ARTISTA NÃO MORRE; NO MÁXIMO, FICA EM PERIGO, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Às vezes desaparecia. Um mês, dois, sem vir aos bares da antiga convivência, sem frequentar lugares amados, como se, de repente, a rotina o ameaçasse de esmagamento e uma exigência interior o levasse a procurar outras paisagens, outras pessoas”. [Milton Dias, em ENTRE A BOCA DA NOITE E A MADRUGADA. Fortaleza: Edições UFC, 2008; pág. 46].

Surpresa e espanto.

Isso é o que causou a notícia de que houvera sido concedida uma transferência de servidor, do Rio para Fortaleza, embora sem ônus para os cofres públicos.

Aprovado em processo seletivo específico, o beneficiário ocupava, havia uns cinco anos, o cargo de Contínuo, que compunha, com outros tidos como de apoio, uma categoria destituída de privilégios por outras legitimamente usufruídos, tais como ascensão funcional, viagens a serviço, exercício de função comissionada e remoção, além de submetida ao uso obrigatório de fardamento – camisa branca de mangas curtas, calça de cor cinza e sapatos pretos – fornecido pela repartição, o que distinguia os seus integrantes dos demais colegas de ofício.

Como ele conseguira esse tratamento à margem da prescrição regulamentar, todos só iriam saber com a sua chegada e posse.

Com a aparência física denunciadora da influência carioca, com a malemolência e a musicalidade preguiçosa do jeito de falar próprio de um bom baiano, o cabeça chata, há muitos anos vagando por outras plagas, longe da terrinha que o viu nascer, apresentou-se no novo local de trabalho com alguns minutos de atraso. A impontualidade viria a ser uma das marcas negativas de seu comportamento funcional, debalde as recorrentes advertências.

Logo, logo, tornou-se do domínio público o arrazoado em que se fundamentara o seu retorno oficial à terra-mãe: questão de vida ou morte, na essência.

Boêmio, sambista e exímio no dedilhar das cordas de um cavaquinho, e matreiro, arguto e cortês com o belo sexo, acabou se envolvendo numa trama de alto risco. Casado, sem filhos, mantinha, há algum tempo, na condição de amante, como se única amada fosse, a esbelta e faceira mulata de seus sonhos juvenis, resultado de uma cálida conquista em pleno Maracanã, em dia de jogo do Fluminense, mais uma de suas grandes paixões. Dizia ter sido o golaço que conseguira marcar sob a pressão da arquibancada pulsátil, sob a odorífera chuva de pó de arroz. Pouco tempo depois, num dos ensaios da Verde-Rosa, a escola de samba que fazia desfilar a sua desassossegada alma, apaixonou-se por uma graciosa mulatinha, espírito prenhe de carências e envolto em um corpinho cravejado de reentrâncias e protuberâncias que já não mais cabiam no vestidinho de tecido ordinário, e, com jeito e lábia, dela mereceu a aceitação da proposta de ser a terceira integrante de seu harém em formação. Então, ocorreu o pior. As outras duas mulheres, já desconfiadas do seu jeito insaciável de amar, descobriram a razão de suas fugas, de seus desaparecimentos, de suas omissões. Aliaram-se – o que até então seria improvável – contra ele e o ato de imperdoável infidelidade que cometera, com o agravante – para elas – de pedofilia: a garota era apenas uma menininha pós-desmame… Obtiveram apoio de familiares, já acostumados a dar o devido trato a casos da espécie: direcionavam todo o seu poderio bélico contra um único alvo – o traidor, que, no seu restrito caso, com a vida em risco, optou pelo recuo de teor estratégico, pela renúncia revestida de salvamentos, pela saída à francesa do palco de tão fortes emoções que, para sua trágica atuação, os seus ora desafetos montaram.

Por isso, ali, ou melhor, aqui estava ele. São e salvo. Pronto para outras aventuras.

Em muitas histórias, contadas em versões várias, o que não lhes conferia veracidade, o cabeça-chata-carioca-baiano desempenhava malandramente o papel de protagonista. Para algumas delas, ele se reservava o direito de assinar a versão original. Como a da aposta da loteria esportiva não encerrada.

Retornemos, pacientes leitoras(es), ao tempo em que o número de ganhadores do prêmio maior somente era divulgado pela Caixa Econômica ao meio-dia da segunda-feira. Muitas loucuras foram perpetradas no intervalo que ia do término dos jogos e conhecimento dos acertos à divulgação oficial do universo de acertadores.

Bem no início do expediente da manhã, ele, com ar de desânimo e frustração, anunciou, sem pedir reservas, que houvera acertado doze dos treze jogos da edição de fim de semana da loteria esportiva. Perdera na grande zebra, jogo em que fizera uma dupla marcação: vitória do favorito e empate; mas o outro time é que vencera. E arrematou: – Se tivesse ganhado sozinho o grande prêmio, adeus trabalho!

Ao meio-dia, o anúncio oficial do resultado pegou-o de calças curtas: ninguém houvera acertado os treze jogos; poucos, com doze acertos, ganharam uma pequena fortuna. Ele, não! Então, desconversou: um primo vindo do Recife, que na semana com ele estivera dividindo o pequeno espaço da quitinete em que morava, insistira em levar sua aposta para encerrar na Veneza brasileira; devido a alguns contratempos, atraso de voo inclusive, acabara por não finalizar o jogo. Ei-lo, agora, inconformado: perdera a chance de abandonar a pobreza de uma vez por todas. A serenidade com que vendeu essa versão revelava a certeza de que conseguira convencer a todos. Bem que não!

Há uma outra situação digna de registro.

Mesmo tendo esquecido o cavaquinho, não largou a vida boêmia. Elegeu um dos barezinhos festivos de uma área preferida dos notívagos como ponto de aconchego de sua desassossegada alma. Às sextas, vivenciava momentos de plena expressão do que seja um verdadeiro amante da noite. Bebia, conversava, conhecia gente… sem sequer perceber o passar do tempo. Encantou-se com uma jovem agente de viagem. Enamorou-se. Prometeu até casar-se.

Na noite dessa promessa, dividiu uma alegre mesa com a noiva, o irmão dela e a esposa dele. Reclamou tratamento mais qualificado. Foi atendido. O consumo se restringiu a algumas cervejas. Quando se decidiram ir embora, fez questão de assumir a despesa, afinal ele é que os convidara. Levantou-se, foi até ao dono do bar e, com a habilidade de um carioca bem formado, conseguiu convencê-lo a dependurar a conta no caibro mais alto do recinto. E desapareceu.

O tempo passou. O noivado fez água. A conta… bem, a conta acabou lançada sob o título Perdas Diversas, após um longo tempo dormitando em Créditos a Recuperar.

De namorada nova, vai o cabeça-chata-carioca-baiano, a passos lentos, pela calçada dos barezinhos festivos, sem a mais mínima das preocupações, de braços dados com a amada, de um lado, e com a cunhada, do outro. Ao vê-lo em exuberante vivência, o dono do bar e seu credor desesperançado, do lado de dentro do balcão, apela:

– Ernaldo, e aquelas cervejas, cara?!

Ele para, desvia o olhar por sobre o ombro da amada e em direção ao cobrador, e propõe desavergonhadamente:

– Põe todas no congelador da geladeira, amigo, que eu vou ali deixar as meninas na casa delas e, na volta, a gente toma.

E seguiu em frente. Apaixonado como esteve sempre.

Ao dono do bar, coube resmungar:

– Artista não morre; no máximo, fica em perigo.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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