AZAR DO XARÁ, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

E eles eram primos.

Netos do doutor Heliodoro, proprietário de alguns hectares de terras férteis e produtor de toneladas e mais toneladas de grãos, com que abastecia, alhures, mercados de alimentos não perecíveis, bem como de algumas centenas de cabeças de gado de engorda, para o abate e corte, e de algumas outras de gado leiteiro – o que o tornava fornecedor, com direito a privilégios, de tradicional indústria de laticínios –, eles nasceram em berço esplêndido, num dia de muita luz e calor, um às onze e pouco e o outro às doze e pouco. Nesse dia, toda a Fazenda Relicário explodiu em alegria e felicidade. E o doutor, para manter uma tradição familiar, juntou-se ao filho e ao genro, seus parceiros nos negócios e pais dos recém-nascidos, caminharam até a entrada da sede da fazenda e, mirando nas poucas nuvens que mudavam de forma ao sabor do vento, descarregaram suas espingardas de cartucho, como se pretendessem assim comunicar ao mundo a razão de seus contentamentos, de seus júbilos.

Na pia batismal, ambos receberam o mesmo nome: Augusto. Era a homenagem justa e merecida – segundo a avó, a doutora Elisandra – ao saudoso coronel Augusto, nortista e destemido desbravador, que adotou como sua a terra nordestina que tão bem o acolhera e onde fincou as raízes do respeitável clã “dos Anjos”. Nesse dia, um domingo de festas, a casa grande da fazenda se encheu de gente e todos, indistintamente, saborearam os mais suculentos petiscos da cozinha sertaneja, então abastecida com carne de novilhos, borregos, cevados e frangos caipiras. E muitos tiraram a barriga da miséria.

Nos assentamentos cartoriais, ao mais velho, gerado nas entranhas da sempre menina-moça Rosário de Maria, a bela e afável caçula e os quereres do “doutor”, atribuíram o nome de Augusto Oliveira dos Anjos, logo carinhosamente chamado de Guto; o mais novo, nascido de Ângelo de Maria, o primogênito, distinto e firme de propósitos, o braço direito e sucessor natural do “doutor”, registraram-no como Augusto dos Anjos Ferreira, logo também carinhosamente chamado de Gutinho.

Os dois cresceram sob os olhares dos pais e avós, tão amorosos quão prodigiosos, zelosos e cautelosos, e seus encantos irradiaram para muito além dos limites da fazenda. Se suas parecenças físicas se robusteciam à medida que cresciam [Era comum ouvir pessoas dizerem: – Parecem gêmeos!] e se tornavam bem mais visíveis aos olhos dos mais exigentes dos observadores, as ações e reações dos já pré-adolescentes chegavam, em não raras situações, a ser tão díspares, tão dissemelhantes, que ocorria, às vezes, alguém ousar, embora veladamente, questionamentos do tipo: – Será que são netos dos mesmos avós?! Ou: – Imagine se não fossem netos dos mesmos avós! Havia até quem se arriscasse a levantar a hipótese de troca no berçário, como se isso fosse possível, porquanto o Hospital e Maternidade Anjos de Deus, equipamento de referência na região, constituía um centro de proteção à saúde e à vida inserido no patrimônio do clã “dos Anjos”, cujo gerenciamento cabia aos beneméritos doutores Heliodoro, ginecologista e obstetra, e Elisandra, pediatra, os respeitados avós.

Guto era teoria pura, era a sede de saber. Gutinho era prática ao extremo, era o prazer de fazer. Mantinham uma relação de amizade inabalável. Riam muito de suas semelhanças e muito mais de suas diferenças. Ambos desfrutaram dos mesmos investimentos e dos mesmos cuidados, estudaram nos mesmos colégios, com os mesmos professores, com as mesmas possibilidades de formação extracurricular, com desempenhos distintos em áreas específicas, mas com rendimentos escolares que bem refletiam o alto grau de inteligência de que eram possuidores. Tinham os seus méritos por todos reconhecidos.

Ambos ingressaram no curso de Medicina, aprovados no mesmo vestibular. Guto por vocação. Gutinho por imposição dos pais e avós.

Um dia o mais fraco dos elos da corrente arrebentou. E Gutinho sumiu. Tudo, mas tudo mesmo foi feito, para desvendar o mistério do seu desaparecimento. Debalde.

Guto concluiu a graduação, especializando-se em Clínica Geral. Com Mestrado em São Paulo, doutorou-se nos Estados Unidos. Ao retornar, pôs em prática os conhecimentos adquiridos, em clínica própria, um presente dos avós, e na faculdade, como docente titular de disciplinas da grade curricular do curso de Medicina. Casado com uma colega de profissão, ainda não se achavam capazes de ter filhos e, assim, iam adiando um projeto que consideravam de extrema responsabilidade. Moravam em apartamento de condomínio de luxo. Tornou-se um profissional merecedor do respeito de todos.

Gutinho, sem que a família obtivesse qualquer informação do seu paradeiro, modificou estranha e bruscamente a sua trajetória de vida. Alterou seus principais dados de identificação, sua forma de exercer a cidadania, seu comportamento como indivíduo especialmente dotado de inteligência e criatividade e generosamente aquinhoado de tão elogiosas origens. Descaracterizou sua aparência física. Mudou profundamente os seus hábitos e costumes. Subiu um dos morros cariocas. Com astúcia e perspicácia, exímio estrategista e executor perfeccionista, logo assumiu o comando de um disputado ponto de tráfico de drogas. Costumava vangloriar-se de quantos desafetos mandara, pela singular competência no manuseio de armas, de todo e qualquer porte, às profundezas do inferno. Passou a ser temido pelos que se submetiam ao seu poder, a ser invejado e detestado pelos seus insaciáveis concorrentes e a ser perseguido pela ação policial.

O tempo passou. E os primos prosseguiam, cada um a seu modo, as suas vitoriosas jornadas pelos sinuosos ou tortuosos caminhos que a Vida lhes impunha.

Com a presença das forças do Exército nos morros cariocas, Gutinho se sentiu obrigado a abandonar todo o seu marginal império de horrores e retornar à capital do seu estado natal. Alugou apartamento em condomínio de luxo e passou a agir por sua conta e risco. Adotou visual e comportamento que afastavam qualquer tipo de desconfiança das pessoas de seu atual convívio. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, seria convidado a pagar pelos crimes que cometera. Enquanto isso não acontecesse, tocaria a vida ao seu estilo.

Já eram quase onze horas da noite do sábado. O doutor Augusto e respeitável consorte retornavam de um agradável jantar a dois, enamorados como sempre. Ele manobrou a sua Range Rover branca até estacioná-la numa das vagas da garagem do subsolo que lhe eram reservadas. Recolheu as chaves do apartamento, o celular, os documentos e a carteira de cédulas. Abriu a porta do carro e desceu. Voltou-se para a mulher, pedindo um tempo para que lhe pudesse demonstrar, mais uma vez, o seu caráter de cavalheiro. Sentiu um calafrio. O cano de um revólver na nuca e a ameaça de um marginal anunciaram o pior. Não reagiu.

– Calma, amigo! – Disse num quase sussurro.

– Não sou seu amigo, filhinho de papai! E muito cuidado! Qualquer movimento em falso e seus miolos…

– Certo. Por favor, diga o que quer…

– Primeiro, manda a mulher deixar todos os pertences dela no piso do carro, descer e recostar-se no carro ao lado [O dela!]. Isso. Se ela olhar para trás, você morre. Agora, passa os seus pertences. Tudo. Isso. Sem gestos bruscos, vire-se de frente pra mim.

E os dois sofreram, de imediato, uma violenta perturbação psíquica. Sentiram que algo de comum havia entre eles. O doutor não se conteve:

– Gutinho?!

E o marginal, ao ser reconhecido, mostra toda a sua fria praticidade. Um tiro à queima roupa. Uma bala trespassa um crânio privilegiado, indo instaurar a desgraça e a dor – irremovíveis – no seio de uma família tão perfeita. Um corpo já sem vida tomba e vai ao chão. O grito de pavor de uma mulher aturdida se perde no silêncio da ampla garagem e é abafado pelo barulho de uma noite de sábado, em plena efervescência.

O assassino manobra a Range Rover e sai calmamente do estacionamento. Já fora da cidade, para o veículo. Vasculha os documentos da vítima e confirma a identidade do infeliz: Augusto de Oliveira dos Anjos. Medita um pouco. Lembra-se dos avós e dos pais. Da fazenda, da infância, da adolescência, dos estudos. Da amizade. Quase se deixa sucumbir a um inédito arrependimento. Reage ferozmente:

– Azar do xará!

Retoma a sua viagem sem destino. A adrenalina embaralha as suas sinapses. Aos poucos, vai impondo maior velocidade ao veículo. Exaspera-o, então, a esquisita sensação de que fugia de algo. Algo muito estranho. Nunca sentido. Sons de sirene perfuram a blindagem do carro. Homens da lei o perseguem. Exige o máximo de potência que a máquina podia oferecer. O painel luminoso reflete o tamanho do seu desatino. Uma curva surge à sua frente. Cerra os olhos. Abandona o comando da nave. Voa. Dá-se, assim, o trágico fim da aventura em que absurdamente se transformara a sua vida.

Faltavam uns poucos minutos para a meia-noite do sábado. E os dois morreram no mesmo dia: um, pouco antes das onze; o outro, pouco antes das doze.

E eles eram primos.

Post scriptum:

1. Pacientes leitores, como vocês chegaram até aqui, cumpre-me adverti-los: qualquer semelhança com a realidade, desconsiderem-na, por favor! O texto que acabaram de ler não passa de uma peça de ficção. Os fatos ali narrados só aconteceram na cabeça “invencionista” do autor.

2. Fonte de inspiração: AIRTON MONTE. Botafoguense, psiquiatra, poeta, cronista, além de outros predicativos não menos expressivos, diariamente publicava suas crônicas no caderno Vida&Arte do jornal O Povo. Tornei-me seu assíduo leitor (assim como de Carlos Heitor Cony, no Folha de S.Paulo). O título da do dia 19 de março de 2002 era, exatamente, AZAR DO XARÁ.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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