Bons negócios não decorrem de golpes de sorte, por Capablanca

A receita para destruir um país e para golpear uma nação é simples. Ela começa com a anulação dos efeitos de uma eleição legal e legítima para a função mais alta da República. Arranje um pretexto qualquer e articule-se com as altas cortes e deponha o eleito (ou a eleita). Simples assim: cancele os cento e dez milhões de votos. A partir daí, tudo pode.

O Vice foi eleito, dirão. E foi. Mas foi eleito para executar o programa apresentado na campanha. Não o seu contrário.

Agora, aplique a doutrina do choque e faça tudo o que quiser. A população não reagirá enquanto durar o choque, a surpresa.

Você pode legislar com um Parlamento submisso e retirar direitos e garantias fundamentais dos mais humildes para agradar os mais poderosos, mas, sobretudo, pode fazer negócios e transações que jamais seriam feitas em condições normais. Quer um exemplo: liste as maiores e melhores e mais bem geridas empresas do país ou aquelas que operam setores estratégicos. Veja quem está interessado em comprar, assumir o controle ou fazer parcerias. Ou, ao contrário, quem tem interesse em enfraquecê-las ou destruí-las. Grandes oportunidades de intermediação comissionada surgirão imediatamente.

Quer uma lista: pode transformar as ações preferenciais da gigantesca Vale em ordinárias; pode fatiar a Petrobrás em pedaços e vender baratinho, baratinho; pode fazer uma (digamos) ‘parceria estratégica’ da Embraer com uma empresa estrangeira; pode esmagar a maior produtora e exportadora de proteína do mundo (a muito competente e meio marginal JBS); pode vender a preço de coca-cola os bilhões de barris de petróleo do pré-sal; pode simplesmente privatizar o sistema Eletrobrás a preço de banana; no embalo, esvazie de qualquer fôlego ou recursos o sistema BNDES (a banca privada vai adorar!); e, ainda sem perder o impulso, enxugue para vender na bacia das almas o Banco do Brasil e a Caixa Econômica. Discretamente, facilite o acesso dos investidores estrangeiros aos aquíferos do Sul e às reservas ecológicas da Amazônia; não esqueça de permitir a venda de grandes terras agricultáveis aos gringos (vai ser uma festa). En passant, esvazie de recursos orçamentários os serviços públicos de saúde e educação, sim, claro, isso abrirá uma passarela apoteótica para os grandes grupos corporativos privados loucos para aumentar o tamanho da mordida. Bons negócios não decorrem de golpes de sorte.

Reação da população é improvável. Para evitá-la, apenas por precaução, firme uma parceria sólida com a grande imprensa. Esses assuntos é melhor ficarem discretos. A parceria com a imprensa se destina muito mais a manter um certo clima de permanente otimismo. Pode-se perder tudo, menos a esperança.

A próxima eleição vai chegar? Arranje um jeitinho de evitar que esses “populistas” voltem ao poder. Convença os eleitores de que tudo de ruim é culpa deles. Ou impeça-os de concorrer, mobilize o poder de justiça, explore as possibilidades da interpretação da lei, este é um vasto mundo e você não se chama Raimundo.

E se mesmo assim eles vencerem as eleições?

Bem, dê um tempinho e comece tudo de novo. Não esqueça de dizer que a vitória foi uma fraude.

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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