Diretor de teatro em aula de história

Aula de história. E aí, 33 anos depois, prenderam o candidato dos militares na eleição indireta que marcaria o fim da ditadura. Como os militares não conseguiram que ele fosse eleito, o último general da ditadura disse que não iria à posse do vencedor, Tancredo Neves. Mas, afinal, quem impediu a posse foi aquela senhora que manda mais do que os generais, dona morte.

Dar esta aula de história, tão primária, talvez seja considerado um acinte a cultura dos nossos cidadãos, que poderiam me acusar de querer ensinar que dois mais dois são quatro. Mas tenho razões para supor que não é assim tão evidente o conhecimento da história recente do Brasil, como talvez seja o de outros capítulos que não ameaçam a dita escola sem partido (quem descobriu o Brasil, o que D. Pedro I gritou às margens do Ipiranga…). E chego a essa conclusão não por conversas de botequim, ou pela observação de fontes pouco ilustradas, mas pela leitura de um filósofo brasileiro, que escreve semanalmente em um dos mais importantes jornais do país.

Numa crônica sobre o que aconteceria se o Brasil elegesse Lula em 2018, diz esse brasileiro culto: “A vitória de Lula em 2018 será a prova definitiva de que os eleitores não estão nem aí para suspeita de corrupção pairando sobre qualquer que seja o candidato. Dane-se a corrupção. Ninguém está nem aí para isso. A começar pelos intelectuais, professores, artistas e integrantes de grande parte do Poder Judiciário”.

Bastando conhecer o que se relembra nesta aula, o texto correto não seria o do filósofo Pondé (foi ele), mas este outro: “A escolha, pelos militares, de Paulo Maluf (foi ele) como candidato deles, militares, na eleição indireta que marcou o fim da ditadura militar, foi a prova definitiva de que os oligarcas, os plutocratas, a grande imprensa, a direita e seus sucessivos rebentos (coxinhas, por exemplo), nunca estiveram nem aí para qualquer suspeita de corrupção pairando sobre qualquer que seja o bandido que eles enfiem na goela da Brasil. Tanto pode ser o caçador de marajás, como o mineirinho de Furnas, os tucanos do Cartel do Rodoanel ou o vampiro dos encontros à meia-noite com notórios bandidos, expressão dele próprio, íntimos os dois (você emagreceu, reeducação alimentar, comendo coisa mais saudável, menos doce, menos industrializado). Dane-se a corrupção, ninguém está nem aí pra isso, a começar pelos que foram pra rua com faixas contra a corrupção, ao lado da mulher do prefeito de Montes Claros, do Geddel, que berrava na passeata e nessa altura já tinha, digamos, uns 45 milhões naquelas malas na casa da mãe dele, ao lado do mineirinho, que já estava pensando em quem seria o portador que ele podia matar antes de entregar o esquema, etc. Foram para a rua, é bom dizer, incentivados por uma imprensa, que, como eles, nunca esteve nem aí pra corrupção, que fechava os olhos para a corrupção de aliados e parceiros, enquanto incentivava essa multidão de nem-aís”.

Daqui a 33 anos, o atual presidente terá, se estiver vivo, 110 anos, idade com que talvez seja preso, se a justiça continuar tardando o tempo que sempre tardou para punir os plutocratas. Porque essa é a questão. O que interessa é proteger, defender, promover, lamber a plutocracia. O combate à corrupção não interessa aos virtuosos ridículos. Como também estamos vendo hoje, é muito fácil perceber como o velocímetro da justiça está regulado de acordo com os interesses da plutocracia. Basta o exemplo do chamado mensalão: até hoje a justiça não deu muita bola para seus inventores, os plutocratas do neoliberalismo.

O combate à corrupção é puro marketing, uma jogada de mercado, coisa de quem entende como ninguém de publicidade. Os plutocratas promovem um juiz como marca do combate a corrupção, assim como Papai Noel foi originalmente marca da Coca-Cola. Fazem isso para não ter que gastar muitas palavras para explicar o inexplicável, isto é, que são contra a corrupção em um país governado por ladrões. Uma marca mente melhor do que mil palavras, já queria dizer Confúcio. De quebra, o juiz-marca também expressa subliminarmente a cegueira do deus Pluto.

Ah, aula de mitologia. Pluto, o deus da riqueza, não o cachorro do Walt Disney, era cego. E é assim que ele aparece na comedia de Aristófanes (447 a.C – 385 a.C.), sendo levado ao templo de Apolo para recuperar a visão e quem sabe distribuir melhor o dinheiro.

A oposição entre direita e esquerda pode ser balizada pela luta contra e a favor da plutocracia. Ser contra a plutocracia, não é necessariamente ir morar em Cuba, ou na Venezuela, como pensam os plutocratinhas (coxinhas). Já é importante não se curvar à cegueira social dos donos das riquezas. Para não deixar sair um centavo dos seus bolsos, eles acabam com as leis que protegem os trabalhadores, destroem a previdência, privatizam bens públicos. Eles querem tudo ou tudo, como diz a máxima vil de Adam Smith, aqui em versão de boca cheia.

Por isso, é absolutamente lógico que o mesmo filósofo de direita, que desconhece o episódio mais significativo do capítulo Maluf na história recente do Brasil, faça a seguinte previsão econômica sobre um possível novo governo Lula: “Quando o dinheiro acabar, como acabou no Dilma 2, os “progressistas” sairão do poder, darão um tempo para os “conservadores” fazerem o trabalho sujo de reorganizar a economia e, quando a casa estiver um pouco mais organizada, voltarão ao poder para gastar tudo de novo”.

Ora, basta conhecer a história ainda mais recente do Brasil, para fazer a previsão correta. Quando o dinheiro acabar, porque os plutocratas venderam todas as riquezas naturais e todas as empresas públicas aos americanos, japoneses, chineses, europeus e porque não dará para botar o povo trabalhando 24 horas por dia, até morrer, os progressistas darão outra oportunidade aos conservadores (os da classe média, sobretudo, que votam nos plutocratas, seus algozes) de aprender como criar universidades públicas, enfrentar crises externas, transformar o FMI de credor em devedor, multiplicar as reservas, passar da 13a para a 6a posição no ranking das maiores economias do planeta e ao mesmo tempo melhorar as condições de vida da sociedade e reduzir as desigualdades.

Como é fácil de concluir, os plutocratas querem que a sociedade se dane, enquanto a classe dominante vai para o paraíso… fiscal.

ADERBAL FREIRE-FILHO

Diretor e autor teatral, ator e apresentador (texto cujo título é ‘Brasil, uma plutocracia’, publicado em Brasil 247)

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