As Boas Maneiras: e as inerentes condições do riquíssimo cinema brasileiro

Os filmes de Juliana Rojas e Marco Dutra configuram uma das mais ricas experiências cinematográficas brasileira dos últimos 10 anos. Juntos, os realizadores dividem desde o período da Faculdade, ainda no início dos anos 1990 e 2000, um trabalho que tem no exercício da realização em audiovisual e o prazer instigante da pesquisa e da cinefilia, sua maior força. E dado um segundo projeto de longa metragem assinado em codireção, todos esses pontos anteriormente explorados se encontraram em uma das obras mais originais do ano.

Em As Boas Maneiras* (2018), acompanhamos Clara (Isabél Zuaa), uma enfermeira solitária da periferia de São Paulo que é contratada pela misteriosa Ana (Marjorie Estiano), para cuidar do seu futuro filho. Mas uma noite de luz cheia, entretanto, mudará para sempre o rumo das vidas dessas duas mulheres. E como a própria estrutura da sinopse nos indica, temos aqui pelo menos dois filmes. Partir de uma análise da sua montagem, faz bastante sentido, nesse caso.

Assinada por Caetano Gotardo, outro excelente realizador e parceiro de Rojas e Dutra em outros trabalhos, a montagem do filme se ramifica em dois tempos. Um, ligado a um estar presente ou passado, quando acompanhamos a construção do laço entre Clara e Ana. E outro relacionado a um estar Futuro, que avança essa linha temporal  nos mostrando um desdobramento dos atos frutos da primeira parte do longa. O primeiro excerto, no entanto, aparece mais bem desenvolvido do que sua outra metade seguinte.

Antes de tomar isso como um limitador da obra em si, mais vale olharmos pela ordem dessa divisão como fruto das apostas e afirmações que os diretores se permitiram tomar em meio à miríade de temas e tons que o longa leva na sua formação. Porque se em Trabalhar Cansa (2011), primeiro trabalho codirigido pelos realizadores, há um tom na narrativa que só avança até certo ponto. Ela tem seu clímax e resolução, mas se encera em suspensão. Em As Boas Maneiras, vemos, na verdade, esse ato de os realizadores esticarem a teia narratológica do qual o filme se faz, mas dessa vez para ir um pouco adiante.

As Boas Maneiras se apresenta brilhantemente como um drama social, um romance, uma fábula, uma história de terror e um musical dentro de um só projeto.

O filme rompe as cordas do que é apenas sugerido, já que também há um mito no enredo de Trabalhar Cansa, para se imaginar em um lugar onde ambos os realizadores ainda não haviam estado em suas vivências de longa-metragem: a experiência da construção gráfica no tocante ao terror. E aí o grafismo das imagens construídas pelo ótimos efeitos de Computação Gráfica e maquiagem endossam as apostas assumidas pelos diretores. As cinefilia ai se atesta com as correlações diretas que podemos fazer com David Lynch (Eraserhead), David Cronenberg (Shivers) ou John Landis (Um Lobisomen Americano em Londres), mestres do horror no cinema de gênero dos anos 1970 e 1980.

Portanto, as referências estão todas ali. E é muito positivo quando vemos uma obra e seu realizador se desafiarem, indo um pouco mais fundo onde os trabalhos que o antecederam não haviam ido ainda. Se essas decisões estéticas e de sentido serão uma nova tônica nas assinaturas de Juliana Rojas e Marco Dutra, só o futuro dirá. Mas não podemos dizer que eles não experimentaram.

A ordem do experimento, a propósito, nos leva para o fértil campo da natureza miscelânica de As Boas Maneiras. Afinal, o filme é um drama social, um romance, uma fábula, uma história de terror e um musical dentro de um só projeto. E para se assumir uma obra com essas características é preciso muita segurança do que se deseja enquanto realizador. Coragem essa que se exige como um fator de distinção do autor contemporâneo.

Porque o diretor pode lançar as bases de uma narrativa fabulesca, mas no seu afã de encantar, acaba por alienar. Guillermo del Toro e seu “A Forma da Água” (2017) é exemplo disso. É o projeto superestimado que se reverbera mais pela histeria coletiva de um público iniciado ou não na apreciação cinematográfica, do que pelos seus próprios poucos méritos. Felizmente, em As Boas Maneiras não percebemos isso. Nós sentimos o esforço dos realizadores em tornar o filme o mais palpável possível dentro dos próprios riscos que ele corajosamente assume. Isso define a boa cinematografia contemporânea.

Acima, a dupla de diretores Marco Dutra (esquerda) e Juliana Rojas (direita) durante divulgação do filme.

Como um dos trabalhos mais distintos dessa riquíssima leva de longas brasileiros realizados nos últimos anos, o filme dosa o que é potência (naquilo o que é implicitamente dito via caracterização política desenhada pelas suas personagens e nas situações em que se inserem) e também incertezas (a partir das inúmeras janelas interpretativas que nós, enquanto espectadores, podemos aferir a cada nova vez que nos encontrarmos com esse que é, sem dúvidas, um dos maiores trabalhos realizados no Brasil).

É interessante percebermos como o longa cita seus personagens e pinta as situações por ele vivenciadas sem o peso de um discurso apológico e reacionário, por exemplo. Obras como Polícia Federal: A lei é para Todos (2017) é um péssimo modelo disso, a propósito. As Boas Maneiras toma outra via.

Refinado, apresenta sua protagonista como uma síntese do brasileiro que batalhou pela sua afirmação social entre 2003 a 2011. Clara é a profissional que ascende na escala nacional saindo da condição de cuidadora à enfermeira do Programa Saúde da Família. Ela é o incômodo encardido nos discursos de uma parcela da população brasileira que, na atual conjuntura política, acredita na ingênua ideia de que as recentes manobras do Poder livrarão o País de suas reais dificuldades.

Por isso, e por tantas outras razões que rompem os limites desse texto, é que assistir, discutir e passar a diante um filme como As Boas Maneiras é parte fundamental de uma gênese sobre uma nova forma de olharmos e pensarmos nosso cinema brasileiro criticamente. Por meio da força e distinção que sempre foi inerente a ele, independente do período histórico.

 

*As Boas Maneiras está em cartaz em sessões diárias no Cinema  do Dragão.

FICHA TÉCNICA

Título Original: As Boas Maneiras

Tempo de Duração: 135 minutos

Ano de Lançamento (Brasil): 2017

Gênero: Drama, Horror, Musical

Direção: Juliana Rojas, Marco Dutra

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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