E ELE ESTEVE NO MEIO DE NÓS, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Eu também fui discípulo de Mosânio, o Mestre! Um dia destes, vou sentar-me sob frondosas árvores em algum bosque celestial para beber mais um pouco da sapiência do Gênio… que não morre… porque sua lembrança permanecerá intacta em nossas memórias agradecidas. Obrigado, professor Mosânio! O barqueiro da última travessia deve ter ficado estupefato ante a sua genialidade. Saudades.” [Eu, em comentário sobre postagem de Luciana Sousa, amiga para além do Facebook].

Lá no Cantinho Maluju – à época, o meu Jardim do Éden; onde eu curava os desassossegos do espírito sempre aboletado de preocupações cotidianas e recuperava as energias do corpo consumidas no curso dos úteis dias, das ordinais feiras –, aí pelos idos do ano de 1997 (já em reta final), num sábado memorável, a convite de um seleto grupo de novos discípulos, graduandos de Letras, que já se iniciavam na arte de bem compor equipes para participar de painéis e seminários, sob a liderança de uma jovem senhora – dona Marta Eugênia –, conosco estiveram as três pessoas da Docentíssima Trindade, por nós alçados, em voto aberto e justificado, ao panteão do magistério acadêmico do nosso particular universo formativo: Antônio Carlos Witkoski, então doutorando em Sociologia na Universidade Federal do Ceará (UFC) e professor de Introdução à Sociologia; Leão de Alencar Júnior, doutor em Literaturas de Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio) e professor de Teoria da Literatura; e ele, Paulo Mosânio Teixeira Duarte, doutor em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp-Araraquara) e professor de Morfologia do Português.

Quando lhe fizemos o convite para um encontro de fim de ano, daqueles que costumamos rotular de “encerramento das atividades”, ele logo desconversou – não se sentia disposto a participar de convescotes –, franziu a testa que já se alargava pela acentuada calvície, amiudou os olhos por detrás dos óculos de correção da visão submetida a excessos de leitura, cerrou os lábios, estreitando-os como se pretendesse mordê-los, e fechou-se em copas. Nós ainda não o conhecíamos muito bem. Não sabíamos ainda ler suas mais públicas reações.

Com os professores Leão Jr. e Witkoski, conseguimos, sem ressalvas e sem exigências, a confirmação de suas presenças, tão logo lhes dispusemos as indicações necessárias para que tudo ocorresse dentro da normalidade.

Na manhã do dia seguinte, ao chegar ao bosque da Letras – espaço telúrico, protegido por frondosas árvores de generosas sombras, exalando poesias que embalam a alma, estimulando prosas que alimentam o espírito, logo depois oficialmente batizado como Bosque Moreira Campos –, alguém me avisou que o professor Paulo queria falar comigo, o “dono do sítio”. Encaminhei-me, de pronto, até a sala dele, uma espécie de gabinete. Após a tradicional saudação – bom dia! –, convidou-me a entrar e, apontando-me a cadeira à frente da mesa de trabalho, instou-me circunspecto: “Sente-se!”. Suspendeu o que fazia – certamente a revisão de algum texto de sua lavra – e foi direto ao assunto:

– Eu gostaria, ou melhor, eu quero ir à festa, à reunião, ao encontro de vocês. E vou, se você me garantir dois favores: o transporte, ida e volta, e a cerveja sem teor alcoólico.

Tratei logo de fechar questão, de não lhe dar margens a eventual arrependimento:

– Professor, você vai comigo. Pra mim, é mais que prazer, é uma honra. Basta me dizer a hora e o local em que devo apanhá-lo. Quanto à cerveja, qual a marca de sua preferência?

E ele, então, não se dependurou em floreios nem se debruçou sobre palavras vazias, inúteis:

– Você me compra um pacote de Heineken e me apanha aqui mesmo, no bosque, às dez horas.

E tudo se deu conforme combinamos.

Eu sempre via na circunspecção de Mosânio, na sua sisudez, timidez ou sensibilidade, algo que ia além da prudência, da parcimônia e da sensatez. Estresse, extenuação, exaustão física, mental, emocional. A mim me parecia estar ele sempre pronto a explodir, em face talvez dos múltiplos “fronts” a enfrentar, isso potencializado pelo perceptível preciosismo a exigir-lhe pleno e integral envolvimento. Já na sala de aula, seu habitat natural, conduzia o processo com maestria, com erudição, com eloquência, com prazer. No olhar resplandecia o brilho do enlevo, do êxtase, do contentamento, o que contagiava a todos nós, os seus discípulos. E ele ensinava; e nós aprendíamos.

No trajeto até o sítio, a conversa com ele revelou tratar-se de um ser humano cônscio dos vários papéis que a ele competia desempenhar, como protagonista no mais das vezes, no relacionamento com as pessoas que compunham o seu mundo bem particular. Interagimos, em pouco tempo, muito agradavelmente – não mais aluno e professor, mas dois respeitáveis cidadãos de meia-idade, com trajetórias de vida bem definidas e com muita disposição para a luta. Mantivemos, então, um “papo” descontraído, inteligente, perspicaz, espirituoso. Aliviei-me de algumas renitentes tensões; e ele, certamente, também.

Ao longo do dia, comportou-se como um cidadão comum, trafegando tranquilamente entre os doutores – seus pares, discípulos e familiares dos anfitriões.

Mosânio elogiou a comida preparada por dona Lourdes, a feiticeira da nossa cozinha em fins de semana, que, sob a coordenação da minha eterna parceira, ofereceu algumas delícias da culinária matuta – galinha caipira à cabidela; cozidão de mão de vaca; pernil suíno ao forno; além de um prato que a todos encantou: assado ao forno de pargos médios cujas espinhas tinham sido pacientemente removidas à pinça. Tudo servido ao ar livre, em área previamente preparada entre uma das laterais da casa e a piscininha para as crianças, ao lado um convidativo chuveiro de calota de caminhão (lavava até a alma), água friíssima e abundante.

Nesse momento, com o sol preguiçosamente passeando pelo centro do céu desnudo e lubricamente azul, tendo Paulo sorvido apenas o conteúdo de uma “long-neck” de Heineken, ele percebeu que não seguia os mesmos passos dos demais. Perguntou-me, com voz sussurrante:

– Eu posso mudar pra Antártica?

– Sim, professor! Por favor, sinta-se em casa!

– É que vocês sorvem a cerveja com um prazer tal, como se se embriagassem com o néctar dos deuses…

– E é isso mesmo, mestre. Siga os bons, eis que um deles você é.

Pronto. A holandesa acabava de perder um adepto.

Recordo-me de uma questão por mim exposta, num determinado momento em que a circunstancial composição da roda de conversas se restringiu a ele e seus alunos:

– Professor Paulo, alguém comentou em sala de aula que o senhor abandonou o curso de medicina para doutorar-se em língua portuguesa. Isso é fato ou é boato?

Ele sorriu um sorriso comedido, mas franco, lhano, gentil, cordial. E respondeu com algumas indagações dirigidas a todos nós, seguidas de um arremate convincente:

– Vocês acham mesmo que eu tenho jeito para invadir o corpo das pessoas? Dos meus semelhantes? Para decifrar os males que lhes causam dor física? Na esperança talvez de poder curá-los? Em verdade, em verdade, eu lhes digo: não! Não se trata de competência, mas de afinidade. Muito mais me realizo invadindo almas, desvendando mistérios, processos criativos e seus produtos em termos de fala, de linguagem, de língua. Eu lhes garanto: isso é bem mais apetecível.

E eu pensei com os meus… com a minha cerveja: “E nisso ele é doutor… e romântico! E romântico, eu também sou”. Sim, havia entre nós alguma identificação.

Post scriptum:

De um eterno aprendiz ao seu sempiterno Mestre: Professor Paulo Mosânio, descanse em paz!

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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