Um Brasil para os banqueiros, um ‘brasil’ para os outros, por Capablanca

A imprensa acaba de anunciar uma Medida Provisória do Governo Federal que atribui ao Banco Central do Brasil a autoridade e a liberdade para negociar com banqueiros e corretores acordos de leniência. E mais: os crimes confessados permanecerão em segredo. O Banco Central é autorizado a perdoar e a esquecer.

É quase inevitável para os da minha idade voltar aos anos 1980 e lembrar daquele empresário gigante, o maior industrial do Brasil, o engenheiro metalúrgico Antonio Ermírio de Moraes, superintendente do maior grupo do país. Ermírio combatia a excessiva e maliciosa financeirização da economia brasileira que engordava o lucro dos bancos com o sangue, o suor e as lágrimas dos empreendedores que corriam riscos e lutavam produzindo e gerando empregos e com a “ciranda financeira” que secava os cofres do Tesouro nacional.

Ermírio disse uma vez que “o Brasil está dividido em dois grupos, os banqueiros e os outros”. Tudo para aqueles, nada para estes. Aos banqueiros, tudo; aos demais, o rigor da lei com todas as suas penas. “Nesse ritmo (dizia ele), acabaremos comendo sanduíche de ORTNs (Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional)”, e explicava que, com esse sistema bancário que não empresta e quando empresta cobra juros impagáveis, ninguém ia mais produzir. Dinheiro farto, a prazo longo e a custo razoável, desde aquele tempo, só no BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica.

Ermírio amava o Brasil, queria proteger e explorar corretamente as riquezas do país, trabalhava sem parar, viajava os quatro cantos para expor e defender essas ideias.

Quando a onda de delação chegou perto, apenas perto, do sistema bancário, eis que dá-se um jeito. Claro, ninguém quer quebrar o sistema financeiro.

Será que ninguém pensou nisso como uma boa ideia para todas as empresas envolvidas desde o começo da Lava-Jato. Foi mesmo necessário provocar tanta recessão e demissões aos milhões? Destruir, desmontar e vender a Petrobrás em fatias? Quebrar toda a indústria naval? Desmontar toda a engenharia nacional?

Ou o problema é que o Brasil se divide mesmo em dois?

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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