A crise da crise, por Rafael Silva

A crise, apesar de constituir-se na expressão mais aguda da condição humana, é em potencial um excelente ponto de inflexão. Crise deriva de Kri, denominação sânscrita que significa desembaraçar, limpar. Traduzida para o latim tem-se palavra acrisolar de mesmo significado. L Boff observa que a crise pode abrir um processo vital capaz de dar conta de um novo ente, um cerne que se abre ao novo pathos aprofundado na nova ética, no senso de pertencimento de uma nova solidariedade.

No momento de crise nos damos conta do essencial. Daquilo que realmente importa. Nos desfazemos dos acessos, dos penduricalhos, daquilo que é resto! Por isso que a crise constituiu-se na substância da purificação humana. Reduz à essência o mais do humano, possibilita encontrar-se com seu cosmo, com o adrios adormecido que reside no éter da sua existência. A poeira cósmica do qual derivamos restabelece a dialética entre o dia-bólico e o sim-bólico, num eterno jogo de evolução. É a própria existência da vida dramatizada pelas descontinuidades.

Nesse ponto, é difícil haver vitalidade e discernimento, ser assertivo. Mas por quê? Porque todo processo de purificação exige rupturas. Convulsões extremamente decisórias para o juízo daquele que está no olho do furacão. A perturbação derivada desse imbróglio forma, a um só tempo, uma profunda energia, que ordenada é capaz de conduzir o indivíduo à superação, conversão.

O ser humano é apresentado ao seu espelho mais intimo. O sacrário da sua consciência de onde deriva sua derradeira decisão. Àquela realidade de que irrompe o furacão adormecido. Aqui a morte surge para dela nascer a vida, só por isso ela ganha sentido. Esse processo é capaz de promover um novo caminho radical, completamente diferente daquele que apresentou a crise. Daí emerge o novo homem e a nova mulher. O acrisolado substantivo dá vida que purifica e liberta. É o esperançar tisnado por Paulo Freire.

A nefasta democracia brasileira precisa fazer o caminho da crise. Enfrentar o rosto da crise, como quem aproveita uma oportunidade. Não enfrentar essa realidade se constitui na crise da crise. Não é muito imaginar que um problema somente pode ser enfrentado quando ele é identificado. Um médico prescreve apenas quando identifica o mal. O timoneiro opta por uma manobra, após ter tomado pé das reais condições pela frente. Isso serve para a vida, para aquilo que chamamos de democracia. Serve para a crise econômica, política e principalmente a ecológica, sintetizada na mais profunda crise ética que dia a dia tem açodado a modernidade.

A crise ética se dá quando nos acostumamos com um mundo de meias verdades. Isso produz meias mentiras que, diante do inexorável tempo, constituem-se na implacável resiliência às fatalidades. Anuviados pelos entorpecentes (sintéticos ou tecnológicos) tendemos a fugir da crise, evitá-la! Não queremos enfrentá-la na altura merecida. Aqui residem as meias verdades e as meias mentiras. A meia verdade escondida na pecha de dizer “somos todos da mesma classe” é superada na meia mentira de combater a violência pela força. A meia verdade de enfrentar o desemprego pela destruição das Leis trabalhistas é escamoteada na meia mentira das desigualdades socioeconômicas sintetizadas na guerra às drogas; outra meia verdade consiste em condenar o usuário sob a meia mentira de alcançar o traficante. Simulamos a meia verdade na prisão a Rafael Braga, e reinventamos a meia mentira quando deixamos impune Aécio, Padilha e Temer. A ausência da superação da meia verdade/meia mentira põe o policial contra o cidadão e o incentiva a prender, julgar e executar a sentença de morte.

Essa é a crise da crise!

A crise da crise é concretizada na redução da economia a bens de acesso no limite de atribuir sucesso pessoal ou fracasso. O mercado é a linha divisória da “felicidade”. A meia verdade aqui é traduzida pela tal linha da felicidade. A meia mentira está na impossibilidade de alcançá-la. Noutro ponto, a meritocracia dá contornos à política, e, como não sendo possível, ainda é piorada no limite de naturalizar a chegada ao poder de uma determinada elite imbecilizante. O xadrez dos partidos políticos e das instituições é invadido por meias verdades, aplicáveis ou não a depender do extrato social a que pertença o receptor. A ecologia, quanta maldade! É vista pela ótica do desenvolvimento domesticado, traduzida no adjetivo sustentável. Ora! Não pode haver sustentabilidade a qualquer coisa que negue o envolvimento! E por ai vai.

Sair da crise é negar o adormecimento desses pontos. Óbvio que há outros pontos tão importantes quanto estes como a criminalização da pobreza; o problema das drogas; a questão da saúde pública, enfim, não são poucos. Mas todos podem ser resolvidos se enfrentarmos com a grandeza exigida. Na prática, não adianta aumentar a repressão sem permitir acesso a bens primários. Não adianta distribuir renda sem enfrentar as causas estruturais da desigualdade. No máximo teremos um adormecimento social, e por que não dizer da moral. O reducionismo da moral abre espaço para o enfrentamento das diversas realidades de mundo. No acrisolamento da moral o argumento mais forte prevalece. Isso pode ser meia verdade, mas a meia mentira dessa estória configura-se no recrudescimento de grupos socialmente excluídos como os povos tradicionais, pesqueiros, LGBT’s, e tantos outros excluídos. Nessa disputa, negar a existência dos múltiplos extratos sociais constituí-se numa brutal ignorância. A violência do oprimido não pode ser medida com a mesma régua do opressor.

Precisamos aceitar a emergência das descontinuidades! Elas são importantes. Mesmo quando acabam as convicções mais fundamentais, apresentam-se as angústias mais profundas. Uma verdadeira ausência de chão sob os pês! A descontinuidade consiste na evolução necessária da aproximação dialética e continua no limite entre teoria e prática. Consiste na busca do aprofundar o nosso sim-bólico e reduzir o dia-bólico que habita em nós. Vencer a crise é alcançar a purificação e libertação num estado consciente do eterno e necessário recomeçar! Ninguém é perfeito, porque perfeito é àquele(a) completo, acabado, pronto! O humano que habita em nós não permite isso! Portanto, é preciso superar a crise da crise. É essencial recusar o cenário trágico do futuro determinístico e sair da resiliência à resistência. Precisamos vencer essa etapa e avançar para a oportunidade da crise. Aquela que aceita o acrisolar mirando na purificação e na libertação.

Rafael Silva

Rafael Silva

Professor Universidade Federal do Ceará Mestre em Administração Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra-PT

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