A COELHA E A COBRA, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Uma história que poderia ter sido contada por qualquer um dos meus netos.

Os coelhos criados soltos no sítio do meu avô nunca receberam um nome que lhes desse uma identidade.

Até que uma coelhinha, de cor branca com uma larga faixa cinza-claro no dorso, mais parecendo uma manta de proteção, fez por onde merecer um nome: Valentina.

Ela não era selvagem. Muito menos agressiva.

Apenas mostrou um estilo que a tornava bastante diferente de todas as outras.

E isso nós percebemos logo na sua estreia como mãe.

Todas elas constroem seus ninhos escavando o solo.

Escolhem um lugar que lhes pareça adequado.

Usam as patas dianteiras como escavadeiras, o focinho e os afiados dentes frontais como removedores de pequenos obstáculos – raízes, por exemplo –, e espalham o material removido com o uso coordenado das quatro patas.

De um árduo trabalho, surgem um buraco arredondado que serve de entrada, um corredor em declive e de cerca de um metro e uma “sala” que mais parece uma grande concha. Após forrá-la com palha seca e pelos arrancados do próprio corpo, é aí que elas têm seus filhotes e os mantêm até a idade certa de enfrentar o mundo.

Enquanto esse momento não chega, mamãe-coelha, quando se ausenta do berçário, onde só vai praticamente amamentar, fecha-o com a terra retirada na escavação.

Valentina ganhou esse nome por sempre defender bravamente as suas crias.

Mantinha-se em alerta, sempre.

Em constante vigilância, a pouca distância do seu berçário, avançava contra qualquer vivente que ameaçasse dele se aproximar. Dava saltos de quase meio metro e, no ar, usava as afiadas unhas como garras. Era destemida. Era valente. Tinha de ser Valentina.

Na sua terceira ou quarta gestação, Valentina construiu seu ninho sob a sombra de um bem carregado pé de acerola.

No finalzinho da tarde de um sábado, quando o sol já havia transposto a linha do horizonte, ela deixou que seus filhotes saíssem da toca para conhecer o mundo que os esperava. E eles fizeram uma estreia sem afoitezas e até com certo acanhamento.

No domingo, bem cedo, meu avô acompanhou, de perto, o drama de uma mãe em desespero.

É que uma cobra-de-veado havia invadido o berçário, certamente já tinha engolido seus filhotes e, bem acomodada naquele ambiente calmo, entrara na fase de estagnação.

Pelo buraco de entrada, via-se apenas parte do dorso da serpente, de um marrom claro com vários desenhos, de contornos em cor preta e interiores em marrom escuro.

Valentina não se cansava de dar saltos, de bater forte com as patas traseiras no chão, num misto de raiva e impotência.

No berçário, nenhum movimento.

A mamãe-coelha começou, então, a juntar bastante terra nas proximidades do buraco. E, ágil e velozmente, empurrou tudo em sua direção. Fechou-o completamente. E ainda lhe sobraram forças para, com as patas dianteiras, bater todo aquele barro, dando-lhe maior consistência.

Concluída a ação, recolheu-se ao seu lugar de sentinela. Era como se esperasse alguma reação da predadora de seus filhotes. Que não veio.

E o meu avô completou o serviço. Recolheu uma grande pedra. Depositou-a exatamente onde a cobra-de-veado tivera acesso ao berçário de indefesos coelhinhos.

Fez isso sob o olhar fixo da valente mamãe-coelha que, com as orelhas esticadas para cima, parecia aprovar o desfecho de sua vingança.

Valentina morreu sem ter tido mais filhotes. O trauma certamente causou-lhe grave transtorno. E a fonte secou… E a tristeza pôs fim à sua vida.

Passados alguns anos, a pedra foi removida. A cova foi reaberta. E lá havia apenas um ossário… de uma cobra enterrada viva por uma brava coelha. A Valentina.

[Em MY BOOK OF THE FACE 2 – O meu livro do atrevimento, s/editor, págs. 152-154].

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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