Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar…por Capablanca

Os negócios que envolvem apenas dinheiro nas duas pontas (a ponta compradora e a ponta devedora) costumam aparecer no noticiário envolvidos num véu de complexidade, numa nuvem de tecnicalidades inacessíveis e incompreensíveis, por mais explicadas que sejam pelos jornalistas e economistas “de mercado”. Na verdade, são simples e a explicação mais simples seria a mais verdadeira, só que ela tem lá suas inconveniências. Resumo da ópera: alguém ganha, alguém perde. Se os dois lados da operação são entes privados, particulares, nada a objetar. Como se diz nesses jogos de mercado, chapéu de otário é marreta. O problema é que mesmo aí, entre particulares, há injustiça e algum dolo, porque uma das partes tem muito mais força do que a outra e costuma também ter muito mais informação e poder de articulação do que a outra. Mas, a questão se torna especialmente delicada quando o dinheiro público entra no jogo.

Houve um tempo no Brasil, tão está tão longe, anos 1980 e 1990, em que a inflação era escandalosamente alta e a taxa do dólar dava pulos e saltos triplos e carpados em que os mesmos sempre saíam ganhando e os outro sempre saíam perdendo. Tristes tempos. Era o tempo da “ciranda financeira”. O maior industrial do Brasil, o empresário Antonio Ermírio de Moraes, fazia pregação contra esse jogo de dinheiro, essa especulação sem fim, esse esvaziamento da atividade financeira como financiadora da producão, transformando-se numa engrenagem de ganhar dinheiro sem nada fazer. A música tocava, e o país real dançava. Era a Ciranda Financeira.

Com a estabilização da moeda e fim da inflação sem freio, que teve um alto custo para quem tinha no salário sua fonte de renda, os negócios se tornaram menos opacos, alguma transparência foi alcançada e o consumidor e o assalariado recuperaram algum respeito.

Vieram os primeiros anos do novo século e o Brasil fez um ajuste cambial vigoroso. Em poucas palavras: a balança comercial ficou positiva (exportações maiores que importações), a balança de transações correntes se normalizou com um déficit perfeitamente administrável e o país acumulou reservas em dólar maiores que sua dívida internacional. O Brasil não depende mais do FMI, de comitês de bancos estrangeiros (como a Argentina voltou a ser) e o Banco Central tem as mais plenas e completas condições de manter uma taxa de câmbio estável, com oscilações pequenas normais de um sistema flutuante.

Isso é o que se pensava. Acabamos de ver em menos de dois anos o dólar oscilar de mais de quatro reais para pouco mais de três reais e voltar de novo a quase quatro reais. Num único dia, salto de quatro por cento, mais ou menos.

O nome disso não é volatilidade.  O nome disso não é mercado. Essa lei não é a da oferta e da procura. Tem algo muito errado. Quem perdeu e quanto perdeu? Será que o Banco Central, que não conseguiu manter o câmbio estável, ganhou? Ou perdeu? Como? Por que?

A música voltou a tocar.

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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