Bom dia, tristeza, por Gilvan Mendes

 

Escrito em 1954, o livro ”Bom dia, tristeza” da renomada autora francesa Françoise Sagan, narra o ponto de vista de uma jovem garota com costumes liberais se deparando com o relacionamento do seu pai viúvo com uma mulher mais velha e tradicionalista. Com a liberdade ameaçada, a jovem tenta burlar o namoro do pai, entretanto, as consequências das suas ações não são nada benéficas e a adolescente desenvolve um sentimento que nunca tinha experimentado: a tristeza. O Brasil deTemer parece compartilhar esse sentimento atualmente, depois de um relativo período de desenvolvimento e estabilidade, estamos ameaçados por um futuro sombrio, liderado não por uma madrasta controladora, mas pela força do atraso e do autoritarismo que cada vez mais ganha espaço na sociedade brasileira. 

Aécio Neves conseguiu escapar do crivo da justiça graças aos seus companheiros de vida pública. O Senado brasileiro decidiu que entre fazer a coisa certa e proteger sagradamente um companheiro colocando em risco a crença do cidadão na política formal e na própria democracia, vale mais a segunda opção. Indignação para os mais jovens, melancolia para os calejados. A política brasileira parece o enredo de um filme que tem como única intenção chocar o telespectador. FHC, como toda pessoa minimamente informada, criticou a medida bizarra do governo de dificultar o combate ao trabalho escravo, classificando o ato como ”retrocesso inaceitável”. Já não basta Temer ter a antipatia da maioria dos brasileiros, agora até mesmo um nome importante de um partido essencial para a sua base aliada repudia suas ações publicamente. O presidente e seus aliados parecem não se importar com nada disso. Infelizmente, os trabalhadores escravizados não podem dizer o mesmo. 

No meio dessa anomia, como diria Émile Durkheim, temos o fortalecimento da extrema-direita liderada por Jair Bolsonaro. A tática usada por eles é tirar a legitimidade da esquerda usando frases e ideias fáceis, maniqueístas e que demandem pouco tempo de reflexão. Não é por nada que o ”mito” tenha tanto seguidores em páginas de ”humor” na internet. Enquanto a esquerda fala para acadêmicos e jornalistas politizados, os conservadores fãs da família Bolsonaro, usam os questionamentos e aborrecimentos do eleitor médio em seu favor. Bela tática, se não fosse usada em favor de um projeto político autoritário

O futuro da democracia brasileira dependerá não somente do resultado da eleição de 2018, mas das consequências práticas dessa ”guerra” ideológica vista hoje na sociedade civil. Além, sem dúvidas, do resultado final das investigações da lava jato.Que as ideias democráticas vençam no final dessa confusão. Se não, a tristeza se tornará uma parceira fiel para a maioria dos brasileiros.

Gilvan Mendes Ferreira

Gilvan Mendes Ferreira

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará.Com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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