A carta é de Palocci? por Alexandre Aragão de Albuquerque

Em versos sempre muito precisos, Bezerra da Silva, um de nossos maiores sambistas, detona: “na hora da dura, você abre o cadeado e dá de bandeja os irmãozinhos pro delegado. Na hora da dura, você abre o bico e sai caguetando: eis a diferença, Mané, do otário pro malandro”.

Já tivemos a oportunidade de refletir neste site Segunda Opinião acerca da psicopatologia da vida cotidiana, estudada por Sigmund Freud, onde o autor demonstra como no inconsciente aparecem erros e falhas de linguagem e de comportamentos definindo a estes lapsos como ato falho. POR MEIO DO ATO FALHO UM DESEJO DO INCONSCIENTE REALIZA-SE, explicando assim que nenhum gesto, pensamento ou palavra acontecem acidentalmente. Ou seja, certas expressões ou construções de linguagem falada ou escrita, que numa primeira aparência podem denotar algum tipo de equívoco, na verdade configuram-se como “acertos” provocados pelo ato falho do inconsciente.

No dia 26 de setembro corrente, o ex-ministro Antônio Palocci Filho apresentou publicamente uma carta endereçada à presidência nacional do seu partido político, que deixou a muitos surpresos pelo seu formato como também pelo seu conteúdo. Vamos então fazer uma brevíssima viagem pelo documento para ajudar em nossa reflexão sobre o tempo presente.

Primeiramente é uma carta digitada e impressa. Não foi redigida de próprio punho pelo preso. Isso de per si já levanta indagações. Como uma pessoa que está presa há um ano tem acesso a computador e impressora em sua cela para redigir e imprimir uma simples carta, endereçada ao seu partido? E ainda: após um ano de prisão, poderia ou não o recluso ser vítima fácil de ceder à pressão para assinar um documento já pronto que lhe fosse apresentado, como ocorreu com alguns presos políticos em outros momentos da nossa história recente?

Em segundo lugar, alguns termos presentes na carta são muito interessantes. Por exemplo, na carta o tratamento dispensado ao juízo de Curitiba é DD (digníssimo). Será que alguém preso há mais de um ano, submetido a vários tipos de pressão, estaria atento a um detalhe como este ao escrever uma simples carta para o seu partido político? Ou teria sido ato de falho de um alguém que por ventura o houvesse “ajudado” a redigir este texto? É uma pergunta que se coloca com toda certeza para qualquer bom analista.

Por último, o escrevente afirma que há meses decidiu colaborar com a Justiça por acreditar ser este o caminho mais correto a seguir, buscando ACELERAR o processo em curso de apuração de ilegalidades e de reforma na legislação de procedimentos públicos e na legislação partidária-eleitoral, que reclamam urgente modernização. Ora, será mesmo que um preso há um ano, sob pressão as mais diversas, teria esse tipo de preocupação? Afinal, quem é mesmo que está com pressa em acelerar o processo em curso, já que 2018 está batendo à porta? Mas para surpresa dos leitores, na segunda parte da carta, na opção entre o público e o privado, o escrevente se contradiz e afirma: “Nas últimas décadas, sempre me decidi pelo PT, pela política, e minha família sempre aceitou, suportou e sofreu com isso. Agora decidi pela minha família!”. Uma total contradição com o afirmado acima. Sua opção é pelo privado, não pelo público. Seria mais um ato falho de quem o “ajudou” a redigir o texto?

A exceção no Brasil, segundo o jurista Pedro Estevam, não ocorre pela anomia, mas por uma hipernomia voltada para punir os pobres das Rocinhas, como também aqueles que não fazem parte da suruba golpista implantada em 2016, para aproveitar o termo de um senador. E ainda vale a pena lembrar que das 10 Medidas defendidas por alguns procuradores para reformar “a legislação de procedimentos públicos”, pelo menos 07 são inconstitucionais, beirando o autoritarismo, no parecer de vários ilustres especialistas defensores da democracia. E assim indagamos: o que fazer para retomarmos nosso curso democrático?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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