Capitão América – O Soldado Invernal: E a dialética dos tons e intenções

Discutir as adaptações de histórias em quadrinhos (HQs) de super-heróis precisa ser um exercício dialético entre tons e intenções. Sem dúvidas. Mas quando falamos de cinema, a imersão é invariavelmente acerca de uma gama de outros elementos que não obstante margeiam as reflexões nas quais nos debruçamos. Alguns realizadores têm conseguido esse fluir em determinados trabalhos ao longo dos últimos anos. E a exemplo dessas positivas descobertas é que nos vêm longas como o irretocável “Capitão América: O Soldado Invernal” (2014).

Sequência de Capitão América: O Primeiro Vingador, o filme narra os dias do super soldado Steve Rogers (Chris Evans), logo após os eventos ocorridos em Vingadores (2012). Depois de ter sido congelado ainda no período da 2ª Guerra Mundial, Rogers retorna nos dias atuais tendo de enfrentar uma ameaça interna que põe em risco a integridade da S.H.I.E.L.D, equipe a qual faz parte, assim como a sua própria pela defesa irrestrita de seus ideais de liberdade.

E se algo torna esta adaptação distinta é exatamente o fato de os temas que perpassam o seu enredo serem tratados de forma muito polida durante as suas 2 horas e 15 minutos de duração. Logo, falamos de um trabalho que se assume claramente como obra advinda dos quadrinhos, mas que se posiciona como filme iminentemente de ação. Para isso foi que Joe e Anthony Russo traçaram códigos que até então não tínhamos explorados mais profundamente nas obras do Universo Cinematográfico Marvel.

Pois como falamos, estamos diante de um filme de ação. E isso é pontuado certeiramente pela escolha de se reduzir a influência da Computação Gráfica (CG), excetuando-se nas sequências de maior complexidade, assim como nas cenas de risco ou de explosões envolvendo as bases da S.H.I.E.L.D, por exemplo. O longa, à propósito, recebeu indicação no Oscar 2015 na categoria de efeitos visuais.

O uso da computação gráfica no filme se resume às sequências de risco e de maior complexidade. E isso por si o potencializa como uma obra de perfil mais naturalista.

Assim, é interessantíssimo ver a escolha da direção em extrair o máximo do que os atores e seus dublês podem executar nos momentos de combate corpo a corpo. E apesar de falarmos de um ponto técnico, é curioso como esses elementos, na verdade, estão implicados diretamente no próprio conceito do filme. Uma vez que, tanto em forma quanto em sentido, o Soldado Invernal trata de contenção.

Porque olhando para o enredo do longa, Steve e sua equipe lutam em número bastante reduzido e contam com recursos mínimos. E esse tom também se emula na maneira como os diretores moldaram a primeira obra por eles realizada junto ao selo Marvel. Capitão América, por esse motivo, não é o herói de feitos extraordinários em escalas de efeitos visuais inebriantes. Não. Ele é o super-herói possível.

Ou seja, o que vemos nas principais sequências de ação do longa são belíssimas e críveis cenas de luta que tão bem referenciam marcantes produções como A Identidade Bourne (2002) e Operação Invasão (2011). A força do herói aqui representado vem do fato de sua aura repousar exatamente em sua habilidade em combate ser tão bem orquestrada. São pontos ao cinema pensado como prática naturalista e que tem na ação uma beleza que emerge nesse “balé de socos e pontapés”.

Sabemos que estamos diante de uma estória de super-heróis. Mas em Soldado Invernal, mesmo essas figuras não são capazes de passar por cima de tudo. Daí a existência no curso do filme de trechos tão firmes como as sequências do atentado à Nick Fury numa rodovia de Washington ou do embate do Cap. com uma dezena de soldados da STRIKE dentro de um elevador. É dessa contenção que o sentido do filme ganha forma, na verdade.

Como filme de ação, o longa aposta nas sequência de luta corpo a corpo como elemento potencializador da figura do super-herói.

Porque aqui, os heróis não enfrentam uma ameaça sob a forma de um vilão com intenções de dominar o mundo. Joe e Anthony entendem que, se essa é uma estória crível, nada mais coerente do que problematizarmos o enredo trabalhando a corrupção como um adversário implacável, que passa a ser interpretado pelo personagem de Alexander Pierce (Robert Redford) e sua intenção em tomar o controle armamentista da S.H.I.E.L.D.

Falar sobre longas que adaptam HQs de super-heróis não é apenas dizer do fantástico e muito menos relegar esses trabalhos à maculosa aura do fazer descompromissado com a técnica e a reflexão sobre os conflitos de nossos tempos. Pelo contrário. É aproveitar a oportunidade de inserirmos camadas mais extensas que nos levem, sempre que possível, a um frutífero pensar ideológico e político. É esse o fio que Joe e Anthony Russo conseguiram ativar com Soldado Invernal.

Falar de obras adaptadas de HQs é oportunidade de inserirmos camadas mais extensas que nos levem a um frutífero pensar ideológico e político.

De um fazer cinematográfico em gênero que não se deixa neutralizar pelo traço da esteriotipia das obras que apenas revisitam formas e sentidos já desgastados pela prática. O que dizer dos filmes dos últimos cinco anos da DC no cinema? Certamente muito pouco e de quase nenhuma relevância para esse cinema de multicamadas. Ponto esse que nos leva ao questionamento das motivações dos longas adaptados.

Precisamos de um Liga da Justiça em dois volumes, sendo um deles com pretensão de 3 horas de duração? Certamente não. Mas para a honra e glória do cinema que trabalha a adaptação das HQs é que longas como Capitão América: O Soldado Invernal serão lembrados ainda por muito tempo como os trabalhos que nos trouxeram novos pontos de vistas em uma relva vasta que une distintos universos em folhas de papel e objetivas das lentes cinematográficas.

 

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Captain America: The Winter Soldier

Tempo de Duração: 135 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2014

Gênero: Ação, Aventura

Direção: Joe Russo e Anthony Russo

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), acadêmico em Audiovisual-Cinema na Escola Publica de Audiovisual Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no Segunda Opinião.

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