A Criada: E a equação cinematográfica em sua forma mais polida, por Daniel Araújo

É interessantíssimo pensarmos na ideia do cinema como uma arte que tem no elemento da surpresa um de seus maiores dispositivos criativos. Falar desse tópico no trabalho de realização só se torna um pouco complicado em função das possíveis simplificações envolvendo o termo. E no caso da cinematografia do realizador sul-coreano Chan-wook Park, a perspectiva do simplista está longe de ser considerada. Seu irretocável “A Criada” (2017) é um exemplo disso.

Baseado no romance “Fingersmith”, o longa conta a história de Sook-Hee (Tae-ri Kim), uma mulher que é contratada como criada da herdeira japonesa, Lady Hideko (Min-hee Kim). Secretamente, entretanto, Sook-Hee arquiteta um plano junto ao ganancioso e manipulador Conde Fujiwara (Jung-woo Ha) a fim de tirar vantagem de condessa. Mas no fluxo das relações estabelecidas entre esses personagens, nem tudo parece ser o que de fato o é.

Dizer desse jogo é falar muito sobre a essência do 10º longa-metragem de wook Park. A final, é na dinâmica das aparências que o filme traça sua linha mestra e se desenvolve enquanto um thriller erótico que parece brincar em sua maior parte com as veredas que o gênero pode lhe garantir. Essa experimentação em momento algum soa desmedida dentro da obra. E ai sentimos ao longo dos seus 142 minutos de duração uma sempre segura condução por parte da direção e sua equipe.

Mas não partamos de pontos comuns porque, apesar de ser um trabalho que funciona dentro de uma ideia definida de gênero, “A Criada” tem nesse impulso metamórfico de sua narrativa seu maior mérito. Dai podermos dividi-lo em pelo menos 3 momentos. Um primeiro ato onde vemos Sook-Hee tramando um plano com Fujiwara, seguido de outros dois momentos que agem, na verdade, como sequências complementares. São o desenvolvimento e desfecho do filme.

O ideal, entretanto, é que a experiência de ver o filme preceda a própria leitura da sua sinopse, por exemplo. Ir ao encontro do cinema “às cegas”, nesse sentido, é um modo de potencializarmos o prazer do encontro com o filme. Não para sermos pegos desprevenidos por aquilo a que não estaríamos preparados para ver e perceber. Muito menos por algo que deveríamos, enquanto espectador, prever. Não. Aqui, o deleite é o da gradativa desconstrução das possíveis perspectivas.

Ao mesmo tempo, a contemplação diante das imagens que wook Park produz é algo muito singular quando estamos diante de um cinema tão repleto de signos e símbolos. Há referências na ordem da forma, por meio de tudo aquilo o que a fotografia, o som, figurino e design de produção (roupas, adereços e objetos de cena) podem dar a ver.

Um dos principais traços do filme são seus planos fortemente compostos via direção de arte e fotografia (luzes e sombras).

É o quadro fortemente composto através de uma iluminação rigorosamente pensada para criar uma atmosfera de suspense intimista. Ou um trabalho de som construído de modo a fortalecer e complementar a narrativa, seja pelo silêncio e a ausência de qualquer ruído sonoro ou a ideia de acuidade sonora em suas mais distintas e experimentais posições.

Mas refletir as imagens do longa ocorrem também a partir dos elementos que dão forma ao filme via o seu sentido. E aí destacam-se o próprio romance de Sarah Waters, publicado em 2002. A mescla das variações tonais do binômio formado pelo drama histórico e o suspense erótico, enquanto gêneros cinematográficos poderosíssimos, sobre tudo quando estamos discutindo o cinema contemporâneo asiático.

Essa miscelânea de elementos que formam a linguagem cinematográfica é o conjunto exato que afirmam o bom cinema. Se estivéssemos a falar de uma espécie de equação do fazer fílmico, seria essa. Forma x Sentido = Filme em sua natureza mais polida. Mas como o fazer cinematográfico se faz pelo exercício daquilo o que é subjetividade, ficamos mesmo na esfera expansiva do cinema como uma vivência de provocação do nosso imaginário. E a obra de wook Park está repleta desses instigantes dados provocativos em maior ou menor escala, por estórias de cunho mais redentor e outras nem tanto, mas sempre muito pertinentes.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Ah-ga-ssi

Tempo de Duração: 142 minutos

Ano de Lançamento (Coreia do Sul): 2016

Gênero: Thriller, Crime, Drama

Direção: Chan-wook Park

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *