Branco Sai, Preto Fica: E o cinema como lugar da contradição, por Daniel Araújo

Da nossa memória fabulamos nóis mesmos. E é desse fabular que a cinematografia brasileira tem encontrado as mais autênticas formas de se afirmar como um fazer de resistência em meio a um tempo imerso em contradições. Por isso o “nóis” contido nos créditos finais do brilhante “Branco Sai, Preto Fica” (2015) se coloca como lugar do pronome para repensarmos metaforicamente nossas formas de encararmos nossas produções no cinema e o modo como olhamos para a realidade que nos cerca.

O cinema brasileiro, assim como o escopo da cinematografia ao redor do mundo, pôde ser categorizada pelo conjunto dos seus ciclos ao longo das últimas décadas. Olhar para a produção nacional contemporânea sob essa perspectiva, entretanto, nos parece uma via muito limitada. E quando falamos dos trabalhos de realizadores como Adyrlei Queirós, essa consideração precisa ser revista com mais precisão ainda.

Marcados pela violência policial do final dos anos 1980, dois moradores de Ceilândia, no Distrito Federal, se juntam a um visitante do futuro, Dimas Cravalanças (Dilmar Durães) para tramar a derruba do sistema político brasileiro. Em seu segundo longa-metragem, Adyrley parte de eventos reais ocorridos com Marquim da Tropa (Marquim) e Shockito (Sartana) para contar uma estória híbrida. Ele mescla os elementos do documentário e da ficção para criar em cima disso uma narrativa fabulosamente autêntica.

O filme parte de eventos reais ocorridos com Marquim da Tropa (Marquim) e Shockito (Sartana) para contar uma estória híbrida, mesclando documentário e ficção criando em cima disso uma narrativa fabulosamente autêntica.

E aí falar desse caráter da fábula é algo essencial para entendermos a obra de um realizador como Adyrlei. Ele entende os conceitos e paradigmas do cinema e por isso nos dá uma versão muito honesta acerca dos modos de lidarmos com a experiência cinematográfica. Um desses conceitos é o sentido de autonomia no processo de feitura do filme. Ou seja, dos termos que a direção e o restante da equipe acordam para que a obra ganhe autenticidade em sua forma final.

O ato de ouvir foi o dispositivo que conduziu a criação de Adyrlei e sua equipe. Marquim da Tropa e Shockito, no longa chamado de Sartana em alusão ao personagem clássico do Western Spagueti italiano, propuseram a forma como gostariam de ser colocados na obra. Esse gesto é fundamental para entendermos como o cinema, na prática, reverte a lógica da representação que oprime aquele que é, em termos de gênero, documentado.

E na lógica viciada do nosso modo de captar a “realidade” por meio de um distanciamento entre aquele que faz e o que é “captado”, Branco Sai, Preto Fica se coloca como um ponto de intersecção. Do cinema que se posiciona diante da realidade, não para explorá-la abstratamente sem um grau de compromisso ante o que é filmado (Garapa – 2009). Mas para dar uma oportunidade desses atores construírem suas próprias versões daquilo o que viveram.

O filme se posiciona diante da realidade, não para explorá-la sem compromisso ante o que é filmado. Mas para dar oportunidade desses atores construírem suas próprias versões daquilo o que viveram. Em cena, vemos Dilmar Durães como “Dimas Cravalanças”.

Porque o que esses personagens ansiavam era ter a oportunidade de contar por eles mesmos as suas trajetórias, ao mesmo tempo em que fabulariam sobre elas dentro das possibilidades que o cinema permite. Por isso a ideia de ficcionalizar a realidade é um conceito chave no entendimento desse longa. E aqui, Adyrlei potencializa a estética híbrida do documentário ficcional que já havia apresentado no antecessor A Cidade é uma Só? (2007).

Em “Branco Sai”, temos um filme que é apresentado como uma memória ativa desse “topos” brasileiro e um ato de reação dos personagens da história em cima dos fatos por eles vivenciados. Um exemplo disso é o dispositivo de representação utilizado no prólogo do filme. Operando uma mesa de som, Marquim reconstrói os eventos de um baile ocorrido numa noite de domingo na antiga Ceilândia. Suas lembranças e sua fala são os dispositivos para a criação da cena.

Falar dessa sequência é dizer do todo que o filme é. Afinal, aqui não temos uma recriação desgastada pelo uso e que se vende como vanguarda. Nem “não atores” treinados por Fátima Toledo com intuito de emular uma representação da dinâmica periférica brasileira. Não. Temos um homem, ator da própria vida, reconstruindo um evento que marcou tragicamente seus dias em função da violência de um Estado opressor.

Sua narração é o fio que nos conduz pela linha de um tempo que pra ele, como percebemos, é uma trilha nostálgica apesar da alegria do que fora vivido. Nós não estivemos naquela noite de Ceilândia. Mas vemos tudo pela “janelinha” que Marquim brilhantemente cria a partir do seu lugar de fala.

A sequência é reveladora porque nos dá uma abordagem não convencional em termos de estética. Há representação por aquilo o que o narrador nos fala e há uma autenticidade irrefutável por meio do espantoso naturalismo com que somos levado para esse passado remoto de 1987. Aliado a isso, Adyrlei incorpora o elemento documental das fotografias desses bailes como apoio para a narrativa ali desenvolvida.

E ai temos a junção final que é o tom do filme em termos estéticos e de conteúdo. Temos a descrição embasada pela memória de Marquim e toda sua potência performativa que congrega improviso e criação com a soma das fotos intercaladas em alguns planos e o áudio de uma ambiência daquilo o que ocorreu na noite da intervenção policial, ou seja, bombas, gritos e latidos de cães. Em tese, essa é a estrutura base na qual o longa se ancora. E a partir disso, se expande.

O realizador Adyrlei Queirós é um dos nomes da nossa cinematografia contemporânea que entendem a importância de olhar para o cinema como um espaço de discussão das contradições.

Assim, Branco Sai, Preto Fica é um filme que nos leva ao encontro do debate sobre a contradição. De entendermos o lugar do cinema como um espaço de contradição. De uma oposição à fórmula de idealização de uma periferia composta por personagens x em situações y.

Mas sim onde podemos contestar o próprio lugar onde estamos a partir de um ato de rompimento com toda lógica que nos oprima enquanto cidadãos dotados de tantas subjetividades. É contra essa aura perversa que os personagens de Branco Saí lutam. Que o necessário cinema de Adyrlei se contrapõe.

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Branco Sai, Preto Fica

Tempo de Duração: 95 minutos

Ano de Lançamento (Brasil): 2015

Gênero: Documentário, Ficção

Direção: Adyrlei Queirós

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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