Anticristo: E a visceralidade da cinematografia contemporânea

Anticristo (2009) é uma obra enraizada em uma visceralidade extrema. De natureza complexa, o longa faz parte do que ficou conhecida como a “Trilogia da Depressão” realizada pelo dinamarquês Lars Von Trier. Afora as duras críticas que sofreu no ano de seu lançamento, faz-se oportuno olharmos para esta obra mais minuciosamente. E ai, cabe abrirmos mão de todo e qualquer (pré)conceito que ainda possa estar impregnado quase uma década após sua criação.

Após a morte prematura do filho, casal decide se recolher em uma cabana localizada em uma isolada floresta. Nesse lugar, chamado Éden, ambos irão enfrentar o peso do luto, da dor e do sofrimento numa viagem talvez sem volta.

Em tese, essa seria a escalada da sinopse do longa. A partir daí, no entanto, Trier tece uma linha narrativa que comunga os preceitos do movimento por ele mesmo idealizado, o Dogma 95*. Com os traços de uma cinematografia mais plástica e estetizada.

Falar dessa plasticidade é observar como o diretor teve o cuidado em concatenar toda a força da realização no prólogo do filme. O uso do slow motion encena a vertente rebuscada e técnica do cinema de Trier.

Ela não é um elemento fixo no conjunto da obra, mas é retomada em pontos bastante específicos do longa. Surge como o respiro que se contrabalanceia aos cortes secos de uma cena a outra, além das recorrentes quebras de eixo na câmera dentro do trabalho do diretor.

O longa comunga em suas raízes os traços de uma cinematografia que lança mão de uma narrativa densa e apoiada em um senso estético e plástico imenso

E certamente é desse ponto que surge a força de Anticristo. As cenas de sexo, mutilação e terror psicológico ocupam um espaço-chave da trama. Mas é esse vezo tecnicista de uma cinematografia que excede o pessimismo e o cinismo de uma produção audiovisual contemporânea, que mais forte se coloca. Seu tom referencial emerge desse traço.

Há aqui uma inter-relação grande com as escolas experimentais, onde as narrativas se desenrolam feito um sonho. E dentro do longa, esses momentos onde tal fotografia explode na tela nos vêm como que por meio de uma referência iminentemente onírica.

Em Anticristo, o tom do horror também sem manifesta pela fantasmagoria numa graciosa referência ao cinema dos primeiros tempos.

Para além disso, no entanto, o filme traz outro dado relevante no estudo do gênero. Uma vez que ele se pensa através de modos não tão óbvios. Primeiramente por Lars Von Trier dispensar clichês nesse ponto. E seu esforço é claro. Sua estória não encarna jovens perdidos e atormentados por assassinos e espíritos. Não. Ele visa a fantasmagoria numa graciosa referência ao cinema dos primeiros tempos. Das imagens que assombram por suas composições.

Tal potencialidade desabrocha em Anticristo e se aperfeiçoa em seu sucessor “Melancholia” (2011). Mas esse conjunto referencial infelizmente se desloca na terceira parte da referida trilogia. Uma vez que em “Ninfomaníaca” (*2013) a estética se restringe aos cortes secos, personagens anti empáticos e altamente opacos em construção dramatúrgicas mesmo.

O sexo, como tema, é montado em Anticristo muito mais por meio da discussão sobre o prazer que se busca para além daquilo o que a carne oferta

E já que em “Ninfomaníaca” o tema aparenta girar em torno do sexo entre arquétipos de personagens altamente difusos, em Anticristo, toda essa sexualidade se monta num maior refinamento. Haja vista que o ato sexual da narrativa evoca mais uma espécie de transcendência no trato da experiência com o prazer. Ou seja, desse prazer para além do gozo, que beira o suplício e que na verdade, busca alcançar sua plenitude no além do que a carne encera. E aí, o diálogo da obra de Trier com o realizador David Cronemberg fica bastante evidente.

Reiterar esse longa como uma produção circunscrita apenas pelo traço da polêmica envolvendo o tema e seus modos de se dar na tela é limitar o gesto do cinema. Há uma complexidade enorme por trás da obra que resvala no ato de criação. Da depressão a qual Von Trier estava envolto ao prazer inegável que o próprio diretor tem em radicalizar seu fazer fílmico também, sem dúvida. Pois o mais importante que um trabalho como Anticristo nos deixa são as questões, as dúvidas e provocações através do exercício artístico.

 

*O Dogma 95 foi um movimento cinematográfico internacional lançado a partir de um manifesto publicado na Dinamarca em 1995 por Thomas Vinterberg, Lars von Trier e demais realizadores do País. Foi escrito para a criação de um cinema mais realista e menos comercial. De cunho técnico, o manifesto apresenta uma série de restrições quanto ao uso de técnicas e tecnologias nos filmes — e ético — com regras quanto ao conteúdo dos filmes e seus diretores —, e suas ideias são tão controversas quanto seus filmes.

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Anticrist

Tempo de Duração: 108 minutos

Ano de Lançamento (DINAMARCA/FRANÇA): 2009

Gênero: Drama, Terror

Direção:  Lars Von Trier

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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