A BASE CONSERVADORA DE TEMER, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Desde que as forças do Golpe colocaram no poder Temer e seu vasto grupo político, temos assistido a uma variedade de retrocessos e disputas que demarcam esse assalto da presidência da República.

No campo das disputas, vale a pena relembrar sua gênese em 2016, o vexame de ser obrigado a demitir, por pressão da Rede Globo, em apenas 19 dias de governo, dois ministros por ele nomeados. O primeiro da lista foi Romero Jucá, então ministro do Planejamento, ao ser flagrado nacionalmente, em áudio vazado pela GLOBO, no qual aparecia aconselhando que se fizesse um pacto que envolvesse todos os três poderes republicanos “para estancar a sangria” da Lava-Jato; o segundo foi o ministro da Transparência, Fabiano Augusto Silveira, em outro áudio vazado também pela GLOBO, uma das forças golpistas para quem não interessava a permanência de Fabiano no ministério, uma vez que era apoiado pela ONG Transparência Internacional e pelo Sindicato Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle, também contrário à Lava-Jato, por motivos diferentes dos de Jucá.

Pelo lado dos retrocessos conservadores, um segundo movimento que se pode destacar nesses dois anos de período golpista, é o crescimento da participação no poder central do espectro religioso conservador.

Por exemplo, para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Temer nomeou o bispo da Igreja Universal, Marcos Pereira, homem de inteira confiança de Edir Macedo. Para o Ministério do Trabalho, o convidado foi o pastor da Assembleia de Deus, Ronaldo Nogueira, igreja da qual se destacam os deputados Marco Feliciano, a deputada Cantora Lauriete (esposa do senador Magno Malta, ambos divorciados, algo que não é bem visto por seus pares de fé cristã). Ainda em outro movimento para reforçar a face conservadora do seu governo, Temer nomeou para a Secretaria de Políticas para Mulheres a deputada evangélica Fátima Pelaes, também da Assembleia de Deus, investigada por desviar quatro milhões de reais de verbas do Ministério do Turismo. E finalmente, o líder do governo na Câmara indicado por Temer foi o deputado André Moura, católico conservador, réu em três ações no Supremo Tribunal Federal, respondendo a outros três inquéritos na mesma Corte (um deles por tentativa de homicídio, outro por envolvimento na Operação Lava Jato), membro da tropa de choque de Eduardo Cunha. Já foi condenado pelo Tribunal de Contas da União quatro vezes por irregularidades na gestão de dinheiro público, multado por improbidade administrativa. Foi proibido de concorrer à eleição em 2014 e teve duas de suas contas de campanha rejeitadas pelo Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe.

E por que Temer tem prestigiado a base conservadora religiosa?

Hoje o Congresso conta com 75 deputados federais e três senadores evangélicos. É a maior bancada evangélica da história. Cada vez mais isto tem chamado atenção de cientistas sociais. Desde o início das articulações para a deposição da presidente Dilma Rousseff, esse grupo começou a se posicionar como um bloco coeso votando favoravelmente pelo impeachment, em nome de Deus.

Além disso, esse bloco religioso tem defendido pautas cada vez mais alinhadas à direita do espectro político: seja no campo dos costumes ou no de políticas sociais e econômicas. E seguindo uma tendência que não é apenas brasileira, parece ter encontrado na Bíblia cristã uma ferramenta ideológica de seduzir o filão mais conservador da sociedade.

Nesse estado de violência em que estamos imersos, inaugurado pelo golpismo com seu desmonte do Estado de Bem-Estar brasileiro e da redução da tolerância social necessária a qualquer democracia moderna, fica uma pergunta curiosa que começa a cada dia vir sempre mais em evidência. De um lado temos o império da Rede Globo, a toda poderosa televisão do beijo gay e do BBB; de outro lado o Bloco das Igrejas Cristãs de matiz conservador, pudico, homofóbico e patriarcal: ambas as forças alimentando e compondo o mesmo governo ilegítimo. Até quando conseguirão conviver harmonicamente na sustentação do Golpe?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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