Dimas Macedo, o poeta menino dos cristais de sonhos

O menino do Cariri, que visitou o território do imaginário e viu seu pai tirar cristais de sonhos de lugares improváveis, sabia desde sempre sua determinação. Abraçou-se com o destino que quis zombar dos seus primeiros anos de vida na escola, tornou-se jurista e escritor. Quando quer, é editor, e, sempre, um professor. Mas foi com a literatura e a poesia que o poeta se casou.

Para quem conhece uma das maiores personalidades  do Ceará – Dimas Macedo – sabe que ele é, antes de tudo, a sequência duma progressiva e legítima evolução de artistas poetas. “Eu jamais poderia ultrapassar Antônio Lobo de Macedo”, diz o escritor sobre o seu avô, “pois não tenho nem metade de sua ousadia”.  Ele se refere a um poeta popular, Lobo Manso, um trovador que escreveu, entre outras coisas,  clássicos da literatura de Cordel do Nordeste: A seca do Quinze (1917), A Revolta de Sousa (1930), Injeção de Cuspe (1936), O Garrote Misterioso (1944) e Os Profetas e as Profecias da Chuva (1960).

“Eu nasci num sítio a nove quilômetros da cidade de Lavras da Mangabeira, chamado sítio Calabaço,  alusão aos índios calabaças, habitantes da margem esquerda do rio Salgado, região do Cariri, “Sou caririense de quatrocentos anos”.

Seus ancestrais, os tangedores de gado, chegaram na região do Cariri no final do século 17 para início do século 18. “Eu sou descendente dessa civilização e a terra onde eu nasci, sítio Calabaço, foi o último núcleo de resistência desses índios, que lutarem contra a invasão dos colonizadores e do exército colonial que dizimou os índios da tribo pertencente à nação Kariri”.

Para escapar da devastação da seca que ocorreu no final da década de 1950, seu pai,  poeta popular, mudou- se com a família para a cidade de Lavras da Mangabeira.

No inverno seguinte, Zito Lobo comprou um sítio de nome Cajueiro, próximo da cidade, e foi lá onde conseguiu tirar cristais de sonho para alimentar a família.

“Cristais de sonhos é você sonhar com a tragédia da devastação da pobreza absoluta e pegar uma enxada e uma roçadeira e garimpar o chão para tirar legumes, tirar feijão, milho, criar galinha, pintinhos, duas ou três vaquinhas de leite e fazer caldinho com angu para dar aos filhos”.

Do sítio Cajueiro, as lembranças são infinitas. A saudade da mãe que morreu ainda jovem, as histórias do pai e das muitas coisas que ainda devem ser escritas.

“Eu ia para a escola montado num jumento. Eu vendia leite de porta em porta em Lavras da Mangabeira para ajudar na economia familiar”.

– O meu pai dizia que o leite que a gente vendia era muito disputado – era aquele leite que, como diz o ditado, se segurava no canto da unha, porque não tinha uma gota d’água. Apesar de pouco, era de boa qualidade. Meu pai era  ético, não admitia transgressões.

Depois de algum tempo teve um grave problema de saúde que deixou para sempre lesões em suas mãos. Ainda muito jovem sofreu o fenômeno da rejeição e passou dois anos sem frequentar a escola.

O futuro poeta sonhava com a claridade das luzes da escritura e não podia fazer nada por conta das mãos afetadas pela doença. É fácil compreender porque ele se considera um herói:

“Esses sacrifícios deram ao meu espírito algo nervoso e o desejo de ser feliz, o impulso de criação… E eu me orgulho de carregar essas marcas da infância, de querer estudar e não poder, de sonhar e não saber o que fazer com o sonho…. Uma cabeça que ficava distraída da realidade – mas ali eu já sabia que eu tinha uma missão. Algo me dizia que eu não seria um puxador de enxada”.

Dimas foi adiante, na estrada e na história:

“Eu não sei para onde vou e nem me interessa. O que eu quero é caminhar, para a dor interna diminuir e eu sustentar a tensão de ser artista, de ser um pensador”.


Em que outra época gostaria de ter vivido?  “A década que vivi com muita claridade foi a década de 1990,. Foi o meu grande salto na literatura, quando me tornei crítico literário e fiquei nacionalmente conhecido. Essa foi uma época de que gostei imensamente, um período rico. Publiquei dois livros centrais da minha poesia: Estrela de Pedra (1994) e Liturgia do Caos e (1996). Constituiu um período de consolidação como crítico literário bastante ativo no Ceará. Hoje a história do Ceará desse período precisa consultar o acervo que eu deixei. Nesse momento eu estou numa fase de travessia, eu não sei para onde vou e nem me interessa. O que eu quero é caminhar, para a dor interna diminuir e eu sustentar a tensão de ser artista, de ser um Pensador. Às vezes é desequilibrante – mas eu não me entrego de forma alguma…”

A palavra que eu mais gosto é AMOR. Pode parecer uma coisa banal, mas eu estou falando do amor autêntico, dessa força que move montanhas, que é superior aos organismos.  Essa força imaterial do planeta que você adota no coração e destrói todos os exércitos. E ódio é a palavra que eu não gosto e não sei como se conjuga no coração de um ser humano. Eu não consigo entendê-lo em qualquer plano – o máximo que posso sentir pelas pessoas que amo é raiva, às vezes isso acontece somente para corrigir a aceleração do sangue.



Um filme para ver de novo:  os filmes de Akira Kurosawa.



Politicamente, eu sou um ex-militante, decepcionado com o fracasso da esquerda e com a alienação dos seus ideais, trocados pelos valores do capitalismo e da corrupção. Um militante político desiludido, mas que acredita no triunfo da Democracia e nas garantias da Constituição. O que me entristece é ver minha geração de políticos do Ceará, beirando os 60 anos, totalmente derrotada, nada sobrou, perderam a perspectiva do Ceará, a perspectiva do sonho. Aliás, sobrou apenas a dignidade de Maria Luíza Fontenele, mulher valente e ética que nunca pegou no dinheiro público. Mas, ainda assim, sou um cidadão que continua confiando na Política e no seu poder de regeneração e de superação das desigualdades sociais. Sem a Política, não podemos pensar na paz, nem na tolerância.


Eu ressuscitaria Albert Camus. E, agora, Belchior.



O livro que já li várias vezes foi O Estrangeiro, de Albert Camus. Eu sou o personagem existencialista do romance. Sou a reprodução dele e a reprodução do meu avô, dois personagens que povoam a minha vida.

Eu me acalmo com o silêncio, o sexo e o recolhimento.

Eu me irrito com a estupidez, com a imbecilidade, as vezes me calo porque não tenho paciência para viver fora da lucidez.

A emoção que me domina: a emoção que a leitura proporciona, o amor vivo por uma mulher, e correspondido. E a emoção de viajar – eu mudo de persona.



Um dia ainda vou fugir e ficar inacessível.


Existem heróis?  A história está cheia de heróis, principalmente os que tiveram fé e esperança em seus projetos assistenciais. Meu pai foi um desses. Ele lutou a vida toda contra a vida e contra a morte, sustentou a família com o exemplo imortal de dignidade e uma fé descomunal que me deixou de herança.

Religião:  eu tenho uma fé que me sustenta. Mesmo vivendo para além da religião, sou fascinado pela Teologia e tenho muitos exemplos que gosto de repetir e de escrever sobre, como as parábolas.

Dinheiro é para gastar, numa relação de equilíbrio.



A vida é um rio, indiscutivelmente. Viver é saber remar contra a maré. O perigo não está fora das prisões que escolhemos para viver ou sucumbir, mas no âmbito daquilo que guardamos e temos medo de partilhar até com quem escuta o nosso coração.



Se eu tivesse o poder mudaria a imbecilidade das pessoas.

Eu gostaria de ser Dimas Macedo. Quero ser eu, eternamente – por dinheiro não me trocaria. E nem por nenhum gênio da arte. Eu quero mais é que eles sejam quem são para que eu possa admirá-los, para que eu possa ser mais fã.

Não perco uma oportunidade de ajudar o próximo. Tenho a virtude da bondade na minha alma, mas o que faço pelos outros eu faço em silêncio.

A solidão e o silêncio: um cavaleiro solitário que tem muito amor. O produtor de arte tem por temperamento a solidão. Ele escreve para esquecer a infância, para esquecer os seus mortos, as dores da alma e para continuar vivo. A Literatura, a vida e a existência para mim são a mesma coisa. E eu não faria questão de viver se não existisse a Literatura, e esta é a ausência que você busca todo dia, é a busca infinita da alma.



O Brasil é uma nação dentro da minha alma, o meu país, a que jamais renunciarei, pois, o amo profundamente.  Sua bonita história de luta ainda não foi escrita. O que até aqui se contou foi ditado pela elite, muito bem escrito pelos acadêmicos… A elite pisou no povo… Quem vinha do povo, como o presidente Lula, se vendeu ao capitalismo internacional. Não fez as reformas que o Brasil precisava. E Lula tinha legitimidade para fazer…

O ser humano está na pior travessia de todas as civilizações vividas. Porque houve com essa civilização uma grande brincadeira da ciência e da tecnologia com os segredos que entretêm e que iludem a vida humana – destruíram a imagem de Deus, seja ele quem for, destruíram os segredos de todos os padrões estabelecidos. Acredito no ser humano, só que vivemos momento de apogeu e de miséria, e esse é um momento de miséria.


Eu sou um ser humano feito de palavras e atravessado por uma crise existencial que não para de pulsar. Sou um escritor, apenas isto. Incompreendido, desamparado e amante da solidão e do silêncio. Uma pessoa simples, cheia de esperanças e detentora de uma fé inabalável. Minha mensagem é que o amor é o princípio de tudo, e que o perdão nos torna mais humanos e nos ajuda a viver em paz com os nossos semelhantes.

Eu sou ainda, em larga medida, o que uma jornalista escreveu na minha página, sou “o mar que transborda”, eu sou carnal e resoluto. Sexo, como eu já falei, é uma das coisas que me mantêm vivo. O sexo ou a morte, quando estão abraçados, um dos dois tem que morrer… isso é que está faltando no mundo, o elemento do sangue, essa tua emoção de agora, a palavra presa na garganta…


O filho de Zito Lobo tem mais de 50 livros publicados, mais de 200 prefácios pelo Brasil, editor, crítico literário, designer e quem ou o que mais ele quiser ser. É o responsável pela introdução de Patativa do Assaré na literatura cearense. “Não se escreve a História da Literatura recente do Ceará sem ver o que Dimas Macedo escreveu sobre toda uma geração”, assim constata o professor Sânzio de Azevedo.

O escritor documentou sobre o grupo Clã, sobre o pessoal de Moreira Campos, Juvenal Galeno, sobre Patativa do Assaré. “Eu me indagava: o que vão fazer com Patativa do Assaré? Vão jogar no lixo? ”.

Por duas vezes o encontrou – primeiro foi na chuva de poesia de 1982/83. “A gente jogava poemas do alto do Grande Hotel Savanah e do Hotel São Pedro, na Praça do Ferreira. A segunda vez foi nas Diretas Já e Anistia. Eu estava no miolo desses Movimentos, como militante político e, fundamentalmente, da Constituinte. Eu escrevi uma tese sobre a evolução constitucional no Brasil, a partir da visão marxista. Esse livro me orgulha e, me orgulho, de suor e sangue, por nunca escrever para agradar. Sempre fui da contramão, sou da contramão e assim terminarei meus dias, na contramão.

Foram três meses de flertes e cafés-encontros, até que o neto de Lobo Manso (1888-1960), o singular poeta Dimas Macedo escolhesse um caminho ligeiramente diferente para a condução da entrevista.

Seguindo em direção ao Porto das Dunas e Prainha, fez o trajeto determinado em sua mente,  enquanto dava “aula de história”, entre uma fala e outra, explicava coisas pela estrada:

“Tá vendo aquele cenário? (falou, apontando para um lado do caminho). É a casa de Ana Miranda, um belo refúgio”.  As palavras do poeta, buscaram imediatamente, na minha memória, trechos de seu poema Paisagem.

…. Porque me encantas assim tão facilmente/ com teus minérios de vento sobre a areia? / Essas casinhas brancas sobre as ondas/ esses lajedos de pedras purpurinas…/Aqui o sol comanda a minha vida/Aqui as velas do amor me dizem tudo…/ Talvez o amor me abrace nessas dunas. / Talvez a paz, aqui, me reconheça…

–  Eu não sei bem o que falei, mas sei que vivi uma bela experiência, brincou o “menino” ao final da entrevista.

 

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino, jornalista, aprendiz de blogueira, fotógrafa e colunista do Segunda Opinião.

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1 comentário

  1. Marcos Abreu

    Conheço o Dimas Macedo, e sei que ele é muito mais que isso, porém sou um poeta e escritor sempre perseguido pelas as elites, que não deixam eu publicar as minhas obras, pois por não ter dinheiro, escrevo para a posteridade.

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