura’, pelo simples fato de querer protestar; a sorte é que o rapaz não foi eleito, mas tal ato ainda faz arder as minhas convicções cidadãs. Agora, que me respondam os entendidos: como valorizar meu voto, como votar bem, se o sistema político brasileiro, além de obsoleto e caduco, é carcomido, degenerado, concupiscente? Vejam bem: decidi que não votaria em Dilma antes mesmo de concluído o seu primeiro mandato, para valorizar o meu voto, como instrumento de mudança; hoje quem está no poder é Temer, alguém em quem votei uma única vez – e o PT ainda há de me ressarcir por isso – e não mais votaria, para valorizar o meu voto, como instrumento de cidadania; acabei ancorando a minha nau cidadã no porto eleitoreiro de Aécio… que bela opção o sistema me ofereceu!” [Eu, em DESILUSÕES DE UM ELEITOR, ainda não publicado].

Vou pôr a minha colher de pau nesse angu de caroço.

Não voto em partido, mesmo porque defendo o entendimento de que, a rigor, não existem partidos no cenário político nacional. O que há são siglas – incontáveis e com objetivos que nem Deus se interessa em saber – que albergam os interesses pessoais de candidatos e dos que se beneficiam, de alguma forma, de suas candidaturas.

O brasileiro, regra geral, vota em pessoas.

Ainda no tempo em que acreditava ser o Partido dos Trabalhadores o ensaio perfeito de um partido brasileiro, nascido nas bases e com um projeto político, a meu ver, bem delineado, VOTEI NO LULA, em todas as vezes em que ele concorreu à presidência da República. PERDI pra Collor, pra FHC, até que GANHEI de Serra. VOTEI NA DILMA, mas já não vendo no então PT sequer a continuidade daquilo que fora o seu propósito inaugural. No curso do segundo mandato lulista, li MOSCA AZUL, de Frei Betto, livro que todo eleitor brasileiro deveria ler e reler, até mesmo para compreender os segredos – e desejos! – que perpassam a alma humana circunstancialmente no poder.

Hoje, os meus olhos se voltam para outros sombrios horizontes. Que futuro me espera!

Para mim, a estrela perdeu o brilho, o encantamento, embora eu continue respeitando quem permanece sob sua guia. Por uma questão de civilidade.

REFLEXÃO Nº 4

“Quem deve dirigir é quem tem capacidade. Quem tem dó e amisade ao povo. Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é fome, a dor, e a aflição do pobre. Se a maioria revoltar-se, o que pode fazer a minoria? Eu estou ao lado do pobre, que é o braço. Braço desnutrido. Precisamos livrar o paiz dos politicos açambarcadores. […] O pão atual fez uma dupla com o coração dos politicos. Duro, diante do clamor publico.” [Carolina Maria de Jesus, em QUARTO DE DESPEJO – Diário de uma favelada. Ática: São Paulo, 2000; págs. 35 e 47. Obs.: Mantida a grafia constante da citada obra, cujos editores declaram, em nota, respeitar “fielmente a linguagem da autora”.].

Pelo que os meus professores salesianos – educação exemplar! – me ensinaram, lá no final da década de sessenta – que época! –, a ideia de “direita” e “esquerda”, com a concepção de “situação” e “oposição”, surgiu com o parlamento francês. Convencionou-se, há séculos e no país da Marselhesa, que os assentos à esquerda da mesa diretiva eram ocupados por quem se opunha ao governo, reservados os à direita para os que apoiavam os detentores do poder. Eis uma visão bem simples do processo que, por ser essencialmente humano, encerra uma das mais profundas complexidades.

Na terra do Tio Sam, os políticos se dividem entre democratas e republicanos. Se um está no poder, o outro faz oposição. E vice-versa.

No Brasil, a ideia original se aperfeiçoou: há a “direita” e a “esquerda”; mas também há o “centro”, o “centro-direita” e o “centro-esquerda”, sem falar nos neoliberais, nos ruralistas ou do agronegócio, na bancada dos evangélicos e de outros distintos grupos que, juntos, colorem – ou descolorem! – o mefistofélico ambiente congressual; e o que é mais interessante: há até os que não sabem sequer onde é que estão… E, dessa ampla concepção de como atuar politicamente, brotam siglas de toda e qualquer natureza: PT, PSDB, PMDB, PSB, DEM, PCdoB, PDT, PMN, PROS, PL, PR, PDT, PQP… E, dessa parafernália politiqueira, surgem as coligações dos mais variados matizes.

Parece que todos comungam do mesmo interesse: não podem é perder essa boquinha!!!

AFINAL:

Concordando com tudo isso ou discordando de tudo isso, VOTEMOS, TODOS NÓS, DA FORMA MAIS RESPONSÁVEL POSSÍVEL!!! SEMPRE!!!

* Texto originalmente escrito em 11 de outubro de 2014, quando reuni respostas minhas a postagens de amigos de Facebook, inserindo-o em MY BOOK OF THE FACE – O meu livro do atrevimento, s/editor e s/orelhas, págs. 203-205. Na versão que ora o apresento, fiz questão de submetê-lo a uma revisão ampliada e de revesti-lo com nova roupagem, inspirada – outro atrevimento meu! – em Michel de Montaigne, o pensador francês autor de ENSAIOS, que, em dado momento, critica quem se apoia em citações ou em pensamentos alheios, em menosprezo ao “pensar sozinho”, embora não prescinda do recurso à prática que condena, usando-a abundantemente, e em Frei Betto, o dominicano brasileiro autor de A MOSCA AZUL, ainda com a providencial revisitação do diário de uma favelada, excluída e marginalizada, mas que adorava ler e escrever.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *