Debaixo do nariz do Banco Central – conclusão – por Capablanca

É realmente impressionante o empenho dos analistas de economia e dos jornalistas formadores de opinião para fazer parecer natural algo que é absolutamente estranho, para não dizer coisa muito pior: o fato de que a taxa de câmbio oscilou em dois anos de mais ou menos R$4,20 para até R$3,10, uma queda brutal, e depois subiu a R$,370,uma alta gigantesca, num contexto em que o país mantém as exportações bem acima das importações (portanto entra mais dólares do que sai), em que as relações com o mundo em moeda forte estão estabilizadas e o seu déficit, além de esperado, previsto e por alguns até desejado, é quase cem por cento financiado com investimento externo direto e, ‘last but not least’, o país não é tomador de empréstimos, não é devedor líquido, tem reservas em invejáveis trezentos e sessenta bilhões de dólares, colchão de proteção para presidente de banco central nenhum botar defeito.

Dirão esses profissionais “do mercado” que a política é de câmbio flutuante. E que assim o esperado é que o câmbio flutue. Sim, pode-se dizer isso. Mas, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Flutuar é natural. Comportar-se como uma montanha russa, não. Isso não é natural, não é esperado, não é desejado. Não serve ao país, não serve aos empresários. Só serve a especuladores em busca de altos ganhos de curtíssimo prazo, sem qualquer benefício econômico para ninguém, além do especulador. O câmbio no Brasil com zero de problema cambial não pode oscilar igual ou pior do que na Argentina quebrada. Há algo errado, é razoável dizer.

Se essas oscilações fossem pagas e suportadas pelo próprio mercado, ou seja, um especulador levando a melhor sobre um outro especulador, de seu tamanho, de sua altura, tudo bem. Não é o caso, no caso brasileiro. Aqui a ponta compradora ou vendedora final costuma ser o Tesouro Nacional, que paga todo o custo que o Banco Central venha a sofrer no jogo. Sim, o Tesouro Nacional é quem paga essa conta ao Banco Central, que a paga aos especuladores bem sucedidos, quando é o caso. Eventualmente, o Banco Central pode até ganhar.

Mas, nem você, nem eu, nem todos os outros brasileiros saberemos quem, quanto, quando e como ganhou ou perdeu. Essa conta (positiva ou negativa) soma-se ao custo da rolagem da dívida interna e ela é pouco comentada, pouco analisada e pouco divulgada pela imprensa. É verdade que a imprensa se interessa muito por gatos públicos e por déficits, mas este gasto do Banco Central ca sempre com jeito de segredo, como se segredo e sagrado fosse.

Nesta semana passada, até os operadores de mercado reclamaram que o Banco Central ‘saiu da linha’ e fez algo que “o mercado não esperava e não gostou”. E tome puxão de orelha na autoridade monetária. O mercado esperava (às vezes, na linguagem do mercado, esperar significa apostar) uma queda de juro e esta não veio. Tome bronca dos parceiros.

O sistema bancário nacional e internacional faz grande parte dos seus lucros no que eles chamam de ‘operações de tesouraria’, comprando e vendendo taxas de juros e taxas de câmbio futuras. No Brasil, cujo mercado é pequeno, o Banco Central termina sendo sempre o maior comprador e o maior vendedor. E, assim, o maior ganhador e o maior perdedor.

Como estará essa conta?

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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