Dilemas modernos, por Gilvan Mendes

Max Weber destacou em uma das suas obras que o político profissional necessita de convicção. Política , dizia ele , se faz com o cérebro , mas não somente com ele. Todos nós precisamos de determinadas crenças e certezas na vida , e isso diz muito sobre as ideologias dominantes da nossa época. A modernidade  transformou radicalmente as crenças presentes nas sociedades , a religião deixou de ser o centro do conhecimento e do poder em favor da racionalização e do ideário republicano , a teologia deu lugar as ciências e a política deixou de ser a busca do bem comum para uma constante correlação de forças da sociedade. Maquiavel sabiamente alertava para algumas dessas características. Essa nova forma de se portar no mundo trouxe consigo valores até então silenciados , como os de igualdade e liberdade. 

Fruto do Iluminismo , o liberalismo se tornou por meio dos anos o principal defensor público da liberdade , mais especificamente a liberdade individual. O ser humano deve ser livre pra fazer o que ele bem entender , desde que isso não interfira na vida de outro. A igualdade formal é importante , mas não ao ponto de ferir a liberdade individual. O Estado tem que se limitar a medidas de proteção da propriedade  dos indivíduos. Essa visão ajudou a estabelecer a essência das chamadas políticas neoliberais no século XX , sobretudo com Ronald Reagan nos EUA e Margareth Thatcher na Inglaterra. Com menos Estado e mais mercado se tem mais prosperidade , dizem os partidários do liberalismo. É claro que nem tudo é perfeito , os mecanismos de mercado geram desigualdades que machucam grande parcela da população que vive em uma sociedade com mercados desregulamentados. ação estratégia do governo ainda é fundamental para o bem-estar das sociedades contemporâneas.

Por outro lado , o socialismo e a social-democracia ostentam uma visão oposta. A igualdade social é mais importante do que a livre ação de negociantes. Sem um Estado interventor em algumas frentes , não se pode alcançar o mínimo de civilização. O socialismo vai até mais longe defendendo a tomada dos meio de produção pela classe trabalhadora , promovendo com isso uma nova sociedade . A matriz soviética dessa ideia , trouxe parte desse ideário pela via burocrática , criando serviços blicos inclusive , assim como a social-democracia em países como Dinamarca , Inglaterra antes de Thatcher , França , Suécia , Noruega. Com o tempo , porém , os eleitores vão se aborrecendo com os custos do ”welfare state que requer uma quantidade substancial de impostos ,  e preferem votar em partidos com programas liberais , deixando de lado os reformistas. Em casos extremos a igualdade pode levar a um cerceamento das liberdades individuais , como de certa forma ocorreu na URSS. Seria esse o principal problema do socialismo? Para Alexis de Tocqueville , é bem provável que sim. 

O Brasil não deixa de fazer parte desse debate interminável. O nosso choque liberal veio durante mandato de FHC com medidas de austeridade , de inspiração neoliberal. O ”despertar rumo a igualdade” veio à tona com Lula e suas políticas de transferência de renda. Isso tudo já foi muito debatido. A grande questão agora é o que teremos pela frente. Só o tempo responderá qual valor moderno iremos adotar. 

Gilvan Mendes Ferreira

Gilvan Mendes Ferreira

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará.Com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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