Domingos, por Francisco Luciano Moreira

Houve uma fase na minha vida em que o relacionamento com um rio – ou melhor, com dois – adquiriu, progressivamente, a intensidade da benquerença, da amizade, da paixão. Eu cheguei, sim, a me apaixonar por eles! E acho até que eles também por mim!

Ainda criança, costumava acompanhar minha mãe até as margens do Aracoiaba, ali nas proximidades da então ponte do Pompeu, na via de acesso ao bairro Lajes e à localidade do Candeias, seguimento de rua nascida na avenida 7 de Setembro, entre o prédio dos Correios e Telégrafos e o da Tipografia São Francisco de Sales, onde se produzia o jornal A Verdade, de circulação semanal.

Enquanto dona Enedina se juntava a outras mulheres na laboriosa tarefa de lavar roupas, eu e muitos colegas de peraltice esbaldávamos nas águas tranquilas, claras e de pouca profundidade do rio cujo nome, em tupi-guarani, significa “lugar onde as aves gorjeiam”. Era comum ficar, como diziam os da época, “de beiço roxo”, dado o excessivo tempo do saudável banho. A pele também ganhava outras tonalidades mais escuras e os cabelos se engalfinhavam, tornando tarefa difícil penteá-los.

Já molecote, retomei a amizade com o velho Aracoiaba, agora nas terras do Posto Agropecuário de Baturité – onde morávamos, por ser meu pai um de seus agentes públicos –, campo de experimentos do Ministério da Agricultura, subordinado administrativamente à Delegacia de Fomento Agrícola, com sede em Fortaleza. O rio percorria um trajeto margeado por frondosas mangueiras, de vários tipos e sabores, que o protegiam dos raios solares, encobrindo-o com sua sombra de tranquilidade e quietação. E isso não deixava de ser um convite a banhos saborosíssimos.

Depositar, no verão, mangas maduras na areia das margens do rio e, após algumas horas, saboreá-las deitado no leito com as águas escorrendo ao longo do corpo era uma experiência das mais agradáveis, que ainda resiste ao tempo porquanto gravadas na área mais profunda da memória. Escavar, nas longas estiagens, cacimbas no leito seco para retirar, para o consumo doméstico, o pouco de água que se acumulara no seu ventre consistia numa incontornável necessidade de sobrevivência. Acompanhar de longe, nos rigorosos invernos, as suas ruidosas e perigosas enchentes, com o curso de águas velozes desbordando das margens e invadindo plantações e até moradias, era, na essência, uma questão de respeito: não conheci quem se arriscasse a enfrentá-las.

A pré-adolescência me presenteou com o rio Putiú (do tupi “pytiu”, que significa “cheiro de peixe”). Certamente o menor curso de água doce a escoar pelo solo pátrio. É afluente do Aracoiaba e separa, do centro da cidade, o bairro que lhe toma o nome de empréstimo. E onde eu escrevi as mais inenarráveis – porque incríveis – aventuras de minha existência matuta. Bons tempos!

Em suas bancadas de areia, em especial a que se formava na curva do pé do morro do Cruzeiro, deixando apenas uma espremida faixa de terra onde se assentavam os trilhos da estrada de ferro, participei de incontáveis e disputadíssimas partidas de futebol, com bola Pelé e traves de gravetos, sempre seguidas de banhos por demais reconfortantes. Exibia nas pernas as marcas dessas vivências: cicatrizes de ferimentos que – quase todos! – foram tratados à base de Benzetacil e curativos de uma sempre prestimosa enfermeira, tudo custeado pelo meu velho pai que nunca dispensava os severos castigos e conselhos. Em vão…

Mas nada – nada mesmo! – se comparava às perigosas acrobacias que nós – moleques em formação na escola da vida – executávamos, quando das enchentes de águas furiosas e barrentas, tendo, como picadeiro de nosso circo particular, a ponte sobre o rio Putiú. Os saltos mortais, a partir da mureta de proteção e contra a veloz correnteza, seguidos de mergulho capaz de cruzar toda a extensão lateral da ponte, sob o grave risco de bater com a cabeça na sua estrutura inferior, de consequências irreparáveis, traduziam o show espetacular que oferecíamos, gratuitamente, a um público que sempre reconhecia nossa bravura (não seria loucura?!) com calorosas e efusivas palmas.

Há um fato que me serviu como divisor de águas (já que estamos falando de rio). Esse me fez reavaliar minha relação com o velho amigo e escolher melhores momentos para invadir suas entranhas.

O inverno estava sendo rigoroso, com previsão de boa colheita, de fartura.

As enchentes se repetiam com curtos intervalos de poucos dias. Tínhamos a nossa diversão assegurada. De jogos de bola sob chuva amena a saltos mortais nas barrentas e furiosas águas do Putiú.

Uma delas, de grande expressão, arrastou, além de bananeiras e arbustos – como era comum acontecer –, uma árvore de grande porte que acabou entalada num dos vãos da ponte. Tão logo o nível das águas baixou, homens se encarregaram de cortar, a golpes de machado e foice, galhos e parte superior do tronco, de sorte a desobstruir o vão e permitir o normal fluxo do rio. Presos à base em que se apoiava – pelo lado do bairro – o bordo da laje ou tabuleiro, lá permaneceram a parte inferior do tronco e as raízes, dada a dificuldade de sua remoção.

Era um domingo que já amanhecera preguiçoso, porquanto chovera a noite toda. Após a missa na capelinha, driblei a vigilância do mestre Expedito e me juntei à turma para mais um espetáculo a céu aberto e em águas turvas.

Já no primeiro salto, sofri um leve escorregão na mureta de proteção e as coisas não saíram como deviam. E, no mergulho, fui alcançado por uma correnteza muito forte e de través que me empurrou na direção da base de apoio marginal da ponte. Atordoado, não consegui qualquer tipo de manobra que me evitasse ser tragado pelo redemoinho cujo funil rapidamente me jogou para o fundo do rio e – o pior – de encontro ao tronco da extinta árvore. Senti-me uma folha seca a rodopiar loucamente ao sabor do vento em espiral. Para mim, um fim trágico. Num átimo, o senso de sobrevivência me fez ver a gravidade da situação e eu conseguiu montar – como uma lagartixa se fixa na parede – numa das laterais do cepo ali abandonado, que ora me ameaçava como uma armadilha pronta para entregar-me à morte. Agarrei-me decididamente a este estreito pórtico de salvação. Só que o organismo começava a reclamar pela falta de respiração. Ar… Eu precisava de ar… Em mim, o quadro já se desenhava como afogamento ou asfixia mecânica pela substituição do ar atmosférico por água. Não consigo recuperar o que se sucedeu então. Apenas, premido pela aproximação do fim, desgarrei-me do cepo de madeira num impulso simplesmente espetacular, em ação conjunta de mãos, braços, pés, pernas, tronco, coração, alma… E deixei-me ser carregado pela veloz correnteza até que, convicto de que me salvara, projetei-me para o espelho das turvas águas. Respirei profundamente… uma… duas… várias vezes, enquanto boiava como se morto estivesse. Quando me senti em condições de nadar, virei-me para a direita e fortes braçadas me puseram – um Chico de nascença – na mais natural confrontação com o velho amigo Putiú, que tanto de mim lavou e levou.

De longe, o som de gritos e palmas, vindo da plateia agora eufórica, soou como um estímulo a mais para continuar vivendo. Se possível, sem aventuras do tipo.

Uma certeza trago comigo até hoje. Algo de sobrenatural aconteceu que não me deixou ser eternizado nas entranhas do rio amigo. Penso em minha mãe (e eu já era órfão!). E, até hoje, mais de meio século depois, quando cruzo a ponte sobre o rio Putiú, recordo-me desse fato que tão profunda e indelevelmente me marcou.

E era um domingo.

Como tantos outros domingos que já se foram…

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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1 comentário

  1. Francisco Luciano Gonçalves Moreira

    Francisco Luciano Gonçalves Moreira

    “Putiú: do tupi ‘pytiu’, que significa ‘cheiro de peixe’”. Embora haja uma secular versão popular quanto a Putiú significar “rio dos camarões”, certamente derivando de “pitu” (camarão preto), a acepção usada no texto apoia-se em “Palavras, lógica e sentido”, coluna mantida no Diario do Nordeste (Caderno 3) por frei Hermínio Teixeira, conforme edição de 24.4.2006. Assinalo que devo discordar do colunista quanto à classificação por ele atribuída ao Putiú, como sendo “Riacho que banha Baturité”. Apesar de atualmente anêmico – como, de resto, ocorre com quase todos os cursos d’água do Nordeste -, sustento ser ele um rio. Daí, por exemplo, o paço municipal de minha terra natal denominar-se PALÁCIO ENTRE-RIOS (o coração de Baturité pulsa sobre um platô, tendo o Putiú de um lado e o Aracoiaba do outro). Entendo, ainda, que a referência podia ter incluído o bairro, dada a sua importância para a cidade, a quem serve de pórtico de entrada.

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