Aquela esperança de tudo se ajeitar, por Osvaldo Euclides

A desigualdade entre os brasileiros é uma questão cada vez mais dramática. O problema se agrava sempre que há crises, sejam elas políticas ou econômicas, ou as duas simultaneamente, como é o caso de agora. As duas extremidades da pirâmide são afetadas de forma diferente e também reagem de forma diferente.

O ‘andar de baixo’ não tem muitas opções e não tem acesso a mecanismos de proteção de seus empregos e interesses. O ‘andar de cima’ (salvo engano, 171 mil brasileiros que ganham acima de 165 mil reais mensais) tem inúmeras opções e acessa facilmente mecanismos de proteção de seus negócios e interesses. É complicado entender quem tem mais força perante o Parlamento? É difícil aceitar que a Imprensa é mais permeável às teses do que se convencionou chamar ‘mercado’? Tem como imaginar um trabalhador fazendo ‘hedge’, comprando ações ou vendendo ativos e apostando em dólar? O andar de cima segue em frente, o andar de baixo sofre.

Ainda que, por extrema boa vontade, admitíssemos que a imprensa e o Parlamento são abertos ao povão, teríamos que reconhecer que o disperso povão não está organizado, não tem um discurso pronto, sequer articula um diagnóstico consistente e coerente, seus gritos não ecoam nas duas tribunas. O andar de cima costuma estar altamente organizado, coeso e tem acesso e influência suficientes para a defesa ágil de suas teses e o faz com competência indiscutível – prova-o a história. Os problemas da base da pirâmide são discutidos imediatamente antes das eleições. E ignorados a partir do imediatamente depois.

Num sistema democrático equilibrado, num regime econômico realmente aberto, os dois grupos (os de cima e os de baixo), numa crise como a atual,  buscariam pontos em comum e fariam uma propota conjunta e encontrariam formas de conciliar os interesses. Afinal, todos se encontram no verdadeiro mercado.

Num sistema democrático doente, num regime econômico frágil e de pouca competição, as duas partes quase não dialogam, as pautas se confrontam e a crise se aprofunda porque não há sequer tentativas de negociação e de conciliação.

A classe média sempre escolhe um lado. E assim age para defender seus próprios interesses. Ela adere àqueles com quem ela mais se identifica, adere àqueles a quem ela admira, aqueles que estão nos níveis que ela aspira alcançar.

As crises se resolvem, cedo ou tarde. Num determinado momento, deixa de ser importante o que causou a crise, onde e quem a começou. E o debate sobre o futuro se reabre. Algumas fagulhas de luz são jogadas no vazio de propostas e são compradas e carregadas por líderes que ainda guardaram alguma credibilidade, alguma legitimidade, e conseguem criar um espaço mínimo de diálogo. É o começo da negociação de que se falou acima, e que esteve (como está) bloqueada.

É essa esperança de tudo se ajeitar que ainda move algumas montanhas, ou que ainda demove algumas graves ameaças de tudo se complicar. Infelizmente, não há nenhum sinal de negociação, conciliação ou pacto de qualquer tipo. Talvez sequer tenhamos (à exceção de Lula, que durante oito anos do governo, surpreendendo a todos, conciliou os interesses das duas extremidades) uma liderança à altura deste desafio, deste desejo, deste sonho.

Só há uma pauta, e ela atende a interesses específicos demais, parece feita para ser imposta, nunca para ser negociada.

Será que ninguém se atreve a criar, consolidar e defender uma ideia diferente, capaz de nos unir a todos? Temos mesmo que esperar as eleições e só abriremos os olhos quando setembro vier? E se setembro não vier?

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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