COMO NUMA PARTIDA DE FUTEBOL, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Bola na trave não altera o placar

Bola na área sem ninguém pra cabecear

Bola na rede pra fazer o gol

Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?”

[Samuel Rosa e Nando Reis / Skank]

 

PRÉ-JOGO

Indague-se a qualquer cidadão brasileiro com mais de cinquenta anos de estrada que evento marcante lhe invade a memória, embora já carcomida pelo tempo, ante a simples referência ao ano de 1970. É até possível que haja alguém a lembrar-se de algum ato de exceção – que lhe tenha imposto alguma perda irreparável, que lhe tenha causado lanhos incuráveis no mais íntimo do ser, que lhe tenha alterado profundamente a sua trajetória de vida – praticado pelo governo militar, à época sob o jugo de Médici e sua arrasadora arma de guerra política, o Ato Institucional nº 5, mais conhecido como AI-5. É também provável que lhe venha à mente algum evento essencialmente peculiar, particular, como, por exemplo, o próprio casamento ou o nascimento do primeiro rebento. Mas a grande maioria, a esmagadora maioria vai lembrar-se, com certeza, da histórica conquista dos gênios da bola – Pelé e sua turma – em solo mexicano, o que valeu a posse em definitivo da taça Jules Rimet, troféu que simbolizava a então inquestionável posição hegemônica do futebol brasileiro sobre todas as demais nações que praticavam essa universal modalidade de esporte.

Múltiplos foram os efeitos decorrentes de tal feito. Além da popularesca vitória do “pão e circo”, que sempre reafirma e fortalece o poder nas mãos de quem os fartamente distribui, dois outros merecem destaque: a razão maior para o futuro desabafo de Zagalo – “Vão ter de me engolir!” – e a confirmação de que no Brasil “o negócio é diferente” – marginais assumidos subtraíram [de concorrentes enrustidos] a Jules Rimet e a derreteram. Para a vergonha nacional, torraram os louros da vitória.

PRIMEIRO TEMPO

Acho que era o ano de 1971. Tenho algumas dúvidas. Façamos de conta que era. Assim, economizamos palavras.

Sob o gerenciamento administrativo e financeiro, esse bem mais que aquele, do “meu padim” Ribamar, com alguma – não muita – ajuda da edilidade, e sob o comando técnico e tático do feirante e bom caráter Ornilo, o bravo time do Putiú aceitou o convite oficial para representar Baturité no Intermunicipal daquele ano, uma competição promovida pela Associação dos Profissionais da Crônica Desportiva do Estado do Ceará, a APCDEC.

Compôs com Aracoiaba e Capistrano a chave mais regional de todas, de histórica rivalidade, que remontava à época das emancipações – esses dois municípios já foram distritos de Monte-Mor-o-Novo-da-América –, com jogos de ida e volta, da qual só avançaria à fase seguinte a mais bem classificada.

Na estreia, fora de casa, a magra e suada vitória – apenas 1 x 0 – sobre a boa equipe da terra “onde as aves cantam”, antiga aldeia Canoa. A autoria do gol coube ao voluntarioso centroavante Corró (Hélio), irmão de Bibi (Edmir), habilidoso meio-campista e espirituoso contador de “causos”, filhos de dona Adalgisa, mulher parideira e consorte do senhor Zé do Carmo.

Muitos baturiteenses assistiram ao jogo, na borda do campo, em local estrategicamente reservado para os visitantes, sob a proteção de dois destemidos policiais. Entre os torcedores, o Zé Pinto, funcionário da Coelce e de reconhecida virtuosidade no ato de fazer rir. Ao retornar, já na entrada do bairro que empresta o nome ao valoroso time, ele encontra a genitora do Corró, sentada na calçada de sua simples moradia, arrodeada de quase uma dezena de filhos, de todas as idades e de todos os tamanhos.

Para o jeep, cumprimenta a simplória senhora e noticia em primeiríssima mão:

– Os meninos ganharam o jogo de um a zero. Na raça. Com gol do Hélio. De cabeça. Um golaço. Vai passar na televisão, depois do programa do Flávio Cavalcante. – Ao perceber que não merecera o devido crédito, validou a informação: – O Peixoto de Alencar filmou tudo e já levou a fita pra Fortaleza. A pracinha vai encher de gente pra ver. A senhora devia ir… com a meninada…

À noite, lá pelas dez horas, a pracinha do Putiú – onde a municipalidade instalara um televisor público, para a transmissão de programas da TV Ceará (canal 2), afiliada à Rede Tupi de Televisão – já recebia um bom público. A notícia do gol do Corró se espalhara o suficiente para estimular toda aquela gente a esperar por inéditas imagens. Bem à frente, em tamboretes dispostos em linha, dona Adalgisa e sua vasta prole. Ao lado, na espreguiçadeira, o franzino e calmo Zé do Carmo.

O tempo passou rapidamente. E nada do gol. Já era mais de meia-noite. E nada do gol. As pessoas iam desistindo de esperar. E nada do gol. Com um faroeste, veio o Cinema na Madrugada. E o gol na telinha não passou de um devaneio, de um sonho.

Dona Adalgisa recolheu a filharada, seguiu os passos do marido no retorno ao lar, resmungando:

– Como é que fui cair nessa esparrela… acreditar nas histórias cabeludas do Zé Pinto…

E o Zé pôs a culpa no Peixoto, então deputado estadual:

– Esses políticos! Jamais cumprem o que prometem…

INTERVALO

O baturiteense Olavo Peixoto de Alencar era servidor público, vinculado ao INPS – Instituto Nacional de Previdência Social – e radialista notável, noticiarista da rádio Dragão do Mar. Com voz abaritonada, conquistou audiência na capital e em todo o interior, o que lhe valeu o slogan “Quando fala, o Ceará escuta”. Chegou a assumir cadeira na Assembleia Legislativa do Estado, não sei por quantas legislaturas.

Sei que vou me alongar. Mil desculpas, mas esta tenho de contar.

Peixoto costumava, aos sábados, entrevistar lideranças políticas do interior cearense, com alguma projeção já reconhecida pela mídia. Era o caso do prefeito de Capistrano, cujo nome a memória não resgata. No ar, após as apresentações de praxe, Alencar indaga ao jovem edil: “Excelência, o baixo índice pluviométrico registrado na recente quadra invernosa pode prejudicar a safra algodoeira da sua região?”. Estreando em situações da espécie, o homem do povo quis demonstrar a sua eloquência na arte de convencer: “Peixoto, meu velho amigo Peixoto, sexualmente falando, eu não diria que sim nem que não, muito antes pelo contrário…”. E o apedeuta acabou contribuindo para o enriquecimento das reservas de gozações dos mangofeiros de plantão.

Enfatize-se que não se pode afirmar ter sido o radialista-político personagem da história do “gol do Corró”, da lavra de Zé Pinto.

SEGUNDO TEMPO

O Putiú – ou melhor, Baturité – fez uma brilhante campanha, classificando-se para a fase das eliminatórias. Iria enfrentar, literalmente, uma pedreira: a seleção de Quixadá, uma das candidatas ao título máximo da competição.

Saiu-se vitorioso no sorteio: primeiro jogo lá; segundo em casa.

No jogo de ida, Ornilo teve de fazer uma alteração na equipe, pois o lateral esquerdo titular estaria em Fortaleza, no mesmo domingo, onde participaria do concurso para Agente de Coleta do IBGE. Nada de improvisação, com o reserva assumindo o posto.

Goleada. Derrota por 3 x 0, com direito a show particular do ponta direita, um jovem afrodescendente, magricela, veloz e habilidoso, a quem atribuíram o sugestivo apelido de Pelezinho.

No jogo de volta, no velho Monte Mor, campo de futebol entre o cemitério e a cadeia, restava a esperança de uma vitória, por qualquer placar, e a disputa da vaga em penalidades máximas. Com a equipe completa, pois o titular da lateral esquerda reassumira a posição, após uma semana de muita pressão, todos prenunciando um novo “baile” do ágil pontinha, a orientação de Ornilo priorizava a posse de bola e a marcação rigorosa, o que equivalia a dizer atenção especial ao endiabrado Pelezinho.

Tudo pronto para o início do prélio, da pugna, da peleja. O árbitro [naquele tempo, era juiz], o veterano Harry da Costa Ramos, autorizou a saída de bola, que pertencia à onzena da terra dos monólitos. E logo no lance inaugural, a jogada mais marcante: bola enfiada na direita, para a velocidade do “showman” da bola.

O lépido ponteiro desempenha, então, o seu papel com elegância e maestria. O marcador oferece o corredor à margem da linha lateral, e os dois disparam, lado a lado – o atacante por fora, o defensor por dentro –, no sentido da linha de fundo. Uma disputa espetacular: cabeça com cabeça, a agilidade e velocidade contra a velocidade e a determinação. Mais de mil olhos atentos ao duelo. Os contendores se agigantam. E, antes que a agilidade surpreenda a pujança, o vigor físico provoca o desfecho da jogada: descolando do corpo franzino do adversário, a perna direita servindo de alavanca, o antagonista produz com o pé esquerdo o travamento da bola ainda sob o domínio do protagonista que, em total desequilíbrio, é arremessado para além da linha demarcatória do campo. E os dois rolam pelo chão duro, desprovido de qualquer tipo de grama, sob aplausos e vaias dos inflamados torcedores.

Ato contínuo, quando todos esperavam que assumissem suas reais funções no jogo, eles se confrontam, trocam sopapos e, antes que se engalfinhem em luta corporal, a intervenção do árbitro amaina os ânimos e evita que o clima tenso estrague a festa. Quando os dois brigões se dispõem a adotar o gesto simbólico da paz, Harry os expulsa.

Então, um recorde se estabeleceu: eliminação de dois jogadores, adversários, em menos de um minuto de jogo. Ainda não havia o Guiness Book… pelo menos lá pras bandas do sertão…

PÓS-JOGO

Outra pitada de jogo político, ou melhor, o contato dos fatos ora narrados com um recorte da história da terra que os ambientou, como forma até de validá-los como tal. Em 1971, iniciava-se o mandato do doutor Marcelo Holanda no governo do município, eleito que fora no pleito de 15 de novembro do ano anterior, protagonista de uma vitória esmagadora da então Arena (situação), de que resultou o aniquilamento das pretensões de seu concorrente direto, o então MDB (oposição), que, numa estratégia suicida, dividira-se internamente, com uma ala apoiando o líder estudantil e vereador Gerardo Félix e a outra marchando com o comerciante Zilvan Rabelo; juntos, não obtiveram sequer a metade dos sufrágios conferidos ao escolhido.

Quanto ao jogo de futebol, o empate em branco eliminou os donos da casa. Infelizmente, a bola da renhida peleja não se traduziu em gol: no último lance, o “meu padim” Ribamar, que substituíra o ponta direita titular, desferiu um petardo da entrada da grande área, acertando em cheio o travessão. Era o fim do sonho.

Alguns anos depois, os baturiteenses comemoraram, em pleno estádio Presidente Vargas, a conquista do título máximo do futebol interiorano.

 

“Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir,

sobre a abstração de um gol, a cerimônia a que assisto,

neste instante, querendo chorar, querendo gritar?”.

[México 70, crônica de Armando Nogueira,

em http://contobrasileiro.com.br]

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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1 comentário

  1. Francisco Luciano Gonçalves Moreira

    Francisco Luciano Gonçalves Moreira

    A QUEM INTERESSAR POSSA…

    A Copa do Mundo de 1970, realizada pela primeira vez em solo norte-americano (México), propiciou alguns fatos marcantes:
    1) no que tange a avanços tecnológicos, a estreia da transmissão televisiva em cores e do recurso que permitia rever qualquer lance em pleno jogo, o “replay”; cabe aqui o registro de que, no meu querido Putiú (Baturité), só havia dois ou três aparelhos de televisão, todos em preto-e-branco, um deles de usufruto público, instalado na praça do bairro; como os jogos, na sua grande maioria, eram disputados no começo da tarde (em favor da transmissão ao vivo para o continente europeu), a melhor opção era invadir a casa de quem possuía um. A minha preferência: a do seu Murilo, pai de meus amigos Hélder e Assis (Neném), o então chefe da estação ferroviária.
    2) no que concerne a regras do jogo, a instituição, pela conservadora Fifa, da substituição de jogadores no curso da partida, limitada a duas por jogo; convém lembrar que, na Copa de 1962, no Chile, em que o Brasil se sagrou bicampeão, Pelé se machucou logo no começo do jogo contra a então Tchecoslováquia, permanecendo em campo apenas para compor a equipe, eis que não havia previsão regulamentar para a substituição.
    3) no que se refere a lances espetaculares, o quase-gol do meio do campo de Pelé, no jogo de estreia contra a Tchecoslováquia; a defesa monumental do goleiro inglês Gordon Banks, em cabeçada com estilo de Pelé, no jogo em que a “canarinho” venceu a forte equipe inglesa por 1×0; o drible magistral (de corpo) dado por Pelé no goleiro uruguaio Mazurkiewsky, na meia-lua da grande área, numa jogada que só não se configurou a mais marcante da Copa porque não se traduziu em gol; a renhida disputa entre os selecionados da Itália e da Alemanha, numa das semifinais, pela alternância no placar e pela definição apenas na parte final da prorrogação, em favor da Squadra Azurra (4×3), que acabou fazendo a final com o Brasil; o gol de Carlos Alberto, o último dos brasileiros na conquista do título, por toda a jogada, desde o início até o seu desfecho; e a festa memorável que os mexicanos ofereceram ao Brasil, em pleno Estádio Azteca, na Cidade do México, com cerca de 108 mil espectadores; oportuno é assinalar que a “casa” da seleção brasileira foi a cidade de Guadalajara, com o seu estádio El Jalisco.
    4) no que diz respeito à história, a conquista do tricampeonato mundial serviu de propaganda política, pois a nação brasileira se encontrava no auge da ditadura militar. Vale aqui consignar que, na fase classificatória, o consagrado técnico Osvaldo Brandão não vinha tendo sucesso, pondo em risco o futuro da seleção. Defenestrado, a CBD (atual CDF) o substituiu pelo jornalista carismático, comentarista polêmico e “sem papas na língua”, militante comunista e técnico campeão carioca pelo Botafogo, João Saldanha, que, com “as feras do João Sem Medo”, garantiu a participação brasileira na Copa. Logo depois, bateu de frente com Médici, que comandava os destinos da pátria em pleno regime militar. Declarado amante do futebol, o general defendeu a convocação de Dario – o Dadá Maravilha, o beija-flor – centroavante do Atlético Mineiro, com que não concordou Saldanha, a quem atribuem uma frase lapidar: “O general manda no seu governo; quem manda na minha seleção sou eu”. Foi demitido. A Mário Jorge Lobo Zagalo, ponta-esquerda nas campanhas vitoriosas de 1958 e 1962, coube a missão de comandar as “formiguinhas” em solo mexicano. Tornou-se tricampeão. Coisas da vida.
    E o Brasil, vestido de verde e amarelo, festejou o feito histórico sob o som da marchinha “A taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa…”, de autoria de Wagner Maugeri, Lauro Müller, Maugeri Sobrinho e Víctor Dagô.
    O então governador de São Paulo, Paulo Maluf, presenteou cada jogador com um “fusquinha” do ano. Como usou recursos do governo para bancar a homenagem, respondeu a processo por malversação de dinheiro público. Isto é Brasil.

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