Felizes para sempre, por Luciano Moreira

Ele jamais admitira casar-se. Amarrar-se?! Nem pensar! Era celibatário desde criancinha…

Ela sempre sonhara com véu e grinalda. Arremessar o buquê significava, para ela, compartilhar a sua felicidade…

Eles se conheceram num forrozinho pé-de-serra. Dançaram quase a noite toda. Par perfeito. Enamoraram-se.

Após alguns outros forrós, ele a convenceu a juntarem os trapinhos… sem casamento, por favor!

Todos os dias, ao chegar cansado do trabalho, à boquinha da noite, tinha uma recepção principesca. Toalha limpinha e cheirosa no banheiro, chinelos arrumadinhos, lado a lado, jantarzinho básico bem quentinho, rede de varandas armada num canto da sala… E ele usufruía de tudo aquilo com prazer.

Pegou-o de surpresa uma indagação dela:

Mô, sabe que no próximo mês vamos completar 30 anos de…

O quê?! Já se passaram trinta anos?!

Nem percebera.

(…)

Não tiveram filhos. Não puderam. Pensaram até em adoção. Desistiram. Bastavam-se.

Essa mulher já fez por merecer”, ele contemporizou. “Vou casar-me com ela… Vou lhe dar este presente”, decidiu.

Casaram-se, com direito a tudo que o rito matrimonial sugere, tanto no religioso quanto no social. Mas sem lua de mel…

No dia seguinte, ao chegar do trabalho, percebeu uma drástica mudança no modus vivendi do casal. Nada daquele tratamento recebido por três décadas. Nada, mesmo. Estranhou. “Será doença?!”, pensou, então. “É isso… ela está doente”, concluiu.

Mô, você está se sentindo bem?

Estou muito bem, mô!

E… e por que isso tudo? Ou melhor, por que esse nada?

Tá pensando o quê?! Que ainda sou sua quenga?! Não sou mais, não… Agora, eu sou é a sua mulhE FORAM FELIZES PARA SEMPRE.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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