Blade Runner 2049: E os movimentos de permanência e reconfiguração sci-fi, por Daniel Araújo

A ideia do blockbuster cult nos leva à pertinente reflexão sobre a natureza da cinematografia industrial desenvolvida ao longo das últimas décadas. Dentro desse contexto, a ideia de um cinema de autor é um dos pontos mais fortes de reafirmação a uma produção cinematográfica que respeite a posição autoral de seus realizadores, ao mesmo tempo em que apresente ao público trabalhos dotados de sólidos conceitos que unam o prazer do entretenimento vinculado a um estar reflexivo sobre as questões da nossa contemporaneidade.

Compondo um pouco dessas considerações em aliança com os códigos do cinema de ficção científica, foi que o cultuado realizador franco-canadense Dennis Villeneuve, criou seu Blade Runner 2049. No longa, acompanhamos a trajetória de “K” (Ryan Gosling), um jovem caçador de androides, conhecidos como Replicantes*, que descobre um segredo a muito tempo esquecido. A descoberta o leva à procura de Rick Deckard, (Harrison Ford), um oficial aposentado que outrora exerceu o mesmo ofício de K e cujo paradeiro esteve desconhecido ao longo dos últimos 30 anos.

Apesar de conter uma narrativa ligada diretamente ao primeiro longa lançado por Ridley Scott no início dos anos 1980 (Blade Runer, 1982), o longa tem na mescla da inserção de novas camadas e desdobramentos narrativos junto à preservação dos aspectos da obra original sua maior força. Falar, portanto, da noção de autoria pode ser um bom ponto de partida para uma análise. Importante notarmos, portanto, que Villeneuve em momento algum pretendeu ultrapassar o longa antecessor.

Antes, usou a noção de complementaridade para criar uma nova obra que dialogasse tanto com o público que já havia tido contato com o universo de Blade Runner, quanto com aqueles que muito pouco ou quase nada tinham visto sobre seu universo. Em seu caráter referencial, o longa retomou o rebuscadíssimo trabalho entre o que é design de produção, assinado por Denis Gassner e fotografia, dirigida por Rogers Deakins, para materializar a atmosfera visual de “2049”.

Analisarmos o trabalho de Deakins é parte fundamental do entendimento do filme em toda sua grandeza. Em que se pese, obviamente, a merecida premiação com o Oscar 2018 de melhor Fotografia.  Deakins havia recebido dezenas de indicações anteriores e injustamente nunca havia conquistado o prêmio. Há uma estilização inebriante que reveste cada plano no qual o longa se constitui e tudo isso é assumido pelo jogo de sombras e luzes que banham os cenários de uma beleza singular. São espaços, muitas vezes imensos, mas que não dispõem de muitos objetos de cena. E naquilo o que não é excesso, a fotografia e a iluminação preenchem os quadros completando o ideário estilizado do filme.

Há um forte senso de estilização que distingue o longa em sua perspectiva estética. Créditos: Divulgação

Mas se a técnica é a forma contida em “2049”, a ideia por trás da estória é o que podemos dizer de seu sentido. E aí, as mãos de Villeneuve trabalharam com Hampton Fancher e Michael Green para a criação de um roteiro fechado na narrativa que ele se propõe a contar. Não há lacunas sem respostas, apesar de sentirmos que nem todas as respostas estão lá para serem dadas. Notar isso é sempre um positivo sinal de uma cinematografia contemporânea que acredita no exercício de não subestimar o olhar do espectador. Entendemos estar diante de uma ficção científica em função dos códigos inerentes do gênero.

Carros voadores, hologramas gigantes que cortam os céus de uma Los Angeles envolta numa bruma incessante fruto de uma sociedade pós guerra nuclear. O limite entre esses pontos todos passa pela sobriedade de um cinema industrial que opta pelo uso e construção dessas narrativas a partir do uso de efeitos práticos, por exemplo. O caro que “K” usa não é totalmente feito em Computação Gráfica (CG). Podemos notar em alguns momentos um maquinário de um veículo em set. Isso é a praticidade que configura parte do bom cinema de ficção científica deito atualmente.

O foco do filme, nesse sentido, está centrado na sua estória. Esqueçamos os exageros das sequências de perseguição desses carros voadores com explosões, ainda que em caráter prático. Aqui, Villeneuve segura esses gatilhos o máximo possível. O clímax da obra traz um ponto de ação mais convencional, mas mesmo o enfrentamento que vemos em cena tem uma variação tonal distinta do sci-fi clássico e/ou contemporâneo. Lembrarmos de A Origem, por exemplo, é uma questão.

A música em “2049” não está para ditar a ação, compreendida aqui como o conjunto da sequência enquanto performance do elenco, montagem e fotografia. Notado o encaminhando ao ato final do filme, a trilha sonora original composta por Hanz Zimmer e Benjamin Wallfisch, nesse caso nos dá um sinal de uma situação de perigo, mas em momento algum objetiva guiar nosso envolvimento com a cena. No filme de Nolan, ao contrário, a trilha é quase um condutor direto e de efeito da ação. Essas são distinções interessantes que nos mostram a variação contida entre as obras de gênero contemporâneas. Não estando, por essa razão, necessariamente em dissonância.

É claro que, no meio de uma avalanche de outros pontos, poderíamos ressaltar o uso de protagonistas compostos por uma natureza e psique opaca, quase intransponível. No caso de “K”, por exemplo, há sempre um lado do personagem que sentimos não conseguir acessar. Podemos considerar isso como um dado que o dota de consistência, já que  nos aproximamos dele enquanto espectadores. Tudo o que sabemos dele nos vem pela própria dinâmica que é construída durante a sua jornada. No filme, isso é exemplarmente arquitetado por meio de um sóbrio exercício de construção de personagem liberto da maldição dos diálogos expositivos (a maioria das considerações de “K” são expostas pela ação inerente às situações vivenciadas por ele).

Por essa atenção aos aspectos da dramaturgia e todas suas especificações técnico-conceituais, Blade Runner 2049 é, de fato, uma obra muito distinta na cinematografia contemporânea. Alguns críticos levantaram a ideia do longa ser a melhor sequência de um filme já feita. Difícil essas rotulações se colocarmos em comparação o escopo das obras sequência da história do cinema. Como desconsiderar trabalhos como “O Poderoso Chefão Parte II” (1974), ou “O Exterminador do Futuro: O Julgamento Final” (1991) ou The Dark Knight (2008), para não sairmos da escala industrial.

Talvez mais relevante seja discutirmos as novas nuances que realizadores como Denis Villeneuve trazem para a cinematografia de gênero. Renovando-a e incorporando novos traços em seu fazer. Em termos de lista, o jogo começaria com uma relação de como as obras de novos autores como Alex Garland, Jonathan Glazer e Michel Gondry tem reconfigurado a ficção científica, cada um a seu modo e pontos de vista no exercício cinematográfico. Esse parece um excelente ponto de debate.

 

 

*Na mitologia de Blade Runner, os Replicantes são um grupo de androides projetados geneticamente com o único propósito de serem comercializados como objetos ou usados para propósitos de exploração e colonização de outros planetas.

 

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Blade Runner 2049

Tempo de Duração: 164 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2017

Gênero: Drama, Sci-fi, Mistério

Direção: Dennis Villeneuve

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *