BRILHA UMA ESTRELA, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Na quinta-feira passada, dia 05/04, o Brasil e o mundo viveram uma das páginas mais significativas do século XXI. O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva recebera ordem de prisão do juiz de Curitiba, resultado de um processo viciado, sem provas razoáveis que justificassem sequer a aceitação da denúncia, conforme atestam centenas de renomados juristas nacionais e internacionais, configurando uma clara perseguição ao Presidente, que a partir daquela data tornou-se o primeiro preso político da história do Brasil constitucional de 1988.

Como todo líder popular autêntico, após receber a sentença, Lula dirigiu-se para São Bernardo do Campo, berço do nascimento de sua práxis, para junto com todos aquelas e aqueles companheiros de estrada, realizar o seu último e legítimo ato político antes da prisão. Na sede do Sindicato dos Bancários, foi recebido calorosamente por dezenas de milhares de homens, mulheres, adultos, jovens e crianças. Permanecendo lá até o sábado, de onde viajou, após a celebração de um ato ecumênico em memória de Marisa Letícia, sua esposa. Antes de seguir lavrou em alto e bom tom que a partir daquele momento deixava de ser uma pessoa individual para ascender ao patamar de símbolo de um ideal coletivo democrático brasileiro, de justiça e de igualdade de oportunidades para todos, deixando uma marca indelével nos corações e mentes presentes e futuros.

Um território particular é o espaço de manifestação de fenômenos humanos autênticos que marcam a história da humanidade. Impossível pensar em Teresa sem a sua Calcutá; Gandhi sem a sua Índia; Zumbi sem o seu Palmares. Enquanto berço acolhedor dessas personalidades, o território é uma espécie de guardião da memória das inspirações e práticas mais carismáticas desses fundadores. Entre estas marcas, a literatura registra uma das mais significativas. Narrado no evangelho de Mateus 28,10 há a descrição de um dos episódios marcantes: Jesus ressuscitado se aproxima das mulheres e determina que todos fossem à Galileia, onde tudo começou, porque lá iria revelar-se a eles para confortá-los, animá-los e fortalece-los, para reviverem a sua experiência fundante e seguirem adiante com vigor.

Além disso, a injusta prisão de Lula inaugura também um novo momento de sua existência: a do sofrimento público de um líder perseguido. E permite com isso que as contradições pelas quais se foi construindo a arquitetura do Golpe de 2016 venham ainda mais em evidência. A título de registro, primeiramente destaca-se que enquanto Lula recebia diversos telefonemas e mensagens de apoio de estadistas do mundo inteiro, Moro e Carmen Lúcia eram homenageados num prostíbulo de luxo de São Paulo. Em segundo lugar, a Corte Suprema brasileira encontra-se literalmente dividida em relação aos procedimentos do juízo de Curitiba. O Ministro Gilmar Mendes, ao pronunciar-se em sessão plenária recente do STF, condenou o empoderamento do estamento jurídico de primeira instância juntamente com a processualística curitibana, denunciando abertamente casos de corrução na Lava Jato: “Já que tem o Código Penal de Curitiba, que se crie a Constituição de Curitiba e rasgue-se a Constituição brasileira. (…) Afinal, o dr. Moro fala com Deus?”. Um estamento constitui sempre uma comunidade na qual os seus membros AGEM CONSCIENTES de pertencerem a um mesmo grupo autoproclamando-se qualificados para o exercício do poder. A situação estamental é a marca dos indivíduos que aspiram aos privilégios de grupo e ao status que irão desfrutar sobre toda a sociedade. Calca-se, portanto, na desigualdade social, esforçando-se por obter vantagens materiais e espirituais exclusivas. Acham-se os iluminados numa sociedade de cegos.

E por fim, nesta semana, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP), denunciado por haver recebido propinas da Odebrecht, a pedido da PGR, cujo procurador solicitante é primo de um senador do DEM, teve seu processo deslocado da Lava Jato para a justiça eleitoral. São as evidências das contradições que explicitam a base material do Golpe 2016.

Estamos na primeira semana desta nova página de nossa história. Onde iremos parar? Difícil resposta. No momento a única coisa que se consegue enxergar é o brilho de uma estrela, sem medo de ser feliz.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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