CRÔNICA NADA FRANCISCANA, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Um político de projeção nacional, probo, sensato e solene, conservava, na sua cidade natal, no interior do nosso sofrido estado, o estratégico espaço ao lado esquerdo do altar-mor da igreja matriz, para uso restrito dele e de seus familiares.

Conquistara, para tanto [e, diga-se, a bem da verdade, por meios que faziam corar a própria imagem da santa padroeira], o beneplácito do vetusto e venerando vigário – cujas sôfregas mãos ele, o político, fazia questão de beijar, impondo aos membros do seu saudável e harmonioso clã o mesmo proceder –, bem como de toda a sua corte eclesial. Homem santo!

Ao ver de um conterrâneo nada afeito às engenhosas e viciosas – e até aleivosas – práticas politiqueiras, era ali que, nas manhãs de domingo, o lídimo representante do povo, sob as revivescentes bênçãos do Altíssimo e sob o olhar cerimonioso e cortês do núcleo, da raiz do seu colégio eleitoral, contritamente persignava-se, orava, penitenciava-se e, por fim, rogava perdão pelos muitos pecados consciente ou inconscientemente cometidos no curso da semana que findara, ou, em outros termos, bem mais apropriados, prestava contas dos seus atos, zerava o conta-corrente de sua titularidade, onde havia praticamente só lançamentos a débito, e sentia-se aliviado, para bem curtir a domingueira com a família e amigos, além de preparado, para, na semana entrante, voltar a agir da mesma forma, ou seja, praticar os mesmos atos e alguns outros mais de igual teor (“upgrade” necessário), sempre sob as bênçãos nada franciscanas de tão abnegado pastor. Santo homem!

Algumas moedas, então, tilintavam no cofre da paróquia, sob a forma de dízimo, e algumas outras tomavam rumo ignorado, sob a forma de caixa dois, sem quaisquer questionamentos acerca da origem e sem estipulação de critérios para sua aplicação; afinal, quem as doava era um santo homem e quem as recebia era um homem santo.

Conseguia, assim, satisfazer dois senhores: o do altar e o do jabá! Genial!

Conclusão. Na terra das palmeiras onde cantavam os sabiás e dos arbustos de caatinga onde arrulhavam e procriavam as aves de arribação, todo mundo se diz santo, todo mundo quer ser santo e, algumas vezes, conforme recomendem os estratagemas e os estrategistas ou astuciosos vendedores de imagens públicas, até posa de santo. Há até os que obram verdadeiros milagres… em benefício próprio, é claro! E há uma lógica nisso tudo: se fomos criados à imagem e semelhança de Deus, o criador, e Ele é brasileiro, então, ser santo consiste em mera consequência. Mas há um problema nisso tudo: ninguém se habilita a adotar vida de santo… de São Francisco, nem pensar!

E o Hamlet de Shakespeare diria, em português bem brasileiro: SER É NÃO-SER, EIS A QUESTÃO!

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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