Corpo Delito: o cinema como processo de desidentificação, por Daniel Araújo

O Ceará possui, dentro do escopo da cinematografia contemporânea, uma das produções mais potentes em pleno desenvolvimento. Libertos do estigma de um cinema barroco, de cangaço ou mesmo de uma proposta abstrato-experimental, expandimos nossas criações em um acompanhamento muito positivo ao fluxo cinematográfico nacional. Nesse cenário é que surgem longas metragens como  o pertinente “Corpo Delito” (2017).

Segundo longa dirigido pelo cearense Pedro Rocha, o filme conta a história de Ivan, um apenado que saiu da cadeia em regime semiaberto sob monitoramento por meio do uso de uma tornozeleira eletrônica. Após 8 anos em regime fechado, Ivan tenta se adaptar à rotina, agora definida entre o trabalho – também realizado sob vigília da polícia – e a vida familiar.

Dado essa apresentação inicial, vale ressaltarmos o quanto o filme possui de camadas para além da sua sinopse. Realizado como um trabalho híbrido, o longa tem traços do documentário observacional e incorpora elementos do roteiro de ficção. Roteirizado por Pedro e Diego Hoefel, Corpo Delito acha no equilíbrio entre a exposição dos gêneros sua maior força.

Enquanto documentário, temos a captação da realidade. E aí entram a dinâmica da vida de Ivan, suas angústias quanto ao desejo de liberdade e o círculo das pessoas à sua volta. Temos a esposa, Gleiciane, e a filha, Glenda. Além do amigo, o jovem Francisco Neto. Todas essas personagens são, entretanto, registradas por meio de uma captação que estabelece certo perímetro de distanciamento.

A observação é uma premissa bastante estabelecida desde os primeiros momentos do filme. Ela se manifesta por meio de uma câmera que entende os limites do seu perímetro. Diferentemente, entretanto, do documentário tradicional, ela não opera para a simples captura e exposição do que ocorre ou emerge dessas personagens. Há muito mais. Porque aqui, sentido e forma fílmicas estão intimamente ligadas. No que diz respeito a esse distanciamento da câmera, enquanto dispositivo, notamos que ele reflete exatamente o entendimento que os realizadores têm da importância de a estória não sucumbir à mera exposição do drama humano.

Aos olhos da lente, Ivan e todos os demais ali retratados são os autores das suas estórias. Narrativas essas que fluem não exclusivamente pelo trato dado ao roteiro. Mas também e, sobretudo, pela disposição dessas mesmas figuras assumindo posições e riscos.

Esse é exatamente o ponto que define Corpo Delito enquanto um trabalho iminentemente político. Tomando como referência as teorias da imagem de Jacques Ranciere, podemos notar o quanto o filme se justifica em sua legitimidade. Ele não busca fazer denúncias ou solicitar qualquer solidariedade e identificação do espectador. Ele apenas “dá a ver”. Despido de qualquer intenção maniqueísta, a obra nos aproxima, em verdade, da realidade nas quais aquelas personagens se inserem e/ou se constroem.

Nos deparamos com o cinema como processo de desidentificação. Uma vez que, as pessoas ali retratadas, não são objetificadas ou talhadas a partir de um determinado discurso. Há, verdadeiramente, um trabalho de roteirização em cima de determinadas situações, como na sequência de Neto almoçando enquanto assiste a um programa policial, mas isso, em momento algum, opera para a objetificação dessa personagem, por exemplo.

Apesar de ser um trabalho híbrido, onde o documentário se mistura com a ficção, Corpo Delito não objetifica suas personagens. Foto: divulgação

Antes, reforça a construção contextual na qual a estória se desenvolve. A imagem nos é apresentada dentro de um conjunto de operações que nos permite o entendimento da dinâmica desse coletivo que a periferia é. Chegamos, então, a um ponto importante de análise que diz respeito a como o filme usa os cenários, de modo que estes nos ajudem a entender a narrativa ali apresentada.

Dispensando o uso de qualquer diálogo expositivo desnecessário à experiência do cinema, temos um momento em que uma personagem rememora a figura do filho falecido. Toda a sequência é mostrada por meio de ação. Por isso, vemos a mãe acompanhada da amiga, Gleiciane, visitando o cemitério que fica às portas de uma penitenciária. Ou seja, temos um personagem que morrera sob condições de algum cumprimento de pena? Nada disso é explicitamente  dito. Mas todas as informações desenham-se ali. Sugestivamente. Tudo é dito por meio da ação ou do que o espaço fílmico nos diz.

A violência (do Estado e do homem como indivíduo) e a dificuldade em lidar com as agruras de um País atolado em uma contradição que já dura ao menos cinco séculos são os pilares que colocam Corpo Delito como um dos trabalhos mais sólidos da nossa recente cinematografia (cearense e brasileira). Não falamos de um filme “sobre a liberdade condicional no Brasil”. Porque esse longa se propõe ir além do dispositivo clássico de narração, seja documental ou ficcional. É o cinema que se abre às possibilidades de estórias que precisam ser contadas pela ótica de quem as vivencia. E não somente pela ótica e o julgo do outro que olha de fora. Aqui, o processo ocorre de dentro para fora.

 

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Corpo Delito

Tempo de Duração: 74 minutos

Ano de Lançamento (Brasil): 2017

Gênero:  Documentário, Ficção, Drama

Direção: Pedro Rocha

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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