Assédio moral feminino: o outro lado da moeda, por Hérika Vale

A Lei nº 12.250 de 2006 diz que pode ser considerado assédio moral qualquer ação, gesto ou palavra que submeta pessoas a situações humilhantes, entre outras características que tipificam tal abuso.  Não compreender a existência da caracterização de assédio moral  me fez passar por uma das experiências mais difíceis na minha vida profissional. A demora em identificar o assédio sofrido há pouco tempo me custou bem mais que meu emprego e contas atrasadas. Resultou, ainda, numa das  maiores decepções como profissional de imprensa.

Quando falamos em assédio, automaticamente nos vem à cabeça a figura masculina, talvez pela visibilidade que é dada ao assédio sexual. Praticamente toda semana a imprensa aborda algum caso, recentemente vieram à tona episódios em que figuras públicas masculinas, famosas e ricas  assediaram mulheres e outros homens.

O assédio por si já é agressivo, capaz de danos muitas vezes irreparáveis, seja ele de ordem  sexual ou moral.Muitas mulheres já sofreram algum tipo de abordagem intimidadora pelo menos alguma vez na vida.Mas o que quase não se escuta falar  é sobre o assédio moral que mulheres praticam sobre as outras mulheres.Ser assediada por outra mulher tem um peso esmagador, capaz de minar a auto estima da pessoa mais auto confiante do universo.

“Estamos no dia 15, você tem até o fim do mês para apresentar resultados. Se isso não acontecer, infelizmente nós teremos que reavaliar a sua estadia na empresa”, essas  palavras foram proferidas em uma reunião a portas fechadas com uma ex superior. Sim, eu estava avisada que deveria fazer “chover de baixo pra cima”, se quisesse permanecer no emprego. Lembro-me de ter saído da “reunião” com uma sensação de “meu deus, e agora o que eu vou fazer?”. Sentei em frente ao computador e não consegui escrever absolutamente mais nada.Dias antes, havia pedido demissão de dois empregos para me dedicar àquela nova experiência, estava há pouco menos de 1 mês, me adaptando às rotinas. Não querendo achar invasivas as ligações recebidas fora de hora. Acordar  5 da manhã e já ver aproximadamente dez mensagens de cobranças de assuntos sobre trabalho, de um expediente que só começaria dali a algumas horas.Não queria achar estranho mensagens falando de mais trabalho, às 8h  da manhã de um domingo. Não queria achar errado a sensação de tristeza e angústia que me assaltavam,quando sabia que mais uma semana iria começar.

A fase de adaptação do “novo emprego” simplesmente não aconteceu. Nesse curto espaço de tempo, fui chamada de desatenciosa e calma demais. Em outra ocasião a  superior me indagou se ali realmente seria o meu lugar.As constantes cobranças, me fizeram questionar a qualidade do meu trabalho e duvidar se eu seria mesmo uma boa profissional.Comecei a ter bloqueio criativo.Pensei ter desaprendido até mesmo a escrever.Coisa que  mais amo na vida.Até que pontualmente no final do mês, encerramos nossa “parceria”.Sem aviso prévio, somente com um “não precisa ficar na parte da tarde”.

Se eu  sofri assédio moral?S im, sofri e demorei a perceber isso .Tão chocada estava.

Para maior surpresa, descobri em conversas com algumas amigas casos bem mais graves, onde  executivas perseguiram estagiárias, menosprezaram a maneira de como a outra falava, se vestia. Executivas que, em episódios lastimáveis de descontrole, aos berros mandaram a colaboradora escolher entre o marido e o trabalho. Outro caso em que a gravidez da colaboradora foi motivo de intimidação e manipulação para que a moça pedisse as contas, porque “esta empresa é um comércio e não temos creche”.

De acordo com uma recente pesquisa divulgada pelo vagas.com, após entrevistar aproximadamente 5 mil pessoas, foi constatado que 52% dos entrevistados relataram ter sofrido algum tipo de assédio no trabalho,  87,5% não denunciaram. O assédio moral, que pode ser caracterizado por piadas, chacotas ou gritos constantes é o líder de queixas. Entre os entrevistados, 47,3% afirmaram já ter sofrido este tipo de agressão. As mulheres responderam por 51,9% dos casos.

Ao analisar os dados acima e confrontar com as várias situações que me foram apresentadas, me parece absurdamente cruel, que pretensas líderes se valham de modelos ultrapassados de chefia para subjugar, humilhar e ameaçar colaboradoras. Mulheres assediando mulheres, se utilizando da sua posição para explorar, invadir a privacidade, ofender a honra e muitas vezes fazendo uma pressão tão feroz a ponto de deixar marcas profundas no aspecto psicológico da outra.

Saber diferenciar liderança de chefia,  é um dos princípios básicos de qualquer bom líder. Nessa corrida quase sem freio que tem se tornado a vida em sociedade, onde a figura feminina é constantemente posta sob pressão, nada mais triste e vergonhoso do que perceber que nós mulheres, muitas vezes temos deixado de lado o que nos diferencia do abusador para nos igualarmos a ele. Isso não é uma questão de sexo, caros, é uma questão de prova de caráter.​

 

Hérika Vale

Hérika Vale

Jornalista, Graduada em Língua Portuguesa , apaixonada por educação,pela cultura do meu sertão e pela boa política. Feminista com "F" maiúsculo ,com causa e propriedade, e colunista do Segunda Opinião.

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