Crônica de uma morte anunciada, por Alexandre Aragão de Albuquerque

As primeiras palavras com as quais Gabriel García Márquez dá início à sua Crônica de uma morte anunciada são: “No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5h30 da manhã para esperar o barco que chegava com o bispo”. Trata-se de uma narrativa concisa e envolvente. Descreve um crime, tantas vezes anunciado, ocorrido na presença de todos os habitantes de um pequeno povoado colombiano, sem que ninguém houvesse tomado providência alguma para evitá-lo e cuja vítima não houvera cometido crime algum.

A narrativa reconstrói uma atmosfera medieval do julgamento público ao qual o povo assiste, organizando-se na praça, como para um espetáculo. E desse modo, o assassinato de Santiago ocorre à vista de todos, com o consentimento das diversas autoridades locais, civis, militares e religiosas. Desde o primeiro capítulo sabe-se quem são os assassinos.

Uma obra de arte perpassa as barreiras da realidade convencional, atingindo a todos nós humanos em nossa condição de busca pelo entendimento do nosso tempo-espaço passado, presente e futuro. A importância da arte está justamente em possibilitar-nos almejar uma vida diferente daquela a que estamos submetidos: vidas mais justas, mais leves, mais belas, mais alegres, mais tolerantes, mais plurais. E para tanto a arte dispõe de ferramentas de expressão as quais recorrem ao fantástico, ao absurdo, ao impensável, com o intuito de retirar nosso espírito de nossa medíocre acomodação submersa no cotidiano, a fim de possibilitar-nos voos além de suas nuvens carregadas de nossas convicções e tabus. Anúncio e denúncia são parte incansável do ofício do artista cuja marca principal é o desvelamento metafórico do invisível.

Em junho deste ano foi divulgado o documento Trajetórias Interrompidas, pela UNICEF, resultado do trabalho do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, que constrói o perfil dos adolescentes que foram assassinados no Ceará em 2015. O estudo analisou os homicídios de adolescentes, entre 12 e 18 anos, ocorridos em sete municípios cearenses: Caucaia, Eusébio, Fortaleza, Horizonte, Juazeiro do Norte, Maracanaú e Sobral. A grande maioria das vítimas de homicídio são meninos (97,95%), negros ou pardos (65,75%), pobres: 67,1% viviam em lares com renda familiar entre um e dois salários mínimos, beneficiários do Bolsa Família. Muitas dessas mortes são anunciadas, constata o documento. Mais da metade dos adolescentes assassinados em Fortaleza haviam sido ameaçados antes de ser mortos.

Uma das histórias presentes no documento é a de Raul. Foi um excelente aluno na escola até os 10 anos de idade, quanto contraiu hanseníase. A mãe procurou imediatamente os hospitais para trata-lo. Curado, ele ficou com algumas sequelas: perdeu parte de um polegar, teve um problema no joelho e permaneceu com algumas manchas no corpo. Após o tratamento, ele não quis mais retornar à escola porque sofria preconceito dos colegas: em uma reunião, mães de alunos pediram à direção que o retirassem de lá. Com 17 anos ele começou a fazer tatuagens, entre estas estavam duas lágrimas, em seu olho direito, que representavam o seu sofrimento e o de sua mãe. No dia de seu assassinato, Raul estava num ônibus para ir deixar a namorada em casa. Policiais pararam o ônibus. Mandaram Raul e sua namorada descerem e ao olharem para a tatuagem em seu olho, acharam que fosse um palhaço. Começaram a espancar o garoto e depois atiraram nele na frente de sua namorada, relata o documento.

Enquanto no Brasil do Golpe, todas as atenções na praça pública dirigidas pela grande mídia nacional estão voltadas para a caçada às conquistas sociais dos últimos treze anos, desmantelando a política de conteúdo local, as políticas afirmativas de distribuição de renda, as políticas de fomento à agricultura familiar, as políticas de assistência ao idoso, como no caso da Farmácia Popular, implantando uma reforma trabalhista que impôs a supremacia do negociado sobre o legislado, o trabalho intermitente, a possibilidade de gestantes trabalharem em lugares insalubres, a carga horária de trabalho aumentada para 12 horas, o intervalo de descanso do almoço diminuído para 30 minutos, o pagamento das férias em três vezes, jovens adolescentes brasileiros são assassinados de forma anunciada, mas invisível para a maioria da população e para os donos do poder.

Enquanto no Brasil da Exceção, onde os procedimentos processuais são ovacionados em detrimento do conteúdo da Lei, escancarando uma porteira de ações questionáveis da parte dos poderes constituídos, com diversos pesos e diversas medidas, um reitor é suicidado denunciando a humilhação a que foi submetido ao ser despido, preso e impedido de retornar á UFSC sem nem mesmo ter sido julgado nem tampouco condenado.

Enquanto no Brasil da Intolerância, exposições de arte são impedidas de expressarem suas inquietações, por meio de ações midiáticas censoras de profissionais da pornografia e de movimentos cooptados pelos agentes do Mercado Financeiro, o patrimônio público brasileiro uma vez mais está sendo entregue a preço de banana ao capital privado internacional.

São mortes anunciadas. São muitos os Santiago brasileiros. Estamos assistindo a tudo isso na praça pública da ágora midiática. Até quando permitiremos isso acontecer?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *