Eleição 2018: Alckmin e Ciro no segundo turno? por Josênio Parente

A figura de Luiz Inácio Lula da Silva ronda as eleições de 2018, tornando-a singular. Sua prisão, com ares de perseguição política para um significativo setor da sociedade, não diminuiu a importância de sua figura, pelo destaque e superioridade que as pesquisas vêm revelando, sobretudo nas intenções de voto para o segundo turno. Essa realidade acontece mesmo com Lula preso. A dúvida de que ele continua podendo concorrer para Presidente ainda paira como possibilidade na cabeça de significativo número de pessoas, crença esta reforçada por juristas e nas redes sociais. Esta é a causa de uma certa indefinição que toma conta desta eleição.

A decisão do voto é influenciada por vários fatores. Para a escolha racional, ela se orienta por critérios objetivos com foco muito forte nos interesses econômicos. As pesquisas eleitorais, deste modo, não apenas criam estratégias para o partido e o candidato orientarem a sua campanha, mas também o eleitor busca potencializar seu voto. Importante na leitura das pesquisas são as tendências embutidas nas séries temporais. As atuais pesquisas têm mostrado que as mesmas se encaixam bem dentro de uma estrutura partidário que vem sendo construída desde a democratização, na década de 1980, como já a apresentamos numa série de artigos sobre a eleição de 2018, neste espaço. A influência da incerteza de que Lula pode ser ou não candidato é não apenas a novidade desta eleição, mas a possibilidade de mostrar o aumento da cidadania, cada vez com mais maturidade para formatar uma estrutura partidária representativa da sociedade civil.

É estratégico para o PT manter viva a candidatura de Lula, mesmo que as aparências possam até contradizer. Essa esperança busca também recuperar espaços perdidos nas eleições de 2014 para as câmaras municipais, as assembleias estaduais e para o Senado Federal, afetado que foi pela operação chamada de “mensalão”. A operação mais agressiva chamada de “Lava Jato” não está produzindo a mesma consequência para o partido, mas vem aprofundando o desgaste das instituições, sendo afetado até mesmo o poder Judiciário, segundo consultas recentes das pesquisas de opinião. Essa realidade é fruto do embate que as redes sociais provocam, competindo com o monopólio das chamadas redes públicas abertas.

A leitura das últimas pesquisas, realizadas pelas várias agências, mostra claramente a possibilidade real de que o segundo turno, sem Lula, poderá ser disputado entre Alkmin e Ciro Gomes. E, caso aconteça este cenário, não será uma surpresa, não só para quem vem lendo as pesquisas a partir das possibilidades que elas vêm mostrando, sobretudo nas últimas aferições, como também para aqueles que acompanham o processo de redemocratização no Brasil, a partir da década de 1980. Bolsonaro, na liderança, tem estacionado no patamar máximo que a direita mais conservadora possa chegar. Quem vem apresentando potencial para crescer têm sido mesmo Alckmin e Ciro Gomes.

Assim, esta eleição constitui um desses momentos de inflexão, onde as questões estruturais são não apenas reveladas, mas testadas. A estrutura que vem se consolidando e se reproduzindo a cada eleição representa o longo caminho que o Brasil trilhou para chegar à consolidação democrática, processo iniciado na década de 1980. Observamos que São Paulo gestou os dois principais partidos que administraram esse percurso, o PSDB e o PT, representando os setores modernos da sociedade civil brasileira, surgidos da própria sociedade civil a partir das famosas greves do ABC paulista. Esses partidos ocuparam e lideraram o centro político, à direita e à esquerda, para arregimentar outros partidos que surgem nessa órbita, necessários à governabilidade. A influência federativa também influencia na formação dos partidos ligados diretamente aos Estados, sendo fortalecidos pela representação no Senado. O MDB, o mais bem estruturado desses partidos mais federativos, tem a função de consolidar a governabilidade, além da representação dos interesses estaduais. Só chegou à presidência da República por duas vezes, pois eram vice-presidentes e assumiram para substituir seus titulares: Itamar Franco e Dilma Rousseff. DEM e PSB também tem essa lógica.

Esses partidos têm um potencial de votos que se repetem aproximadamente a cada eleição. A direita e os conservadores têm voto certo, embora ainda não avançaram para serem competitivos para administrar a política. Enéias foi o primeiro a mostrar que o discurso de direita estava órfão de partidos. Vários deles surgiram, sobretudo ligados ao crescimento dos evangélicos e da organização do agronegócio. O processo de representação da sociedade civil cada vez mais se consolida com as crises políticas sucessivas, devido ao embate típico da democracia: a competitividade inerente se expressa na política pelos partidos políticos.

 

Josenio Parente

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

Mais do autor

1 comentário

  1. Ali Mendes

    Não só vem apresentando potencial para crescer, como Alckmin será o próximo presidente do Brasil. Tem se dado muito bem nas entrevistas e é o candidato mais preparado pra assumir o Brasil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *