Claudia Sousa Leitão – uma ciranda de mulheres sábias

 


Em 2015, a pedido da Secretaria de Cultura de Fortaleza, ela escreveu um livro para a ‘Coleção Pajeú’, de depoimentos sobre bairros de nascimento. Claudia Leitão falou sobre Jacarecanga, onde nasceu e ficou até os 12 anos. Essa relação afetiva marca um período importante, sua fase infantil, as primeiras brincadeiras, as primeiras compreensões de cidade, de vizinhança, de vida coletiva. É lá onde a menina Claudia se entendeu como pessoa, e de lá traz recordações de uma infância simples e sofisticada, desde a educação até as lembranças dos cheiros e dos trabalhos da cozinha, governada por sua mãe, uma avó e uma bisavó que eram paraenses e, portanto, toda culinária era importada.

Minha infância é cercada de lembranças e memórias interessantes por causa desse bairro. Havia ali perto o início de uma primeira favela chamada Morro do Ouro. Tinha uma praça onde eu ia todos os dias brincar, era a Praça do Liceu, Havia as casas  (algumas sobrevivem até hoje) da Vila pertencente à família Philomeno Gomes”.

Seu pai trabalhava no bairro e a escolha daquele lugar para morar, conta a professora, era em função disso. Bem ao lado estavam a praia, a Barra do Ceará, o cinema, a escola onde estudou nos seus primeiros anos, tudo estava bem ali.

O Externato São José, onde havia formação para ensino desde o jardim de infância, compõe lembranças encantadoras daquela vila e das crianças que eu conheci, além das festas que aconteciam na rua, as festas de São João, os natais de uma Fortaleza que era bucólica, singela”.

A casa era uma entidade! Claudia, menina, tinha a sensação de quem morava num palácio, ou num castelo. Era um sobrado com vários andares, com terraços e recantos. No lugar havia a negra empregada numa casa vizinha contava estórias à noite. As estórias eram fantásticas, e só podiam ser contados durante a noite, debaixo de uma árvore. Quando tinha lua nova, os cenários pareciam terríveis e fantasmagóricos na mente criativa daquela pequena —  “minha lembrança dessa negra é magnífica, ela mascava fumo e nos contava histórias até minha mãe me chamar para dormir”.

Entre afetos e mulheres sábias, vem o amor pela leitura, diretamente ligado à sua mãe, Ivani Leitão, uma mulher que, para fazer universidade, esperou que os filhos crescessem. Por causa da mãe, Claudia passou a infância cercada de livros.  Já a relação da menina com a televisão começa quando surgem as primeiras séries americanas – Perdidos no Espaço, Terra de Gigantes, e outras. “Os livros conduziram a minha infância, eu li tudo de Monteiro Lobato, eu li uma literatura europeia infantil, literatura francesa, livros e contos Ingleses… tudo através de uma mãe que era uma mulher muito sofisticada intelectualmente. Então a minha educação também foi muito sofisticada e rodeada de livros e histórias naquele bairro encantado”.

Muito cedo Claudia foi estudar música no conservatório Alberto Nepomuceno, com 7 anos, incentivada também pela mãe. Aprendeu a tocar flauta, cantou no coral, e lá encontrou amigos que, assim como a música, ficaram para a vida inteira. 

Sobre tantas memórias, entre elas a lembrança de sua mãe cozinhando e preparando os aniversários com semanas de antecedência, e guardando doces feitos cuidadosamente, um por um, na sala da casa, é uma recordação tão viva que traz um sorriso quase inocente quando Claudia revive esses momentos.

“Foi um período magnífico, todos estavam vivos. Convivi com mulheres fortes, mesmo na minha adolescência, quando eu já havia perdido a minha mãe. Sem dúvida é ela minha maior referência familiar e infantil. No período juvenil eu já havia perdido as pessoas que eu amo, mãe, avó e bisavó, para sempre, mas elas me seguem imaginariamente, todas juntas, a memória de uma casa onde mulheres mandavam e o papai era submisso, no sentido de que cabia às mulheres a última palavra.”

 

  1. Em que outra época gostaria de ter vivido? No Século XXII, porque o futuro é muito interessante e mais inspirador. Eu sou fã do cinema de ficção científica — dois filmes são geniais, Blade Runner I e II, obras-primas (de roteiro,  de efeitos especiais) magníficas — o futuro, sim, é muito mais inspirador. Nós estamos numa época de decadência total do político, estamos ainda no período de muito retrocesso dos Direitos Humanos, de uma decadência total dos políticos, de uma descrença das instituições, de uma visão pequena, reducionista e maniqueísta do mundo, partidos nacionalistas, partido de direita muito forte, a esquerda também, com seus radicalismos. É um momento de radicalização dos desejos, das estéticas, das éticas. É possível que daqui a 50 anos nós entremos noutro ciclo, o pêndulo talvez vá para outro lado. O planeta vive um período muito difícil, a volta dos extremos, penso que as tecnologias avançarão tanto que, quem sabe, entremos numa sociedade mais justa.

  1. A palavra que eu mais (menos) gosto– mais: amor menos: injustiça

 

  1. Um filme para ver de novo: Blade Runner ( o primeiro e o segundo)
  1. Politicamente, eu não sou uma pessoa ligada a nenhum partido, mas eu acredito muito na importância da militância política, a política no sentido aristotélico mesmo, como tem que ser. Eu pertenço a uma cidade, sou uma cidadã do mundo e estou em movimento. Por exemplo, eu participo das discussões presentes nas redes sociais; na faculdade, dirijo observatório de pesquisas com alunos; eu escrevo, publico… penso que isso é uma ação política, ela está presente em nossa vida desde o momento em que acordamos.

  1. Eu ressuscitaria o  John Lennon, ele passou um recado muito atual, parece que já previa um pouco os tempos para onde iríamos chegar.

  1. O livro que já li várias vezes: releio sempre os contos de Oscar Wilde, Guy de Maupassant, Cervantes, Catherine Mansfield, Guimarães Rosa, Machado de Assis … outros…

  1. Eu me acalmo: música

  1. Eu me irrito com a ignorância. Ela é muito próxima da truculência.  Quando nós não compreendemos algo e não temos capacidade de exercitar o senso crítico sobre determinado conhecimento, determinada situação, tendemos,  às vezes, a ser pessoas opressoras, dominadoras, e, às vezes a ignorância leva facilmente à truculência. Eu temo muito a ignorância e vejo hoje como vivemos na sociedade das informações totalmente aleatórias, no mundo das fake News, quanto mais informação, menos conhecimento, quanto mais consumo, menos educação, quanto mais a gente busca nos mercados a solução, mais a nossa vida parece insípida e pobre. Então eu considero a ignorância muito perigosa e ela já produziu muitas desgraças no planeta, muitos regimes ditatoriais, muitas mortes, muito genocídio… nós precisamos estar atentos, porque o verdadeiro conhecimento não é especialmente o que a gente vive ou que a gente acessa nas redes sociais, nos Facebooks da vida. Essas redes são importantíssimas porque elas estimulam o diálogo e o compartilhamento, mas é preciso recorrermos a uma capacidade maior de aprofundar as informações. Nesse momento há uma crise institucional e as universidades brasileiras estão tão embaixo, se sentindo desprestigiada pelo nosso governo – não se compreende o papel da ciência e da tecnologia,  não se compreende o papel da pesquisa, não se compreende o papel da cultura -, acha-se que tudo isso é desnecessário, é caro.  É um erro grave e, no final, não se constrói nem um só projeto de uma política pública estruturante, tudo é aparência, tudo é marketing, tudo é sensacionalismo, tudo é espetacular, tudo é superficial, quanto mais imagem menos imaginário, menos narrativas profundas sobre o homem e sobre a humanidade, quanto mais imagens, menos humanos ficamos, e  o conhecimento,  o saber, é algo que nos humaniza.

  1. A emoção que me domina: arte

 

  1. Um dia ainda vou: andar de bicicleta

 

  1. Existem heróis? Qual o seu? Dom Quixote

  1. Religião para mim é cultura. Eu sou ecumênica —  eu não sou uma pessoa cética, eu acredito na força do bem e acredito na força do amor, na força do encontro das pessoas. Nessa perspectiva da religião, eu me identifico porque é o que liga a algo ou a alguém, numa perspectiva metafísica. Essa parte da religião é muito interessante e é interessante desde os estudos do Émile Durkheim, onde ele vai trabalhar As Formas Elementares da Vida Religiosa, até às visões das tribos pós-modernas e da volta dos estudos das religiões. Porque no fundo as pessoas estão em busca de se entender como novos deuses, como novos muçulmanos, com as diversas possibilidades do cristianismo, as religiões afro tão perseguidas, a força absurda das religiões no sentido de uma iconoclastia muito perigosa, que anula e quer destruir as outras religiões, porque não compreendem a diversidade. Então eu entendo a religião como expressão da cultura, e sou uma pessoas que milita em favor da diversidade, a diversidade de credo, de crença, de formas de ser, de viver e de estar no mundo.

  1. Dinheiro é Dinheiro…nada mais.

  1. A vida. Como é acordarmos pela manhã, se não for por um sonho, por alguma coisa com que gostaríamos de contribuir? Eu acredito nas pequenas utopias que nos ajudam a seguir e nos conduzem como uma lanterna. Como brinca um amigo, “há túnel depois da luz”.  Então, essa luz nos indica caminho pra gente continuar andando, é o sonho que nos move, renova. Sou uma pessoa que sonha e sonha muito, o exercício do imaginário faz parte do que somos, animais simbólicos, essência da nossa existência enquanto humanos, é algo que nos dá sentido, nos empresta vitalidade e vontade de viver. Portanto, o sonho nada tem de alienador- a vida é também sonho.


  1. Se você tivesse o poder, o que mudaria: a concentração de renda

 

  1. Eu gostaria de ser: esportista

 

  1. Não perco uma oportunidade de: ver um bom filme e ler um bom livro


  2. A solidão e o silêncio: Eu sou uma pessoa que aprendeu a viver só. Às vezes eu tenho pessoas e acontecem relações, mas a perda da minha mãe muito cedo me ensinou que, a partir dos 18 anos, eu passaria a viver só, um espaço que meu pai não preencheu, nem mais ninguém. Tive casamentos, amores e histórias, tenho duas filhas muito amadas, mas eu percebo que elas têm a vida delas, nem sempre eu posso ajudá-las, nem elas a mim, no sentido dos caminhos, – eu trilho os meus e elas trilham os delas -, nos vemos, nos encontramos e temos um imenso afeto, mas somos muito independentes. A solidão é algo que faz com que você construa uma vida interior, acredito muito nesse mundo interior, e vivo isso com os meus personagens, com as minhas leituras, com as minhas plantas, eu gosto do silêncio, gosto do jardins e plantas e gosto de vê-las crescerem. Eu não sou uma pessoa especialmente sociável, eu tenho bons amigos, mas não sou uma pessoa de grande sociabilidade, eu tenho uma vida pública, participo de debate, dou aula, simpósios, falo bastante, mas na intimidade, na minha casa, eu gosto de silêncio e solidão.


  1. O Brasil é o meu estímulo para sair da cama todos os dias.

 


  1. O ser humano vai.  certos processos são muitos cíclicos, são espiralados, o ser humano vai e volta. Há período em que somos mais dionisíacos, como diria o Friedrich Nietzsche, e períodos em que somos mais apolíneos. Há momentos em que as emoções e os instintos são hegemônicos, e há momentos para a razão pragmática, instrumental. Não acredito nessa visão evolucionista, positivista, onde somos bárbaros e vamos virar civilizados, as oposições não se superam, elas se tensionam, o tempo todo é um jogo de perda e ganho. Com a gente, como indivíduos, também, estamos ganhando e perdendo o tempo todo, uma hora o lado racional ganha, outra hora o emocional prevalece.

 

  1. Eu sou: não sei quem eu sou, eu sei que há em mim muitas. Tenho a sensação de grande diversidade, de subjetividade. E essas subjetividades brigam entre si, mas às vezes, a que é mais significativa para mim, a que tem uma imensa vontade de mudar e de transformar, de pegar pela mão, de ensinar, de discutir, refletir, essa subjetividade ganha. Porque eu sou mesmo uma professora, e essa palavra me define. Isso tem muito significado para mim, minha vida inteira sempre foi cercada de jovens, alunos de todos os tipos, de todos os níveis. Sempre que entrei numa sala de aula, saí com uma energia renovada. Saber quem sou é uma coisa difícil para mim, filosoficamente falando, mas tem uma coisa importante que são os valores da ética, da honestidade, eu tive uma formação e educação muito preocupadas com essas questões. Eu me revolto com esses aspectos que estão ficando tão banalizados nas nossas vidas, ao ver as pessoas se acostumarem a viver de forma pacífica com o errado, com a mentira, com influência política. Esses traços, como fala Raymundo Faoro, em os Donos do Poder: somos tão vítimas quanto atores dessas formas pervertidas de construção social.

“Existe uma coisa muito narcísica. As pessoas não querem sair do seu trono, tudo muito descartável e ao mesmo tempo, muitos egos inflamados, em seus lugares bem colocados. Poucos estão dispostos a sair do seu trono pra se perguntarem, se questionarem,. Lembro do Fernando Pessoa, “estou farto de semideuses”, eu acho que um pouco de empatia nos faria muito bem, enxergar o outro, se colocar no lugar do outro, aquele ditado,- amar e mudar as coisas me interessa mais,- se eu não conseguir mais me compadecer com o sofrimento do outro, se eu vivo numa cidade que tem a concentração de renda que Fortaleza tem, a violência que Fortaleza tem, uma cidade que é uma das mais violentas do planeta terra, que já perdeu uma relação até com as outras cidades e está num ranking miserável no plano latino americano, eu não posso perder a sensibilidade de todo dia me lembrar de onde eu venho, o que é que eu tenho a ver com isso e qual é a minha responsabilidade, o meu lugar nesta terra, nesta cidade, e embora eu seja uma pessoa que viaja muito, estou sempre em movimento, a minha relação é muito grande com este estado,. O Ceará me deu tanto, eu devo tanto ao Ceará, e eu sempre acho que tenho que dar, de alguma forma de volta, com o meu trabalho, todo dia eu tento produzir, eu tento contribuir.”

Não importa até qual idade a professora conviveu ao lado de sua bisavó, avó e mãe. Cedo ela compreendeu a importância de ser independente, preservou o amor pelo conhecimento e pela liberdade, e busca transmitir os valores herdados de suas “madalenas”  para as duas filhas. Gosta de ser mesmo uma professora e orientar jovens alunos,  compartilhar saberes. Quem, pelo  menos por algumas horas,  ouviu uma palestra, assistiu uma aula, fez alguma entrevista, vai reconhecer que assim como em “A Ciranda das Mulheres Sábias”, Claudia “sabe das coisas”, e para quem tem esse “conhecimento misterioso”, nenhuma comprovação é necessária. Ela disse, “eu não sei quem sou, eu sei que há em mim, muitas”. Pela simplicidade não convencional, pelo não medo da solidão, pelos olhos que sorriem ao reviver a infância, por declarar “gosto mais das paixões” por tanta jovialidade, sim, há muitas em Cláudia, quem sabe, uma ciranda de mulheres sábias, onde a alma de todas elas são eternamente jovens.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, pesquisadora, Pós- graduanda em Escrita Literária educomunicadora e colunista do Segunda Opinião.

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