Dar e receber presentes, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Quando damos coisas e as retribuímos, também nos damos e nos retribuímos com elas, porque devemos uns aos outros uma parcela daquele bem que conseguimos ser. De fato, as sociedades só conseguiram progredir na medida em que souberam estabilizar suas relações de reciprocidade.
Eis, assim, um ensinamento importante: o ato de dar e de receber implica não somente uma troca material, mas uma troca espiritual. Dar implica sempre dar-de-si-mesmo; e ao aceitar o dom, o recebedor aceita algo do doador, aproximando um do outro. Por mais que elas variem, as dádivas sempre reiteram que  é preciso colocar-se um pouco no lugar do outro para entender, em menor ou maior grau, como esse, recebendo o dom, recebe também o doador.
Como lembra Carlos Rodrigues Brandão, toda sociedade se preserva e se transforma na medida em que conserva e inova sistemas de reciprocidade através dos quais fluem e são trocados entre os sujeitos, os seus bens, as suas mensagens e as suas pessoas. Foi a reciprocidade que nos fez passar da condição de bando biológico para a de grupo cultural: eis a pedra fundamental do edifício social da cultura.
Entretanto, não podemos esquecer que existe uma diferença significativa entre as formas de doar, no que tange a sua intencionalidade. É importante perceber que circulam certos tipos de dom contaminados pela vontade do poder sobre o outro, que em vez de criarem uma emancipação recíproca, buscam a dominação ou mesmo a opressão de pessoas e povos. É um doar aparente que na verdade aprisiona em vez de libertar.
Por outro lado, existe um dar que se abre ao outro e busca – respeitando sua dignidade, liberdade e subjetividade – construir mundos novos a partir de uma mentalidade de comunhão recíproca e emancipação dos sujeitos.  Não se trata de dar e receber de qualquer forma, mas de criar um relacionamento social capaz de produzir uma cultura nova e emancipadora, entre sujeitos livres e iguais.
Portanto, a construção de realidades novas não é resultado único de um epifenômeno, de uma simples mudança de estruturas de produção. É um processo complexo de relação entre mudança pessoal interna – resultado de vontade e da consciência humana de promover o surgimento de vida nova – com o mundo objetivo ao redor, que se retroalimentam dialogicamente.
Modificar e aprimorar as estruturas e relações de produção parece ser necessário, mas não suficiente, porque a verdadeira transformação deve se dar em nível antropológico mais profundo.
Como lembra o economista Luigino Bruni, a vida feliz é frágil e vulnerável, mas não existe vida feliz sem reciprocidade humana. A exigência de estruturas de comunhão, que tornem a reciprocidade um pouco menos vulnerável e mais estável, está sempre exposta à novidade de nossa liberdade humana.
Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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