A CRISE POLÍTICA BRASILEIRA: ATORES E ESTRATÉGIAS, por Cleyton Monte e Paula Vieira

Introdução

O termo crise remete às graves dificuldades de negociação entre os diferentes atores que compõem a institucionalidade política, produzindo assim cenários de instabilidade crônica, ou seja, paralisia das instituições. Não é um fenômeno novo na história brasileira, uma vez que enfrentamos crises políticas desde a independência. Conflitos separatistas, golpes, ditaduras, corrupção e instabilidade foram apenas algumas palavras que acompanharam a constituição das crises ao longo dos últimos dois séculos. O minicurso buscou discutir as raízes, lógicas e consequências da crise política brasileira iniciada com as jornadas de junho de 2013. A partir de uma nova literatura da ciência política e dos debates realizados no LEPEM (Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia da UFC) foram discutidos, brevemente, os meandros da crise política brasileira de 2013 a 2017. As questões que nortearam o minicurso: Qual a natureza dessa crise política? O que ela informa sobre o nosso modelo de representação e seus entraves? Quem são os artífices da crise? O objetivo da atividade foi produzir um olhar sobre as singularidades e desafios da crise política brasileira.

 

Seu estudo é complexo e envolve múltiplas causalidades. A opção do minicurso realizado no III JOIN foi oferecer um panorama geral dos aspectos político-institucionais e extra-institucionais que perpassam a atual crise política brasileira, apontando atores e interesses em disputa. De uma forma introdutória, abordamos, inicialmente, os dilemas do presidencialismo de coalizão. Em seguida, refletimos sobre o papel das manifestações, a força da grande imprensa e o ativismo do Judiciário. Nas considerações finais, esboçamos uma síntese do debate ocorrido durante o curso e apontamos para a necessidade de novas pesquisas sobre o tema.

 

Retomando os dilemas do presidencialismo de coalizão

 

Em 2016, consolidado o impeachment, a ideia de que o Brasil está em meio a uma crise política também se consolidou. E isso por diversos ângulos: desinteresse dos cidadãos em eleições e, quando o há, em torno de polarizações extremas; falta de identidade partidá- ria; embaçamento do jogo político legislativo; excessiva interferência do judiciário na vida política; diferença cada vez mais marcante entre opinião pública e opinião publicada – estes são alguns indicativos. O objetivo nas próximas linhas é analisar a crise política brasileira sob o ângulo institucional referente ao presidencialismo de coalização.

 

Para tal, proponho um ensaio baseado em sistematização de ideias que vem circulando em análises de politicólogos e alguns dados relativos ao sistema político legislativo. Parto da premissa de Sérgio Abranches (1988) sobre o presidencialismo de coalizão e, ainda, trago a releitura feita pelo próprio autor ao buscar uma atualização de sua tese em 2016.

 

No primeiro mandato de Dilma Rousseff houve crescimento da insatisfação de brasileiros, muito embora os primeiros anos tenham sido de aprovação do seu governo. A votação do “mensalão” no STF ocorreu em 2012. No período, já se fazia o uso de redes sociais para movimentar posicionamentos, notícias e acompanhar a votação, mesmo que ainda sem tanta intensidade como nos anos que se seguiram. Entre abril de 2012 e março de 2013, a aprovação da presidente estava entre 62% e 65%, segundo pesquisa Datafolha, após  as manifestações de 2013, o número caiu para 36% (pesquisa em novembro deste ano).3

Durante as manifestações de junho de 2013, cresceu o sentimento antipartidário no Brasil. Junto com ele, crescia também a ênfase na corrupção das instituições políticas. Nas eleições de 2014, foi possível acompanhar o desenrolar dos posicionamentos contra os partidos e contra a corrupção, o que culminou no crescimento de uma direita conservadora e atuante no País.

 

O personalismo na política não é matéria recente. É, inclusive, um dos principais fatores que conduzem especialistas a analisar o sistema político brasileiro como ambiente institucional que precisa de alterações. Os desdobramentos das mudanças propostas saíram da perspectiva de fortalecimento partidário para o eleitoral. Isso remete à ideia de uma cultura política de voto e de legitimação das instituições políticas constituídas a partir de valores sociopolíticos e econômicos. Como, afinal, essa ideia se desdobra nas eleições 2014?

 

Helcima Telles (2015) apresenta a corrupção sob a ótica de valências, ou seja, de pontos que são consensuais e, por isso, considerados neutros por estarem disseminados como valor comum. Como uma questão de valência, a corrupção permeia facilmente a opinião pública. Portanto, torna-se principal argumento agenciador de eleitores.

 

Os partidos saem de suas posições de esquerda ou direita e de seus programas para buscar um lugar-comum que não conquiste apenas um público com um perfil ideológico de interesses, mas coloque em pauta uma questão que possa garantir um maior número de votos. Os partidos deixam de disputar as eleições e a opinião pública através de seus programas com projetos políticos para incorporar um lugar no senso comum. Os projetos políticos são aqui entendidos sob a perspectiva gramsciana, constituindo, pois, o conjunto de valores e interesses que representam um modelo de vida em sociedade. Quando transformado em programa partidário, orienta as ações dos sujeitos políticos.

 

As manifestações de 2013, ao representar um caráter apartidário, lançam ao confronto dois projetos políticos que até a pouco 3 SOUZA, Carlos André. Antipetismo e ciclos de protestos no Brasil: uma análise das manifestações ocorridas em 2015. Em Debate, Belo Horizonte, v.8, n.3, p.35-51, mai. 2016. 462 JOIN BR Encontro Internacional de Jovens Investigadores Edição Brasil/2017 ISBN 978-85-61702-46-5 tempo tinham um lugar comum construído a partir das políticas de coalizões: de um lado, o projeto neoliberal; de outro, o projeto democrático participativo (SOUZA, 2016). Há o retorno da polarização entre direita e esquerda para representação, mas sem que isso represente uma pauta partidária.

 

No ano de 2014, o anúncio de um novo escândalo de corrupção colocou mais uma vez os governos petistas no centro da discussão. O escândalo da Petrobrás foi um esquema de lavagem de dinheiro na empresa estatal com utilização de postos e lava-jatos para movimentar os recursos. Iniciada em Curitiba (PR), envolvia, num primeiro momento, operadores paralelos do câmbio, os chamados doleiros. Envolve, também, empreiteiras organizadas que pagavam propina para políticos. A operação da Polícia Federal ficou conhecida como “Lava-jato”.

 

O escândalo reverberou nas eleições de 2014. Os candidatos assumiram para si o papel de agente que iria combater a corrupção. Como os partidos eram alvos de desagrado da opinião pública, os candidatos buscaram enfatizar características pessoais que agregavam ideias de integridade. Ou seja, traziam para si o ponto de valência, ao invés de marcar um posicionamento partidário. Para Telles (2015, p. 5),

 

A oportunidade de vitória dependeria, então, menos da ocorrência de proposições políticas diferenciadoras entre os partidos, e mais das suas associações a uma questão conjuntural apoiada pela maioria da opinião pública. A ‘política de valências’ necessita de desenhar um personagem-símbolo, portador de qualidades tais como a integridade e a competência, que solucionem um problema específico. Por isso, neste modelo, o personalismo é uma heurística mais importante que a preferência partidária.

 

Assim, as eleições de 2014 tiveram como valência a corrupção, reforçada pelo cenário econômico e a permanência do PT no Executivo por três mandatos. Em 2010, Lula tinha prestígio que era o capital político desejado pelos candidatos. Mesmo aqueles que estavam em sua oposição buscavam, de alguma forma, vincular sua imagem ao Lula ou, no mínimo, não abrir um confronto, o que Telles considerou como sendo a “valência” daquele pleito. Em 2014, Lula não se fez presente e, assim, a corrupção ocupou esse espaço de adesão consensual.

 

Aécio Neves (PSDB), então candidato nas eleições de 2014, aderiu à campanha antipetista: colocou o PT como principal agente de corrupção, buscando construir a imagem do “personagem simbólico do combate à corrupção” (TELLES, 2015). Dilma, por sua vez, iniciou associando sua imagem à de Lula, também num sentido de personalizar a agenda política. Apenas no segundo turno, pressionada pelo posicionamento antipetista de seu opositor, ela saiu do personalismo Lula-Dilma para uma pauta mais ideológica (TELLES, 2015).

 

Embora Aécio Neves (PSDB) tenha perdido a eleição de 2014, o acúmulo político foi significativo porque fomentou na opinião pública o antipetismo, associando o PT à corrupção. Logo após o resultado do pleito, o PSDB questionou os resultados do processo eleitoral e iniciou uma campanha a favor do impeachment da presidente eleita Dilma Rousseff baseada em acusações de improbidade administrativa em relação ao escândalo da Petrobrás.

 

Dilma Rousseff venceu o segundo turno das eleições de 2014 com 51,64% dos votos, contra 48,36% de Aécio Neves. No Congresso, as eleições foram consideradas as que elegeram o perfil mais conservador entre deputados e senadores. Até então, havia se sustentado nas coalizões governamentais um projeto político com perfil democrático-participativo. A articulação permitiu avanços em questões consideradas de inserção socioeconômica. O quadro conservador foi uma reação ao avanço da emancipação política de grupos e minorias: união civil entre casais do mesmo sexo, cotas sociais e raciais, consolidação de programas de distribuição de renda, medidas trabalhistas que beneficiavam o trabalhador marginalizado – como, por exemplo, a Lei completar de garantia de direitos para empregados domésticos.

 

As manifestações de junho de 2013, apesar de pautas difusas, colocaram como possibilidade a utilização do espaço público como forma de reinvindicação. Com o crescimento de posicionamentos contra corrupção endossado pela oposição ao governo no período eleitoral e pós-eleitoral, as ruas se tornaram espaço onde a opinião pública ficaria em evidência. Soma-se ao cenário a ideia de crise econômica: no início foi interessante para os industriais a intervenção  estatal na economia conduzida pelos governos petistas, mas o fortalecimento do Estado, aliado aos trabalhadores, ameaça o interesse da burguesia industrial. Para enfraquecer a intervenção do Estado, os industriais se unem ao capital rentista, que teve grande crescimento de seus lucros nos governos do PT. O efeito desse cenário foi o reaparecimento da polarização direita-esquerda: o perfil dos protestos em 2015 representava um setor da sociedade ocupado pela classe média e classe média alta. Colocavam-se contra as políticas de igualdade social, reforçavam o discurso da meritocracia, utilizavam símbolos do nacionalismo (blusa da seleção brasileira de futebol e bandeiras do País).

 

Não podemos incorrer no erro de acreditar que o Congresso Nacional é eleito de maneira aleatória: ele representa os grupos de interesse da sociedade, mesmo que, após as eleições, distancie os representados dos processos decisórios. Afirmar o crescimento da direita no País é considerar também que ela chegou ao âmbito institucional por meio de eleições. A principal diferença entre direita e esquerda gira em torno das concepções de ação individual e ação coletiva referente ao comportamento social e intervenção estatal na economia. A direita considera que o Estado não deve intervir na economia e que a pobreza é um problema individual, ou seja, está atrelada à ideia de conquista de mérito por parte do sujeito. A intervenção do Estado, entretanto, é cabível para questões que dizem respeito ao comportamento social (aborto, religião e outros). Nas instituições políticas, a direita não se organiza em um único partido, o que significa que acompanha a estrutura fragmentada do sistema partidário, inclusive no que diz respeito ao personalismo político, pois ao disputar eleições dentro do sistema proporcional de lista aberta, torna-se viável a vitória no pleito se não concorrer com lideranças do mesmo partido (TELLES, 2015).

 

A representação proporcional tem efeito também no âmbito do Legislativo pela distribuição nas comissões. Diante da fragmentação em diversas legendas, a direita se organiza na arena legislativa a partir de “bancadas temáticas” de interesses específicos, como é o caso da bancada ruralista, bancada da bala e bancada evangélica. Cabe refor- çar que esse não tem sido um quadro apenas da direita. A esquerda também se organiza dessa forma, mas em relação a interesses menos  individuais e mais coletivos, referentes às minorias e aos direitos sociais.

 

O perfil do Congresso Nacional da legislação iniciada em 2015 foi considerado o mais conservador dos anos pós-ditadura militar. Segundo a matéria do DIAP, representam o perfil da nova direita policiais, apresentadores de TV, pastor evangélico, a maioria eleitos por partidos pequenos. Os grandes ruralistas estão em menor número graças à queda de popularidade do DEM, mas com grande influência no agronegócio. Com a fragmentação partidária, a presença de interesses específicos em disputa é ampliada. Mais uma vez, é possível perceber que há mais mobilização em torno de questões individuais do que em torno de questões coletivas.

 

Houve mais mudanças partidárias no primeiro governo de Dilma Rousseff. Surgiram novas legendas que fragmentaram ainda mais o sistema partidário; como consequência, houve um novo realinhamento de forças na Câmara dos Deputados. Observamos, por exemplo, que os partidos PT e PMDB perderam cadeiras.

 

Dilma Rousseff (PT) venceu as eleições de 2014. Entretanto, a ausência de articulação da presidente em seu mandato anterior teve quadro agravado pela nova configuração da Câmara. A dificuldade de articular coalizão governamental foi colocada em xeque pela distância do perfil dos parlamentares eleitos em relação ao governo. O tensionamento aumentou quando Eduardo Cunha (PMDB), reeleito deputado federal, anunciou que se candidataria para Presidência da Câmara Federal. Desde 2007, havia um acordo entre o PT e o PMDB para o revezamento do cargo, com apoio mútuo na vez de cada um. Em 2015, seria a vez do PT, visto que o PMDB esteve no cargo com Henrique Alves.

 

Eduardo Cunha foi eleito presidente da Câmara em 2015. O choque entre a agenda do Executivo e do Legislativo foi imediato. Cunha dizia não fazer oposição ao governo Dilma na legislatura anterior, e sim ser porta voz do PMDB como líder do partido. Ademais, iniciou sua trajetória como presidente da Casa colocando para votação questões avessas à agenda de Dilma Rousseff e dos partidos de esquerda. Dentre elas, Cunha priorizou a votação para redução da maioria penal de 18 para 16 anos; lei de terceirização; projeto de lei que torna mais rígida a legislação contra o aborto. Ademais, retirou a área de 466 JOIN BR Encontro Internacional de Jovens Investigadores Edição Brasil/2017 ISBN 978-85-61702-46-5 comunicação da Câmara Federal das mãos de servidores para dar um comando político de evangélicos.4

 

O choque de agendas entre o Executivo e o Legislativo impactou o sistema do presidencialismo de coalizão. O poder de agenda do Executivo foi restringido em detrimento da formação de legislatura regida pelo peemedebismo que, por sua vez, se distanciava do governo Dilma Rousseff. Diante da fragmentação partidária e para o sucesso do jogo de posições em torno da agenda política ser efetivo, o PMDB se articulou em bloco parlamentar para formação de maioria. Partidos de bancadas menores também seguiram a mesma lógica de articulação, geralmente tendendo para aliança com o bloco majoritário. A centralização da agenda política legislativa nas mãos do presidente da Câmara formou um parlamentarismo informal, consequência da ingovernabilidade do Executivo no presidencialismo de coalizão. Do período de FHC na presidência até este momento, o funcionamento do sistema político brasileiro foi tratado a partir da habilidade do Executivo em formar alianças no Legislativo. O que decorreu da ausência de articulação do governo foi a abertura para que Eduardo Cunha (PMDB) exercesse a função propositiva que Dilma Rousseff não conseguiu realizar.

 

O parlamentarismo informal decorre, portanto, dos fatores: 1) excesso de fragmentação partidária (pluripartidarismo exacerbado); 2) maioria dos deputados federais com perfil conservador eleitos por representarem a insatisfação da sociedade com projeto político democrático do PT, corrupção como “valência” e crescimento do antipetismo; 3) inabilidade do Executivo em formar maioria e habilidade do presidente da Câmara em formar maiorias.

 

O cenário de crise política está formado, dentro do ponto de vista institucional, a partir da predominância dos processos decisórios do Legislativo sobre o Executivo. Abranches em 1988 enunciou dilemas do presidencialismo de coalizão. Sem um programa de ação, a relação entre Executivo e Legislativo fica condicionada à formação 4 Disponível em: . Acesso: jun de 2016. 467 JOIN BR Encontro Internacional de Jovens Investigadores Edição Brasil/2017 ISBN 978-85-61702-46-5 de coalizões, sob a perspectiva distributivista. Como consequência, o próprio Executivo, no “ciclo centrífugo”, desestabiliza o equilíbrio de forças entre os dois poderes e não tem como construir um projeto político de Estado e age conforme incentivos conjunturais no intuito de manter a estrutura das instituições tal como estão. O campo político se mantém restrito aos políticos profissionais dotados do capital social necessário para distanciar os representados do centro das decisões e, assim, concentrar o jogo de posição aos agentes do campo interno. A manutenção das regras fica centralizada em torno dos aparelhos do Estado em que há revezamento entre os três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – na tomada de decisões e no poder de veto. Aos cidadãos, cabe participação no decorrer das disputas eleitorais.

 

É tentador afirmar que o presidencialismo de coalizão produz entraves ao jogo político. Mas, ele funciona. Quando é evidente a ausência do Executivo como articulador político na formação de coalizões, outras instituições do Estado passam a ocupar o vazio informacional; há ocupação desses espaços pelo Legislativo, de um lado, com o poder de agenda e decisório com ampla possibilidade de barganha e, de outro, o Judiciário propondo-se como mediador e agente de enfrentamento da corrupção. Resta-nos refletir se esse revezamento de articulação tem efeito positivo no sistema político e de representação brasileiro.

 

As manifestações, a imprensa e o Judiciário: singularidades e convergências

 

É consenso entre analistas que as manifestações iniciadas em 2013 marcaram um novo momento no cenário político brasileiro. O fenômeno suscitou, além da surpresa, uma série de explicações (MIGUEL, 2017; SANTOS, 2017; BRAGA e BIANCHI, 2017). Para Luis Felipe Miguel (2017), havia a crença entre os intelectuais de que a crise seria solucionada dentro dos padrões da institucionalidade pós-1988. Aprofundar o olhar sobre a lógica das manifestações, o papel da imprensa e o ativismo do Judiciário significa pensar para além dos instrumentos e normas do Congresso Nacional e do sistema partidário brasileiro.

 

Iniciando com o Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo, as manifestações de junho de 2013 reivindicavam melhorias no serviço público das cidades e criticavam o sistema político. O “não me representa!” se espalhou pelo país, refletindo o poder de um movimento que não contava com lideranças tradicionais, roteiros e forças partidárias. Eventos marcados pela forte mobilização nas redes sociais e indignação às ações de violência policial, rapidamente ganharam o país (AVRITZER, 2016; SOUZA, 2016; NOBRE, 2013).

 

O ano de 2014 contou com poucas manifestações. Era o início do desgaste do lulismo5. Contudo, a partir de 2015, começa a metamorfose das manifestações políticas. A literatura sobre o tema destaca os principais pontos: a) O inconformismo da oposição com o resultado eleitoral de 2014, b) O fortalecimento das articulações pró-impeachment da presidente Dilma, c) Ampliação das crises econômica e política, d) As repercussões da Operação Lava Jato e o crescimento do discurso antipetista (MIGUEL e BIROLI, 2017; SANTOS, 2017; AVRITZER, 2016). Esse cenário vai se agravar com a tensão entre o governo Dilma e os movimentos sociais, marcando o fim do monopólio da esquerda sobre as manifestações e a participação ativa da classe média tradicional (AVRITZER, 2016).

 

As maiores manifestações pró-impeachment de 2015 contaram com a coordenação do Movimento Brasil Livre, Movimento de Combate a Corrupção, Patriotas Conscientes e Vem pra rua e tiveram a participação ativa de entidades como a FIESP, CNA, FEBRABAN e Associações comerciais – a “hegemonia do dinheiro” (SOUZA, 2016). O ano de 2016 marcará o acirramento na disputa entre os grupos pró e contra o impeachment em todo o país. Os espaços em que ocorreram as concentrações revelavam muito do perfil dos manifestantes. Os atos pró-impeachment contaram com a presença determinante da classe média tradicional, enquanto nos eventos pró-governo Dilma verificou-se o predomínio da classe média ligada ao serviço público e aos partidos de esquerda.

 

As manifestações e a crise política atual não podem ser pensadas sem recorrer à força da grande imprensa. Nesse caso, recorre-se aos seis maiores grupos de comunicação do país. Ao verificarmos a cobertura dos acontecimentos da crise política, não apenas das manifestações de rua, mas de todo o processo que culminou com o impeachment de Dilma em 2016, é possível destacar alguns pontos fundamentais. Inicialmente, não resta dúvida de que a imprensa vem atuando cada vez mais (e de forma explícita) como ator político na esfera pública. Esse raciocínio pode ser facilmente confirmado ao nos depararmos com a cobertura da imprensa internacional.

 

Jessé Souza (2016) chama atenção para a cobertura que o Jornal Nacional da TV Globo realizou sobre a Operação Lava Jato. Além da parcialidade no trato da notícia ao abordar de forma restrita a crise econômica e a corrupção, o telejornal fez uso de uma estratégia de “novelização” da referida operação. A cada novo episódio ressaltavase com tintas fortes o papel de vilão supostamente assumido pelo PT e pelo ex-presidente Lula. Essa estratégia segue na contramão da compreensão mundial sobre a corrupção, que acentua os déficits e limitações estruturais da administração pública e a presença decisiva de executivos da iniciativa privada.

 

Os escândalos de corrupção passaram a contribuir para um processo de criminalização dos partidos e políticos, além da demonização do Estado. Ao se dirigir a população como representantes do interesse público, os principais veículos de comunicação do país, escondiam diversos vínculos com partidos de centro-direita , interesses empresariais e com a classe média tradicional – nitidamente avessa às políticas de inclusão social (SOUZA, 2016). Entretanto, diferente de outras crises, a hegemonia dessas empresas foi confrontada pela força das redes sociais e canais alternativos de produção.

 

Talvez a maior singularidade da crise política que vivemos seja o protagonismo do Judiciário. Ao longo do século XX os impasses na seara política tinham as forças armadas como instituição de resolução de conflitos. A partir da constituição de 1988, o Judiciário passou a contar com uma série de instrumentos e autonomia que possibilitaram seu fortalecimento na redemocratização. Nos governos petistas, a Controladoria Geral da União, Polícia Federal e Ministério Público Federal conseguiram mais recursos e atenção por parte do Executivo. As operações desses órgãos cresceram vertiginosamente (AVRITZER, 2016).

 

Com a fragmentação partidária e disputas entre o Executivo e o Legislativo, o Judiciário passou a deliberar sobre uma série de questões políticas (fim da cláusula de barreira, fidelidade partidária e financiamento empresarial). A partir do julgamento do “mensalão”, ministros do STF, procuradores e juízes começaram a se relacionar diretamente com uma opinião pública de classe média cada vez mais atenta e indignada com os governos petistas (SOUZA, 2016). O fortalecimento da Operação Lava Jato pós-eleições de 2014 foi o ápice dessa aliança e o combustível para o discurso de vanguarda moral do Judiciário (REIS, 2017).

 

Não há dúvida sobre o papel histórico representado pelas operações de combate à corrupção. Entretanto, a espetacularização das investigações, o uso arbitrário do instrumento da colaboração premiada e a flexibilização de preceitos básicos do Estado de direito (presunção da inocência e teoria do domínio do fato) caminham na contramão de um Judiciário que se pretende democrático e republicano (SANTOS, 2017). Ao demonizar o sistema político e se evidenciarem como guardiões da moralidade, esses atores produzem uma visão messiânica da vida pública e solapam as possibilidades da política se reconstruir democraticamente. Sem esquecer que juízes e promotores, apesar de criticarem o clientelismo da política nacional, vivem cercados por uma série de privilégios e decisões corporativistas.

 

Em linhas gerais, precisamos salientar que a atual crise política brasileira não é apenas um fenômeno conjuntural, uma vez que seus desdobramentos comportam alterações substanciais no Estado brasileiro (administração pública, educação, trabalho, recursos naturais e previdência) e novos paradigmas societários, com a presença organizada de grupos conservadores e intolerantes na esfera pública. Além disso, conseguiu produzir um discurso antipolítico e anti-humanista contra uma série de conquistas e direitos adquiridos ao longo da redemocratização. As raízes da crise não foram solucionadas, uma vez que nenhuma alteração significativa foi realizada no sistema eleitoral,  partidário e no combate à corrupção. Dessa forma, outras crises políticas ganharão espaço e afetarão os rumos da democracia brasileira.

 

Considerações finais

 

Após expor as teses gerais que envolvem a crise política, iniciamos um debate com os cursistas. Três pontos foram marcantes, tornando a discussão acalorada. O primeiro chama atenção para o fato que os políticos e os partidos se distanciaram das demandas reais da sociedade. Os grandes dilemas da Universidade, as limitações do SUS e o aumento no índice de homicídios não ganham relevo nas discussões nacionais.

 

O segundo, a crise política envolve uma série de interesses econômicos. Empresários, classe média e grupos conservadores se articularam nas ruas e no Congresso para fazer valer suas demandas ou mesmo para paralisar uma agenda progressista. Os grupos excluí- dos que conseguiram ampliar seu poder de consumo e passaram a utilizar espaços antes exclusivos da classe média como universidades, aeroportos e planos de saúde, não possuem o mesmo poder de mobilização e são os mais vulneráveis diante dessa lógica de reformas do governo Temer.

 

O terceiro ponto é o papel que as eleições de 2018 deverão desempenhar no cenário político. Há uma tensão sobre a candidatura do ex-presidente Lula e uma preocupação voltada para o crescimento do candidato de ultradireita, Jair Bolsonaro. Ficou visível entre os cursistas um sentimento generalizado de ausência de renovação da democracia, refletindo diretamente nos cargos majoritários e proporcionais. Enfim, são questões preliminares que necessitam de um maior aprofundamento. A crise política continua e o nosso desejo de compreendê-la também! 472 JOIN BR Encontro Internacional de Jovens Investigadores Edição Brasil/2017 ISBN 978-85-61702-46-5

 

1 Cleyton Monte – Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará. Docente da Faculdade Cearense. Pesquisador do LEPEM-UFC.

2 Paula Vieira – Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará. Docente da Faculdade Metropolitana da Grande Fortaleza (Fametro). 460 JOIN BR Encontro Internacional de Jovens Investigadores Edição Brasil/2017 ISBN 978-85-61702-46-5

 

(Singer e Loureiro (2016) argumentam que o lulismo surgiu em 2006. Após o “mensalão”, a classe média, muito sensível a questões de ordem ética, passou a se alinhar com forças de centro-direita, com destaque para o PSDB. Os mais pobres passaram, pela primeira vez, a votar em Lula e no PT, que desde sua criação tinha uma penetração maior na classe média, verificando-se, então, um realinhamento de forças sociais. Essa mudança não ocorreu por acaso, segundo aqueles autores. O grande lema dos governos do PT foi aliar crescimento econômico com redução das desigualdades sociais, melhorando o padrão de consumo da metade mais pobre da sociedade, que se encontra no Norte e Nordeste. )

Referências

 

AVRITZER, Leonardo. Impasses da democracia no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

 

MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Encruzilhadas da democracia. Porto Alegre: Zouk, 2017.

 

NOBRE, Marcos. Imobilismo em movimento: da abertura democrática ao governo Dilma. São Paulo: Companhia das letras, 2013.

 

SANTOS, Wanderley Guilherme dos. A democracia impedida: O Brasil no século XXI. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2017.

 

SINGER, André; LOUREIRO, Isabel (orgs.). As contradições do lulismo: a que ponto chegamos? São Paulo: Boitempo, 2016.

 

SOUZA, Claudio André. Antipetismo e ciclo de protestos no Brasil: uma análise das Manifestações ocorridas em 201. Em Debate, Belo Horizonte, v.8, n.3, p.35-51, mai. 2016.

 

SOUZA, Jessé. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. Rio de Janeiro: Leya, 2016.

 

TELLES, H. Corrupção, Legitimidade Democrática e Protestos: o Boom da Direita na Política Nacional? Revista Interesse Nacional, São Paulo, Ano 8, n.30, jul-set.2015. ______.

Corrupção, antipetismo e nova direita: elementos da crise político -institucional. Revista GVExecutivo, São Paulo, v.14, n.2, jul-dez.2015b.

Cleyton Monte

Cleyton Monte

Doutor em Sociologia, pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (LEPEM), membro do Conselho de Leitores do O POVO e professor universitário.

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