Atual conjuntura e método confuso

“Foi em Diamantina onde nasceu JK/E a princesa Leopoldina lá resolveu se casar/Mas Chica da Silva tinha outros pretendentes/E obrigou a princesa a se casar com Tiradentes” são versos do “Samba do crioulo doido”, de Sérgio Porto. Como introdução às situações absurdas que se sucedem, fala-se da trajetória de um compositor de samba-enredo que, durante muitos anos, obedeceu ao regulamento da escola e só fez samba sobre a história do Brasil, a saber, Inconfidência, Abolição, Proclamação, Chica da Silva. Até que escolheram um tema complicado – “atual conjuntura” –, por conta de que o sambista perdeu a razão.

Na “atual conjuntura” política brasileira, a observar tão-só os jornais diários e se não tiver defesas bastantes, aquele com veleidades de analista pode ter, semelhantemente e no limite, o destino do sambista. Na verdade, o Brasil nunca foi para amadores, a complexidade nacional é realmente oceânica, todavia, mesmo para aqueles que, pela experiência feita ou pelo estudo da história, já viram tudo ou quase tudo em matéria política, a atual conjuntura descortina, a cada momento, não apenas novidades, mas surpresas mil, fazendo com que apanhar o fio condutor do processo seja trabalho de Hércules.

A título de amostragem, recolho três situações. Uma advém do governo federal, o qual, na sua demonstração de que o “ajuste fiscal” é para valer, elegeu velhinhos, órfãos e viúvas para a tesourada exemplar, ameaçando com o adiamento da primeira parcela do “décimo-terceiro” e anunciando a providência às vésperas da manifestação “contra” do último dia 16 (ressalto o “contra”, porque um repórter televisivo noticiou que, a da última quinta-feira, era um protesto “a favor”).

A outra é a trajetória em fórmula de parábola do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no seu desapoio/apoio à tese do “impeachment” da presidente Dilma Rousseff. Entre março e agosto deste ano, foi do paternal chamamento à ordem do seu público interno para os riscos de uma aventura (“não adianta de nada tirar a presidente. Vai fazer o quê depois?”) a enfático e ardiloso apelo à renúncia presidencial como “gesto de grandeza”, para evitar o que considera “desarticulação crescente do governo e do Congresso, a golpes de Lava Jato”.

E, a última, porém, não a menor, aconteceu no Ceará, patrocinada pelo Centro Industrial do Ceará, o CIC, que, para aumentar o rol de contribuições ao encaminhamento da crise em que o país se debate recorreu à plataforma tresloucada de nada mais, nada menos do que Jair Bolsonaro, convidado a falar sobre a “ética na política”. O CIC é a instituição de que emergiram os maiores responsáveis por aquilo que o cientista político Washington Bonfim, na sua tese de doutorado, chamou de “americanização do Ceará”; Judith Tendler denominou “bom governo nos trópicos”; e Anthony Giddens considerou exemplo de como, com apoio externo apropriado, a iniciativa de “jovens líderes empresariais” que assumiu o poder em 1987 e confrontou-se com a política das elites tradicionais do Ceará, foi capaz de reverter processos fortemente arraigados.

Destarte, onde buscar o método para a análise da “atual conjuntura”? Lembrei-me de um livro, sucesso editorial nos anos 20 do século passado, ou seja, a bem-humorada “História do Brasil pelo método confuso”, de autoria de um Mendes Fradique (de fato, pseudônimo que se atribuiu o médico capixaba José Madeira de Freitas). Nas crônicas reunidas em livro, amalgamando épocas, fatos e personagens e fazendo-os acompanhar de caricaturas, produziu-se um relato, ao mesmo tempo, sarcástico, crítico e burlesco dos fatos da época tomados em perspectiva. Com certeza, se não como condição suficiente, o “método confuso” de Fradique Mendes é condição necessária para dar algum sentido ao caldeirão de acontecimentos da “atual conjuntura” política brasileira e, também, para evitar o destino do sambista bem-comportado.

P.S. A propósito e em adendo, do mesmo autor da letra do “Samba do crioulo doido”, foi recentemente reeditado o ” Festival de besteira impressa que assola o país (Febeapá)”. Na “atual conjuntura”, que falta faz Sérgio Porto!

Filomeno Moraes

Filomeno Moraes

Cientista Político. Professor da UNIFOR e da UECE. Doutor em Direito na USP, mestre IUPERJ e livre-docente em Ciência Política UECE.

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